Espíritos errantes
223 — A alma reencarna logo após se separar do corpo?
— Às vezes, sim; porém, em geral, isso ocorre apenas após intervalos mais ou menos longos. Nos mundos superiores, a reencarnação é quase sempre imediata. Como a matéria corporal nesses mundos é menos densa, o Espírito, quando encarnado ali, desfruta quase plenamente de suas faculdades espirituais, encontrando-se em um estado semelhante ao dos sonâmbulos lúcidos entre vocês.
224 — O que é a alma durante o intervalo entre as encarnações?
— É um Espírito errante, que aspira a um novo destino e permanece em expectativa.
— Quanto tempo podem durar esses intervalos?
— Desde algumas horas até milhares de séculos. Em termos absolutos, não existe um limite máximo fixo para o estado de erraticidade. Ele pode prolongar-se por muito tempo, mas nunca é eterno. Mais cedo ou mais tarde, o Espírito precisará retornar a uma existência adequada para se purificar das imperfeições de suas vidas anteriores.
— Essa duração depende da vontade do Espírito ou pode ser imposta como expiação?
— É consequência do livre-arbítrio. Os Espíritos sabem perfeitamente o que fazem. Para alguns, no entanto, esse estado constitui uma punição permitida por Deus. Outros pedem que ele se prolongue, a fim de continuar estudos que só podem ser realizados com proveito no estado de Espírito livre.
225 — A erraticidade é, por si só, sinal de inferioridade espiritual?
— Não, pois existem Espíritos errantes em todos os graus de evolução. A encarnação é um estado transitório; o estado normal do Espírito é o de liberdade em relação à matéria.
226 — Pode-se dizer que todos os Espíritos não encarnados são errantes?
— Sim, no caso daqueles que ainda precisam reencarnar. Não são errantes os Espíritos puros, que alcançaram a perfeição e se encontram em seu estado definitivo.
Quanto às qualidades íntimas, os Espíritos pertencem a diferentes ordens ou graus, pelos quais passam sucessivamente à medida que se purificam. Quanto ao estado em que se encontram, podem ser:
- Encarnados: Quando ligados a um corpo material;
- Errantes: Quando estão sem corpo e aguardam nova encarnação para progredir;
- Espíritos puros: Quando atingiram a perfeição e não necessitam mais encarnar.
Entre os Espíritos não encarnados, há os que desempenham missões e se dedicam a atividades úteis, gozando de relativa felicidade. Outros permanecem em incerteza e instabilidade; são estes que constituem, propriamente, os Espíritos errantes, no sentido mais restrito do termo, frequentemente chamados de “almas a penar”. Os primeiros nem sempre se consideram errantes, pois distinguem sua condição da dos segundos.
227 — De que forma os Espíritos errantes se instruem? Certamente não como nós.
— Eles estudam o próprio passado e buscam meios de se elevar. Observam o que acontece nos lugares por onde passam, ouvem os ensinamentos dos homens esclarecidos e os conselhos dos Espíritos mais elevados. Tudo isso desperta neles ideias que antes não possuíam.
228 — Os Espíritos conservam algumas das paixões humanas?
— Ao perder o corpo, os Espíritos elevados se libertam das paixões inferiores e conservam apenas o desejo do bem. Os Espíritos inferiores, porém, ainda as mantêm; caso contrário, já pertenceriam à primeira ordem.
229 — Por que, ao deixarem a Terra, os Espíritos não abandonam imediatamente todas as más paixões, se reconhecem seus prejuízos?
— Observa neste mundo pessoas dominadas pela inveja ou pelo orgulho. Acreditas que, ao deixarem a Terra, perdem instantaneamente esses defeitos? Após a morte, sobretudo nos que cultivaram paixões intensas, permanece uma espécie de atmosfera que os envolve e conserva suas imperfeições, porque o Espírito ainda não se libertou totalmente da matéria. Apenas por momentos ele vislumbra a verdade, como se esta lhe fosse mostrada para indicar o caminho correto.
230 — O Espírito progride durante a erraticidade?
— Pode progredir muito, desde que tenha vontade e desejo sincero de fazê-lo. No entanto, é na vida corporal que ele coloca em prática as ideias novas que adquiriu.
231 — Os Espíritos errantes são felizes ou infelizes?
— São mais ou menos felizes, conforme seus méritos. Sofrem em razão das paixões que ainda conservam ou são felizes de acordo com o grau de desmaterialização que já alcançaram. Na erraticidade, o Espírito percebe claramente o que ainda lhe falta para ser plenamente feliz e busca os meios de consegui-lo. Nem sempre, porém, lhe é permitido reencarnar segundo sua própria vontade, o que pode representar uma punição.
232 — Os Espíritos errantes podem ir a todos os mundos?
— Depende. O simples fato de ter deixado o corpo não significa que o Espírito esteja completamente desprendido da matéria. Ele geralmente permanece ligado ao mundo onde viveu por último ou a outro de grau semelhante, a menos que, durante a vida, tenha se elevado moralmente, o que constitui o objetivo essencial de seus esforços. Caso contrário, não haveria progresso. Pode, no entanto, visitar alguns mundos superiores, mas apenas como observador, tendo deles uma visão parcial, o que desperta o desejo de se melhorar para um dia habitá-los.
233 — Os Espíritos já purificados visitam mundos inferiores?
— Frequentemente, com a finalidade de auxiliar seu progresso. Se assim não fosse, esses mundos ficariam abandonados, sem guias que os orientassem.
Mundos transitórios
234 — Existem, de fato, mundos que servem como estações ou pontos de repouso para os Espíritos errantes?
— Sim. Há mundos especialmente destinados a Espíritos errantes, que funcionam como habitações temporárias, verdadeiros campos de descanso após longos períodos de erraticidade, que é sempre um estado um tanto penoso. Esses mundos ocupam posições intermediárias entre outros, graduadas conforme a natureza dos Espíritos que podem acessá-los, oferecendo maior ou menor bem-estar.
— Os Espíritos que habitam esses mundos podem deixá-los livremente?
— Sim. Eles podem partir quando precisam seguir para outros destinos. Imaginai bandos de aves que pousam em uma ilha para recuperar forças antes de continuar a viagem.
235 — Enquanto permanecem nesses mundos transitórios, os Espíritos continuam progredindo?
— Certamente. Os que ali chegam o fazem com o objetivo de se instruir e obter mais facilmente permissão para alcançar mundos melhores e, enfim, a posição reservada aos Espíritos elevados.
236 — Esses mundos permanecem para sempre destinados aos Espíritos errantes?
— Não. Sua condição é apenas temporária.
— Esses mundos são habitados por seres corpóreos?
— Não. Sua superfície é estéril, e os que ali vivem não têm necessidades materiais.
— Essa esterilidade é permanente?
— Não. É transitória.
— Esses mundos não possuem belezas naturais?
— A natureza ali reflete as belezas da imensidão, tão admiráveis quanto aquelas que vocês chamam de belezas naturais.
— A Terra já pertenceu a essa categoria de mundos?
— Sim.
— Em que época?
— Durante sua formação.
Nada é inútil na natureza; tudo tem um propósito. Não existe vazio: em toda parte há vida. Durante os longos períodos que precederam o aparecimento do ser humano na Terra, enquanto ela ainda era uma massa informe, caótica e estéril para a vida material, não havia ausência de vida espiritual. Seres livres de nossas necessidades físicas ali encontravam abrigo. Deus quis que, mesmo imperfeita, a Terra tivesse uma função. Quem poderia afirmar que, entre os inúmeros mundos do universo, apenas um tivesse o privilégio exclusivo de ser habitado? Tal ideia seria incompatível com a sabedoria divina.
Percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos
237 — Ao retornar ao mundo espiritual, a alma conserva as percepções da vida corporal?
— Sim, e ainda adquire outras, pois o corpo funcionava como um véu que as obscurecia. A inteligência é atributo do Espírito e se manifesta com maior liberdade quando não há entraves materiais.
238 — O conhecimento e as percepções dos Espíritos são ilimitados?
— Quanto mais se aproximam da perfeição, mais sabem. Os Espíritos superiores possuem vasto conhecimento; os inferiores são mais ou menos ignorantes em muitos aspectos.
239 — Os Espíritos conhecem o princípio de todas as coisas?
— Isso depende do grau de elevação que alcançaram. Os inferiores não sabem mais do que os seres humanos.
240 — Os Espíritos compreendem o tempo como nós?
— Não. É por isso que, muitas vezes, não nos compreendem quando falamos de datas ou épocas.
Os Espíritos vivem fora da noção de tempo tal como a conhecemos. Para eles, a duração quase deixa de existir. Séculos, para nós tão longos, lhes parecem instantes perdidos na eternidade.
241 — Os Espíritos têm uma noção mais justa do presente do que nós?
— Sim, assim como quem enxerga bem compreende melhor do que quem é cego. Eles veem o que vocês não veem e, por isso, julgam as coisas de forma diferente. Isso, porém, também depende do grau de elevação.
242 — Como os Espíritos conhecem o passado? Esse conhecimento é ilimitado?
— Quando se ocupam do passado, ele se apresenta como o presente, assim como ocorre com vocês ao recordar algo marcante. Sem o véu material, a memória espiritual é mais ampla. Ainda assim, os Espíritos não sabem tudo, a começar pela própria origem.
243 — E quanto ao futuro, os Espíritos o conhecem?
— Depende de sua elevação. Muitas vezes apenas o pressentem, e nem sempre podem revelá-lo. Quando o percebem, ele lhes parece presente. Quanto mais próximos de Deus, mais claramente o veem. Após a morte, a alma percebe suas existências passadas, mas o futuro permanece velado, salvo àqueles que já se integraram profundamente às leis divinas.
— Os Espíritos puros conhecem completamente o futuro?
— Não completamente, pois apenas Deus possui esse conhecimento absoluto.
244 — Os Espíritos veem a Deus?
— Apenas os Espíritos superiores o veem e compreendem. Os inferiores o sentem e intuem sua existência.
— Quando um Espírito inferior afirma que Deus lhe permite ou proíbe algo, como sabe disso?
— Ele não vê Deus, mas percebe sua soberania por intuição, como um aviso interior. Algo semelhante ocorre com vocês quando sentem um pressentimento.
— Deus se comunica diretamente com os Espíritos?
— Não diretamente. Para se comunicar com Deus, é necessário ser digno disso. As ordens divinas chegam por intermédio de Espíritos superiores.
245 — A visão dos Espíritos é limitada como a dos seres humanos?
— Não. A visão reside no próprio Espírito.
246 — Os Espíritos precisam de luz para enxergar?
— Não. Eles veem por si mesmos; para eles não há trevas, exceto aquelas impostas como expiação.
247 — Para ver em dois lugares diferentes, o Espírito precisa se deslocar?
— O Espírito se desloca com a rapidez do pensamento. Pode-se dizer que vê em toda parte ao mesmo tempo, embora essa faculdade dependa de sua pureza.
248 — O Espírito vê as coisas com a mesma nitidez que nós?
— Vê com muito mais clareza, pois nada lhe obscurece a percepção.
249 — Os Espíritos percebem sons?
— Sim, inclusive sons imperceptíveis aos sentidos humanos.
— A audição, assim como a visão, reside em todo o Espírito?
— Sim. Todas as percepções são atributos do Espírito. Quando encarnado, elas se manifestam por meio dos órgãos; quando livre, não estão localizadas.
250 — Os Espíritos podem se esquivar das percepções?
— Em geral, o Espírito vê e ouve o que deseja. Contudo, os Espíritos imperfeitos muitas vezes percebem coisas contra a própria vontade, quando isso lhes é útil ao progresso.
251 — Os Espíritos são sensíveis à música?
— A música de vocês é insignificante comparada à harmonia espiritual. Ainda assim, Espíritos menos elevados podem sentir prazer com a música terrestre. A música espiritual é de uma beleza que a imaginação humana não consegue conceber.
252 — Os Espíritos apreciam as belezas naturais?
— Sim, conforme sua capacidade de compreendê-las. Nos Espíritos elevados, as belezas gerais superam as particularidades.
253 — Os Espíritos sentem nossas necessidades e sofrimentos físicos?
— Eles os conhecem, pois já os experimentaram, mas não os sentem materialmente.
254 — Os Espíritos sentem fadiga ou necessidade de repouso?
— Não como vocês. Eles não se cansam fisicamente, pois não possuem órgãos. O repouso do Espírito é a diminuição da atividade mental, não a inatividade absoluta.
255 — Quando um Espírito diz que sofre, de que natureza é esse sofrimento?
— Sofrimentos morais, mais dolorosos do que os físicos.
256 — Por que alguns Espíritos afirmam sentir frio ou calor?
— São reminiscências da vida corporal. Muitas vezes, trata-se apenas de uma forma simbólica de expressar seu estado moral.
Ensaio teórico da sensação dos Espíritos
257
O corpo é o instrumento da dor. Se não é sua causa primeira, é ao menos sua causa imediata. A alma percebe a dor: essa percepção é o efeito. A lembrança da dor pode ser muito penosa, mas não produz ação física. De fato, nem o frio nem o calor podem desorganizar a alma, que não pode congelar nem queimar. Não vemos todos os dias a lembrança ou o medo de um mal físico produzirem efeitos reais, chegando às vezes à morte? É sabido que pessoas amputadas sentem dor em membros que já não existem. Evidentemente, a dor não está no membro, mas na impressão conservada no cérebro. É razoável, portanto, admitir que algo semelhante ocorra nos sofrimentos do Espírito após a morte.
O estudo do perispírito — que desempenha papel fundamental em todos os fenômenos espíritas, nas aparições vaporosas ou tangíveis, no estado do Espírito no momento da morte, na ideia frequente de ainda estar vivo, nas situações comoventes dos suicidas, dos executados e daqueles que se entregaram excessivamente aos prazeres materiais — lançou luz sobre essa questão e permitiu as explicações que seguem.
O perispírito é o elo que une o Espírito ao corpo. Ele é formado a partir do meio ambiente, do fluido universal. Participa, ao mesmo tempo, da eletricidade, do magnetismo e, em certo grau, da matéria inerte. Pode-se dizer que é a quintessência da matéria. Ele é o princípio da vida orgânica, mas não da vida intelectual, que pertence ao Espírito. É também o agente das sensações exteriores. No corpo, os órgãos funcionam como condutores e localizam essas sensações. Destruído o corpo, as sensações tornam-se gerais. Por isso, o Espírito não diz que sofre mais na cabeça do que nos pés.
Não se deve confundir as sensações do perispírito, agora independente, com as sensações do corpo. Estas só podem ser tomadas como termo de comparação, não como equivalentes. Libertos do corpo, os Espíritos podem sofrer, mas esse sofrimento não é físico, embora também não seja apenas moral, como o remorso, pois eles relatam sensações de frio e calor. No entanto, não sofrem mais no inverno do que no verão, nem sentem dor ao atravessar chamas. A dor que experimentam não é propriamente física: trata-se de uma sensação íntima, difusa, que o próprio Espírito muitas vezes não compreende bem, porque não é localizada nem causada por agentes externos. É, na maioria das vezes, uma reminiscência, ainda que muito penosa. Em certos casos, porém, há algo mais, como veremos.
A experiência mostra que, no momento da morte, o perispírito se desprende do corpo de forma mais ou menos lenta. Nos primeiros instantes após a desencarnação, o Espírito não compreende plenamente sua situação. Ele acredita não estar morto, pois se sente vivo; vê o corpo ao seu lado, reconhece-o como seu, mas não entende que está separado dele. Esse estado persiste enquanto houver algum vínculo entre o corpo e o perispírito.
Certa vez, um suicida afirmou: — Não, não estou morto. E acrescentou: — No entanto, sinto os vermes me roendo.
Evidentemente, os vermes não roíam o perispírito nem o Espírito, mas apenas o corpo. Contudo, como a separação ainda não era completa, produzia-se uma espécie de repercussão moral, transmitindo ao Espírito a impressão do que ocorria no corpo. Não se trata exatamente de uma repercussão material, mas da percepção do que acontecia ao corpo, ao qual o perispírito ainda estava ligado, gerando uma ilusão tomada como realidade. Nesse caso, não era uma lembrança, pois o Espírito não havia passado por isso em vida; era a sensação de um fato presente.
Durante a vida, o corpo recebe impressões externas e as transmite ao Espírito por meio do perispírito, que pode ser comparado ao fluido nervoso. Após a morte, o corpo já não sente nada, pois não há mais Espírito nem perispírito ligados a ele. O perispírito, separado do corpo, experimenta a sensação, mas como já não há um conduto localizado, ela se torna geral. Sendo o perispírito apenas o agente de transmissão, e estando a consciência no Espírito, conclui-se que, se houvesse perispírito sem Espírito, não haveria sensação alguma, assim como ocorre com um corpo morto. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a qualquer sensação dolorosa. É isso que acontece com os Espíritos completamente purificados.
À medida que o Espírito se purifica, o perispírito se torna mais etéreo, e a influência da matéria diminui. Quanto mais o Espírito progride, menos grosseiro se torna seu envoltório e menos intensas são as sensações dolorosas.
Pode-se objetar que, se o perispírito transmite tanto sensações agradáveis quanto desagradáveis, o Espírito puro deveria ser insensível a ambas. Isso é verdadeiro no que diz respeito às impressões provenientes da matéria que conhecemos. Os sons dos nossos instrumentos e os perfumes das nossas flores não lhe causam impressão. No entanto, ele experimenta sensações íntimas de uma harmonia e beleza indescritíveis, das quais não podemos formar ideia, assim como um cego de nascença não pode conceber a luz.
Sabemos que o Espírito percebe, sente, vê e ouve, e que essas faculdades são atributos do ser inteiro, e não de partes específicas, como no corpo humano. O modo como essas percepções ocorrem nos escapa, pois nossa linguagem não dispõe de meios para expressar ideias que não possuímos.
O perispírito, retirado do meio ambiente, varia conforme a natureza dos mundos. Ao passar de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, assim como mudamos de roupa ao passar do frio ao calor. Quando Espíritos elevados vêm visitar a Terra, revestem-se do perispírito terrestre e, então, suas percepções se manifestam como as dos Espíritos comuns deste mundo. Todos os Espíritos, porém, só percebem aquilo que desejam perceber, exceto os conselhos dos Espíritos bons, que são obrigados a ouvir.
A visão do Espírito é sempre ativa, embora ele possa tornar-se invisível a outros Espíritos, conforme sua categoria. Nos primeiros instantes após a morte, a visão espiritual é confusa e vai se esclarecendo à medida que o desprendimento se completa. A extensão dessa visão — no espaço, no passado e no futuro — depende do grau de elevação do Espírito.
Pode parecer inquietante saber que o Espírito ainda possa sofrer após a morte. Contudo, também é possível deixar de sofrer, inclusive desde o instante em que termina a vida corporal. Muitos sofrimentos da vida física são consequência direta das paixões humanas. Quem vive com sobriedade, moderação e desapego evita inúmeras tribulações. O mesmo ocorre com o Espírito: seus sofrimentos guardam relação direta com a maneira como viveu.
Quanto mais o Espírito se liberta da influência da matéria ainda durante a vida, menos sofrerá após a morte. Está em suas mãos realizar esse desprendimento: dominar paixões, evitar o ódio, a inveja, o orgulho e o egoísmo; cultivar sentimentos elevados; praticar o bem e relativizar a importância das coisas materiais. Assim, mesmo encarnado, já estará parcialmente livre da matéria, e, ao deixá-la, não sofrerá sua influência.
O estudo de inúmeros Espíritos, de todas as classes e condições, mostrou sempre que seus sofrimentos após a morte correspondiam à conduta que tiveram na vida. A outra vida é fonte de felicidade profunda para os que seguiram o bem. Logo, se alguém sofre, isso acontece como consequência de suas próprias escolhas. Ninguém deve queixar-se senão de si mesmo, neste mundo ou no outro.
Escolha de provas
258 — Quando está no estado espiritual, antes de iniciar uma nova existência corporal, o Espírito tem consciência e previsão do que lhe acontecerá durante a vida na Terra?
— Sim. Ele próprio escolhe o tipo de provas pelas quais irá passar. É nisso que consiste o seu livre-arbítrio.
— Então não é Deus quem impõe as dificuldades da vida como castigo?
— Nada acontece sem a permissão de Deus, pois foi Ele quem estabeleceu todas as leis que regem o universo. Perguntar por que Ele criou esta lei e não outra seria questionar a própria sabedoria divina. Ao conceder ao Espírito a liberdade de escolher, Deus lhe dá total responsabilidade por seus atos e pelas consequências deles. Nada bloqueia o seu futuro: tanto o caminho do bem quanto o do mal estão abertos.
Se o Espírito vier a cair, permanece a consolação de que nem tudo está perdido e de que a bondade divina lhe concede a oportunidade de refazer o que foi mal conduzido. É importante distinguir o que resulta da vontade de Deus do que resulta da vontade humana. Se um perigo surge, não foste tu quem o criou, mas Deus. No entanto, foi tua a decisão de te expor a ele, por enxergá-lo como meio de progresso, e Deus o permitiu.
259 — O fato de o Espírito escolher o tipo de provas que sofrerá significa que todas as dificuldades da vida foram previstas e escolhidas por ele?
— Não todas. O Espírito não escolhe nem prevê cada detalhe da vida, até as menores circunstâncias. Ele escolhe apenas o gênero das provas. Os detalhes decorrem da posição em que se encontra e, muitas vezes, de suas próprias ações.
Ao escolher, por exemplo, nascer em um meio violento, o Espírito sabe que estará exposto a determinadas influências, mas não sabe exatamente quais atos praticará. Esses atos dependem do exercício do livre-arbítrio. Ele conhece a natureza geral das lutas que enfrentará, mas não os acontecimentos específicos. Os fatos principais, aqueles que influenciam o destino, são previstos; os secundários resultam das circunstâncias.
Se escolhes uma estrada cheia de buracos, sabes que precisarás andar com cuidado, pois há risco de cair, mas não sabes em que ponto isso pode acontecer, e talvez nem caias, se fores prudente. Da mesma forma, se uma telha cai sobre alguém ao atravessar uma rua, não penses que isso estava previamente escrito, como se costuma dizer.
260 — Como pode um Espírito desejar nascer em meio a pessoas de conduta moralmente má?
— Porque é necessário estar em um ambiente adequado à prova escolhida. Para combater uma inclinação ao roubo, por exemplo, é preciso estar em contato com pessoas que roubam.
— Então, se não houvesse pessoas de maus costumes na Terra, não existiriam meios para certas provas?
— E isso seria algo lamentável? É o que ocorre nos mundos superiores, onde o mal não existe. Por isso, nesses mundos só há Espíritos bons. Façam com que o mesmo aconteça na Terra o quanto antes.
261 — Para alcançar a perfeição, o Espírito precisa passar por todo tipo de tentação?
— Não. Há Espíritos que, desde cedo, seguem um caminho que os dispensa de muitas provas. No entanto, aquele que se deixa arrastar pelo mal acaba enfrentando diversos perigos.
Um Espírito pode, por exemplo, pedir a prova da riqueza e obtê-la. A partir disso, conforme seu caráter, pode tornar-se avarento ou generoso, egoísta ou desprendido, ou ainda se entregar aos excessos. Isso não significa, porém, que ele tenha de passar obrigatoriamente por todas essas inclinações.
262 — Como um Espírito, inicialmente simples, ignorante e sem experiência, pode escolher uma existência com discernimento e ser responsável por essa escolha?
— Deus supre sua inexperiência, indicando-lhe o caminho, como fazem os pais com uma criança. Aos poucos, à medida que o livre-arbítrio se desenvolve, Ele o deixa escolher por si mesmo. É então que, muitas vezes, o Espírito se perde ao ignorar os conselhos dos Espíritos bons. É isso que se pode chamar de queda.
— Quando o Espírito já possui livre-arbítrio, a escolha da existência depende sempre apenas de sua vontade ou pode ser imposta por Deus como expiação?
— Deus sabe esperar e não força a expiação. No entanto, pode impor uma existência quando o Espírito, por inferioridade ou resistência, não compreende o que lhe seria mais útil, e quando essa experiência contribuir para sua purificação, progresso e reparação.
263 — O Espírito faz essa escolha logo após a morte?
— Não. Muitos permanecem por algum tempo presos à crença em penas eternas, o que, como já foi dito, constitui um castigo.
264 — O que orienta o Espírito na escolha das provas que deseja enfrentar?
— Ele escolhe de acordo com a natureza de suas faltas e com aquilo que pode levá-lo à reparação e ao progresso mais rápido. Alguns se impõem vidas de privações e dificuldades para enfrentá-las com coragem; outros preferem a prova da riqueza e do poder, mais perigosa pelos abusos e paixões que pode despertar; outros, ainda, escolhem enfrentar o vício para testar suas forças morais.
265 — Existem Espíritos que buscam o contato com o vício não como prova, mas por afinidade e desejo de satisfazer paixões materiais?
— Sim, mas apenas entre Espíritos cujo senso moral ainda é pouco desenvolvido. Nesse caso, a prova surge naturalmente, e eles a enfrentam por mais tempo. Mais cedo ou mais tarde, compreendem que a satisfação dessas paixões traz consequências dolorosas, que podem parecer intermináveis. Deus os deixa nessa condição até que reconheçam o erro e, por vontade própria, peçam meios de reparação por meio de provas úteis.
266 — Não é natural que se escolham provas menos dolorosas?
— Isso parece natural do ponto de vista humano, mas não do Espírito. Quando se liberta da matéria, toda ilusão desaparece e sua forma de pensar muda.
Na Terra, o ser humano vê apenas o lado penoso das provas. Por isso acha natural escolher aquelas que ainda permitam prazeres materiais. No estado espiritual, porém, o Espírito compara esses prazeres passageiros com a felicidade duradoura que passa a vislumbrar, e os sofrimentos temporários já não o impressionam.
Assim, pode escolher provas duras e uma existência difícil, esperando alcançar mais rapidamente um estado melhor, como o doente que aceita um remédio amargo para se curar logo. Quem busca descobrir uma região desconhecida não escolhe caminhos fáceis; conhece os perigos, mas também sabe da recompensa.
Quando se compreende que os Espíritos, livres da matéria, avaliam a vida de modo diferente, a escolha de provas difíceis deixa de parecer estranha. Após cada existência, o Espírito vê o quanto avançou e o quanto ainda precisa progredir. Por isso, aceita voluntariamente as dificuldades que podem levá-lo mais rápido à meta.
A vida humana reflete, em pequena escala, a vida espiritual. Assim como na Terra escolhemos esforços e sacrifícios para alcançar posições melhores, o Espírito, que vê mais longe e sabe que a vida corporal é breve, pode escolher uma existência árdua se isso o conduzir à felicidade duradoura.
267 — O Espírito pode escolher suas provas enquanto ainda está encarnado?
— Os desejos que manifesta podem influenciar escolhas futuras, conforme a intenção que os anima. No entanto, como Espírito livre, ele frequentemente vê as coisas de modo diferente. Ainda assim, há momentos na vida material em que o Espírito se desprende da matéria e pode orientar essas escolhas.
— Certamente não é como prova ou expiação que muitos desejam riquezas e poder, não é?
— Não. Nesses casos, é a matéria que deseja desfrutar dessas condições, enquanto o Espírito busca compreender suas consequências.
268 — Até alcançar a perfeição, o Espírito precisa passar constantemente por provas?
— Sim, mas não da forma como vocês entendem. O que chamam de provas são, em geral, sofrimentos materiais. Quando o Espírito se eleva, deixa de sofrer dessa maneira, embora continue sujeito a deveres que contribuem para seu aperfeiçoamento, como ajudar outros a progredir.
269 — O Espírito pode enganar-se quanto à eficácia da prova que escolheu?
— Sim. Pode escolher uma prova acima de suas forças e fracassar, ou uma que nada lhe traga de útil, como uma vida ociosa. Ao retornar ao mundo espiritual, percebe que não avançou e pede nova oportunidade para recuperar o tempo perdido.
270 — A que se devem as vocações e a inclinação de certas pessoas para determinadas carreiras?
— Isso decorre da escolha das provas e do progresso realizado em existências anteriores.
271 — Ao estudar, no estado espiritual, as condições de progresso, como o Espírito imagina alcançá-lo ao nascer, por exemplo, entre povos considerados selvagens?
— Espíritos adiantados não nascem entre povos extremamente atrasados. Aqueles que ali encarnam possuem natureza semelhante ou ainda inferior.
Existem mundos mais rudes do que a Terra, onde a brutalidade é maior. Para Espíritos desses mundos, nascer entre povos primitivos da Terra representa progresso. O avanço do Espírito é gradual; não se dá por saltos. É por isso que a reencarnação é necessária e justa.
272 — Espíritos vindos de mundos inferiores ou de povos muito atrasados podem nascer entre povos civilizados?
— Podem, mas alguns se perdem ao tentar subir rápido demais. Nesse caso, sentem-se deslocados, pois seus instintos entram em conflito com o meio em que vivem.
Ao retornarem ao ambiente anterior, não sofrem degradação, apenas retomam o lugar que lhes corresponde, podendo até se beneficiar disso.*
273 — Um homem de sociedade civilizada pode reencarnar, como expiação, entre povos considerados selvagens?
— Pode, dependendo da natureza da expiação. Quem abusou do poder pode nascer em condição de submissão; quem foi cruel pode sofrer os mesmos maus-tratos que infligiu. Deus pode impor essas experiências como reparação. Um Espírito bom também pode escolher nascer entre povos primitivos, em posição de influência, para ajudá-los a progredir. Nesse caso, cumpre uma missão.
As relações no além-túmulo
274 — A existência de diferentes ordens de Espíritos implica hierarquia e autoridade entre eles?
— Sim. Há uma hierarquia baseada no grau de elevação moral. A autoridade decorre de um ascendente moral natural.
— Espíritos inferiores podem escapar dessa autoridade?
— Eu disse: irresistível.
275 — O poder e o prestígio que alguém teve na Terra lhe conferem superioridade no mundo espiritual?
— Não. Muitas vezes, os pequenos são elevados e os grandes rebaixados.
— Como entender isso?
— Os Espíritos pertencem a diferentes ordens conforme seus méritos. Alguém que foi poderoso na Terra pode ocupar posição inferior no mundo espiritual, enquanto um simples servidor pode estar entre os mais elevados. Foi isso que Jesus ensinou ao dizer que quem se humilha será exaltado.
276 — Um Espírito orgulhoso sente humilhação ao perceber sua inferioridade no mundo espiritual?
— Sim, especialmente se for vaidoso e invejoso.
277 — Um soldado continua vendo seu general como superior no mundo espiritual?
— Títulos não têm valor; apenas a superioridade moral conta.
278 — Os Espíritos de diferentes ordens convivem entre si?
— Sim e não. Eles se veem, mas se distinguem. Aproximam-se ou se afastam conforme a afinidade, como acontece entre vocês.
279 — Todos os Espíritos têm acesso a todos os grupos?
— Os Espíritos bons podem ir a todos os lugares para influenciar os maus. Já as regiões habitadas por Espíritos elevados não são acessíveis aos inferiores, para evitar perturbações.
280 — Qual é a relação entre Espíritos bons e maus?
— Os bons se dedicam a combater as más inclinações dos outros, ajudando-os a progredir. Essa é sua missão.
281 — Por que Espíritos inferiores gostam de induzir os humanos ao mal?
— Por ressentimento. Desejam impedir que outros alcancem o bem que eles próprios ainda não conquistaram.
282 — Como os Espíritos se comunicam entre si?
— Eles se veem e se compreendem diretamente. A palavra é material; o pensamento se transmite por meio do fluido universal, que funciona como um meio de comunicação, assim como o ar transmite o som entre vocês.
283 — Os Espíritos podem esconder seus pensamentos uns dos outros?
— Não completamente. Para os Espíritos, tudo é visível, especialmente para os mais elevados. No entanto, alguns podem tornar-se invisíveis a outros, se julgarem necessário.
284 — Como os Espíritos, sem corpo físico, reconhecem sua individualidade?
— Pelo perispírito, que os distingue uns dos outros, assim como o corpo distingue os seres humanos.
285 — Espíritos que conviveram na Terra se reconhecem após a morte?
— Sim, perfeitamente.
— Como ocorre esse reconhecimento?
— Pela recordação da vida passada, que se apresenta como um livro aberto.
Os Espíritos também podem, quando necessário, se reconhecer pela aparência que tinham quando vivos. Ao Espírito que acaba de chegar, e ainda pouco familiarizado com seu novo estado, os Espíritos que o vêm receber apresentam-se sob uma forma que lhe permite reconhecê-los.
286 — Ao deixar o corpo, a alma vê imediatamente parentes e amigos?
— Nem sempre imediatamente. É preciso algum tempo para que o Espírito se reconheça e se liberte das impressões materiais.
287 — Como a alma é recebida ao retornar ao mundo espiritual?
— A do justo é acolhida com alegria; a do mau, com frieza e afastamento.
288 — Como os Espíritos imperfeitos reagem à chegada de outro Espírito semelhante?
— Sentem satisfação, como criminosos que se reencontram entre iguais.
289 — Parentes e amigos vêm ao nosso encontro após a morte?
— Sim. Aqueles que nos amam vêm nos receber, ajudam no desligamento do corpo e celebram o retorno, como quem volta de uma viagem difícil. Isso é uma recompensa para os Espíritos bons; o isolamento, para os maus, é uma forma de punição.
290 — Parentes e amigos permanecem sempre juntos após a morte?
— Depende do grau de elevação e do ritmo de progresso de cada um. Se um avança mais rápido que o outro, não permanecem juntos o tempo todo, embora possam se reencontrar. A separação temporária pode ser, em certos casos, uma prova.
Relações de simpatia e antipatia entre os Espíritos. Metades eternas
291 — Além da simpatia geral, decorrente da semelhança entre eles, os Espíritos desenvolvem afeições particulares?
— Assim como os seres humanos. Porém, o laço que une os Espíritos é mais forte quando estão livres do corpo material, pois não fica sujeito às instabilidades das paixões.
292 — Os Espíritos sentem ódio uns pelos outros?
— Apenas os Espíritos impuros sentem ódio. São eles que insuflam nos seres humanos as inimizades e discórdias.
293 — Dois seres que foram inimigos na Terra conservam ressentimento um pelo outro no mundo espiritual?
— Não. Eles compreendem que o ódio era absurdo e que os motivos que o geraram eram infantis. Apenas os Espíritos imperfeitos conservam certa animosidade, até que se purifiquem. Se o conflito teve origem apenas em interesses materiais, isso deixa de ter importância, desde que estejam minimamente desprendidos da matéria. Não havendo mais antipatia e desaparecida a causa da discórdia, aproximam-se com satisfação.
Ocorre como entre dois colegas que, ao atingirem a maturidade, reconhecem a futilidade das brigas da infância e deixam de se hostilizar.
294 — A lembrança dos atos maus praticados por duas pessoas uma contra a outra impede que exista simpatia entre elas?
— Essa lembrança tende a afastá-las.
295 — Que sentimento nutrem, após a morte, aqueles a quem fizemos mal na vida terrena?
— Se forem bons, perdoam conforme o arrependimento demonstrado. Se forem maus, podem guardar ressentimento e até perseguir aquele que os prejudicou, por vezes em outra existência. Deus pode permitir isso como forma de aprendizado.
296 — As afeições individuais entre Espíritos podem se alterar?
— Não, pois eles não se enganam. Não usam máscaras como os hipócritas. Por isso, quando são puros, suas afeições são estáveis e duradouras. A felicidade suprema decorre do amor que os une.
297 — A afeição mútua que dois seres tiveram na Terra continua a existir no mundo espiritual?
— Sim, desde que tenha se originado de verdadeira simpatia. Se, porém, nasceu principalmente de causas físicas, desaparece com elas. As afeições entre Espíritos são mais sólidas e duráveis do que na Terra, pois não dependem de interesses materiais nem do orgulho.
298 — As almas que devem se unir estão predestinadas desde a origem, e cada pessoa tem em algum lugar do universo sua “metade”, à qual fatalmente se reunirá?
— Não. Não existe união particular e fatal entre duas almas. A união verdadeira é a de todos os Espíritos entre si, em diferentes graus, conforme o nível de perfeição alcançado. Quanto mais elevados, mais unidos. Da discórdia nascem os males humanos; da concórdia resulta a felicidade plena.
299 — Em que sentido se deve entender a palavra “metade”, usada por alguns Espíritos para designar Espíritos simpáticos?
— Trata-se de uma expressão inexata. Se um Espírito fosse metade de outro, separados estariam ambos incompletos.
300 — Se dois Espíritos perfeitamente simpáticos se unem, permanecerão juntos para sempre ou podem se separar e unir-se a outros?
— Todos os Espíritos estão interligados. Refiro-me aqui aos que alcançaram a perfeição. Nas esferas inferiores, quando um Espírito progride, deixa de simpatizar, como antes, com os que permanecem em níveis mais baixos.
301 — Dois Espíritos simpáticos se completam mutuamente, ou essa simpatia resulta de identidade perfeita?
— A simpatia surge da perfeita concordância de tendências e instintos. Se um tivesse de completar o outro, perderia sua individualidade.
302 — A identidade necessária para a simpatia perfeita consiste apenas na afinidade de pensamentos e sentimentos, ou também na igualdade de conhecimentos?
— Na igualdade dos graus de elevação.
303 — Espíritos que hoje não são simpáticos podem vir a sê-lo no futuro?
— Todos acabarão sendo. Um Espírito que hoje está em esfera inferior ascenderá, pelo progresso, àquela onde se encontra outro Espírito. O reencontro pode ocorrer mais rapidamente se o mais elevado, ao enfrentar provas difíceis, permanecer estacionado.
— Dois Espíritos que hoje são simpáticos podem deixar de sê-lo?
— Sim, se um deles se mostrar negligente em seu progresso.
A chamada teoria das “metades eternas” é apenas uma figura de linguagem, representando a afinidade entre Espíritos simpáticos. Não deve ser tomada literalmente. Os Espíritos que utilizaram essa expressão não pertencem às ordens mais elevadas e recorreram a termos da linguagem humana para se fazer compreender. Não existem Espíritos criados exclusivamente uns para os outros, destinados a se reunirem fatalmente na eternidade após longas separações.
Recordação da existência corporal
304 — O Espírito se lembra de sua existência corporal?
— Sim. Tendo vivido muitas vezes na Terra, lembra-se do que foi como ser humano e, muitas vezes, observa a si mesmo com certo pesar, reconhecendo suas próprias tolices.
Assim como o adulto ri das imprudências da juventude ou das ingenuidades da infância.
305 — A lembrança da vida corporal surge de forma imediata e completa após a morte?
— Não. Ela retorna gradualmente, como uma imagem que emerge da névoa, à medida que o Espírito dirige sua atenção a ela.
306 — O Espírito se recorda detalhadamente de todos os acontecimentos de sua vida?
— Recorda-se conforme a influência que esses fatos tiveram sobre seu estado atual como Espírito. Muitas circunstâncias às quais deu pouca importância na vida não merecem sua atenção depois.
— Se quisesse, poderia lembrar-se de todos os detalhes?
— Sim, inclusive dos pensamentos mais íntimos, quando isso lhe for útil.
— O Espírito compreende melhor o objetivo da vida terrena após a morte?
— Compreende com muito mais clareza. Entende a necessidade da purificação para alcançar o infinito e percebe que, a cada existência, deixa para trás algumas imperfeições.
307 — De que forma a vida passada se apresenta à memória do Espírito?
— Ora como lembrança evocada pela vontade, ora como um quadro que se impõe à visão. Tudo depende do grau de desmaterialização. Quanto mais elevado, menos importância dá às coisas materiais.
Por isso, Espíritos recém-desencarnados muitas vezes não se lembram de nomes ou detalhes que eram importantes para os vivos, pois essas coisas já perderam relevância. O que permanece claro são os fatos que contribuíram para seu progresso.
308 — O Espírito se recorda de todas as existências anteriores?
— Seu passado se desenrola diante dele como um caminho percorrido. Contudo, não se lembra de tudo com igual nitidez. As primeiras existências, comparáveis à infância do Espírito, tornam-se vagas e se perdem no esquecimento.
309 — Como o Espírito vê o corpo de que se separou?
— Como uma veste incômoda, sentindo-se aliviado por estar livre dela.
— O que sente ao ver seu corpo em decomposição?
— Em geral, indiferença, como diante de algo que já não lhe diz respeito.
310 — Com o tempo, o Espírito reconhece ossos ou objetos que lhe pertenceram?
— Às vezes, dependendo do grau de elevação com que observa as coisas terrenas.
311 — O respeito prestado aos objetos que lhe pertenceram agrada ao Espírito?
— O que o toca é o pensamento afetuoso de quem se lembra dele, não os objetos em si.
312 — O Espírito conserva a lembrança dos sofrimentos da última existência?
— Frequentemente, sim. Essa lembrança o ajuda a compreender melhor o valor da felicidade espiritual.
313 — Aquele que foi feliz na Terra sente saudade dos prazeres materiais?
— Apenas os Espíritos inferiores sentem falta desses prazeres, compatíveis com sua natureza ainda impura. Os Espíritos elevados preferem infinitamente a felicidade espiritual.
Assim como o adulto não sente falta dos brinquedos da infância.
314 — Quem iniciou trabalhos importantes e os viu interrompidos pela morte lamenta isso no além?
— Não. Ele vê que outros os continuarão e procura influenciar os encarnados para que deem prosseguimento ao bem iniciado.
315 — O Espírito mantém apego às obras artísticas ou literárias que produziu?
— Conforme sua elevação. Muitas vezes passa a julgá-las com mais rigor do que quando estava encarnado.
316 — O Espírito se interessa pelo progresso das artes e das ciências na Terra?
— Sim, conforme sua elevação ou missão. O que para os humanos parece grandioso pode ser apenas um exercício inicial aos olhos de Espíritos mais avançados.
317 — O Espírito conserva o amor à pátria?
— Para os Espíritos elevados, a pátria é o universo. Na Terra, sentem-se ligados aos lugares onde estão os Espíritos com os quais têm maior afinidade.
Os Espíritos mais elevados permanecem pouco tempo ligados à Terra, a menos que estejam em missão. Os Espíritos intermediários ainda frequentam este mundo com certa regularidade. Já os Espíritos comuns formam a maior parte da população espiritual terrestre, conservando gostos, hábitos e inclinações semelhantes aos que tinham quando encarnados. Muitos participam indiretamente das atividades humanas, incentivando paixões ou observando para aprender.
318 — As ideias do Espírito se modificam durante a erraticidade?
— Sim, profundamente. À medida que se desmaterializa, passa a ver as coisas com maior clareza e busca meios de se aprimorar.
319 — Por que o Espírito se espanta ao retornar ao mundo espiritual, se já viveu nele antes?
— Isso se deve à perturbação inicial após a morte. Com o tempo, a lembrança do passado retorna e a impressão da vida terrena se dissipa.
Comemoração dos mortos. Funerais
320 — Os Espíritos se sentem tocados quando aqueles que lhes foram queridos na Terra se lembram deles?
— Muito mais do que vocês imaginam. Se estão felizes, isso aumenta sua felicidade; se estão em sofrimento, serve como alívio.
321 — O dia de comemoração dos mortos é, para os Espíritos, mais especial do que os outros dias?
Eles comparecem aos cemitérios quando as pessoas vão orar sobre seus túmulos?
— Os Espíritos atendem, nesse dia, ao chamado daqueles que lhes dirigem pensamentos, assim como o fazem em qualquer outro dia.
— Mas o Dia de Finados é, para eles, um momento especial de reunião junto às sepulturas?
— Nesse dia, eles se reúnem em maior número nos cemitérios, porque também é maior o número de pessoas que os chamam pelo pensamento. No entanto, cada Espírito vai apenas ao encontro de seus afetos, não da multidão indiferente.
— De que forma eles se apresentam ali, e como os veríamos, se pudessem tornar-se visíveis?
— Sob a aparência que tinham quando encarnados.
322 — E aqueles que são esquecidos, cujos túmulos ninguém visita, também comparecem? Sentem tristeza por ninguém se lembrar deles?
— Que importância tem a Terra para eles? O vínculo existe apenas enquanto há afeição. Quando ninguém mais lhes dedica pensamento ou carinho, nada os prende a esse mundo. O universo inteiro está à disposição do Espírito.
323 — A visita a um túmulo traz mais satisfação ao Espírito do que a prece feita em casa?
— A visita ao túmulo é uma forma exterior de demonstrar que se pensa no Espírito ausente. Ela representa o pensamento. No entanto, já foi dito que é a prece que santifica o ato da lembrança. O lugar não importa, desde que a intenção seja sincera.
324 — Os Espíritos das pessoas a quem se erguem estátuas ou monumentos assistem à sua inauguração? Sentem prazer nisso?
— Muitos assistem, quando podem. No entanto, são menos tocados pelas homenagens exteriores do que pela lembrança sincera que as pessoas conservam deles.
325 — Qual a origem do desejo que algumas pessoas têm de serem enterradas em determinado lugar? Após a morte, o Espírito prefere esse local? Essa importância dada a algo tão material indica inferioridade espiritual?
— Trata-se de apego a lugares específicos, o que revela certa inferioridade moral. Para um Espírito elevado, que importância teria este ou aquele pedaço de terra? Ele sabe que sua alma se reunirá àqueles que ama, ainda que seus ossos permaneçam separados.
— Deve-se considerar futilidade o desejo de reunir, em um mesmo local, os restos mortais de todos os membros de uma família?
— Não. É um costume respeitável e uma demonstração de afeto por parte dos vivos. Embora não tenha importância real para os Espíritos, essa prática é útil aos encarnados, pois torna as lembranças mais concentradas e vivas.
326 — As homenagens prestadas aos despojos mortais comovem o Espírito que retorna à vida espiritual?
— Quando o Espírito já atingiu certo grau de elevação, ele se encontra livre das vaidades terrenas e compreende a futilidade dessas homenagens. No entanto, há Espíritos que, nos primeiros momentos após a morte, ainda sentem prazer com as honras recebidas ou se incomodam com o desprezo dado ao corpo. Isso acontece porque ainda conservam alguns dos preconceitos da vida material.
327 — O Espírito assiste ao próprio enterro?
— Frequentemente, sim. Em alguns casos, porém, ele não percebe o que acontece, se ainda estiver em estado de perturbação.
— A presença de muitas pessoas no enterro lhe causa satisfação?
— Depende do sentimento que anima essas pessoas.
328 — O Espírito daquele que acaba de morrer acompanha a reunião de seus herdeiros?
— Quase sempre. Para seu aprendizado e, às vezes, como correção aos culpados, Deus permite que isso aconteça. Nessa ocasião, o Espírito avalia o real valor das manifestações de afeto que recebia. Todos os sentimentos se tornam evidentes, e a decepção causada pela ganância daqueles que disputam seus bens o esclarece quanto à verdadeira natureza dessas relações. Mas chegará o momento daqueles que lhe causam essa decepção.
329 — O respeito instintivo que, em todas as épocas e povos, o ser humano dedica aos mortos decorre da intuição da vida futura?
— Sim. É a consequência natural dessa intuição. Se assim não fosse, esse respeito não teria razão de existir.