População do globo
686 — A reprodução dos seres vivos é uma lei da natureza?
— Evidentemente. Sem a reprodução, o mundo material deixaria de existir.
687 — Considerando o crescimento constante da população, chegará um momento em que ela será excessiva na Terra?
— Não. Deus cuida disso e mantém sempre o equilíbrio. Nada do que Ele faz é inútil. O homem, que enxerga apenas uma pequena parte do conjunto, não consegue avaliar a harmonia geral da natureza.
Sucessão e aperfeiçoamento das raças
688 — Existem atualmente raças humanas que estão claramente em declínio. Chegará o momento em que desaparecerão da Terra?
— Sim. Outras estão ocupando o seu lugar, assim como, no futuro, outras substituirão as que hoje existem.
689 — Os homens atuais formam uma criação nova ou são descendentes aperfeiçoados dos seres primitivos?
— São os mesmos Espíritos que retornam para se aperfeiçoar em novos corpos, embora ainda estejam longe da perfeição. A raça humana atual, que tende a se espalhar por toda a Terra e substituir as que desaparecem, também passará por seu período de declínio e desaparecerá. No lugar dela surgirão raças mais aperfeiçoadas, que descenderão da atual, assim como o homem civilizado de hoje descende dos seres rudes e primitivos do passado.
690 — Do ponto de vista físico, os corpos da raça atual são uma criação especial ou resultam da reprodução dos corpos primitivos?
— A origem das raças se perde no tempo. Mas, como todas pertencem à grande família humana, independentemente de sua origem, sempre puderam se misturar e gerar novos tipos.
691 — Qual é, do ponto de vista físico, a principal característica das raças primitivas?
— O predomínio da força física sobre a inteligência. Hoje acontece o contrário: o homem realiza muito mais por meio da inteligência do que da força corporal. Ainda assim, ele produz muito mais resultados porque aprendeu a utilizar as forças da natureza, algo que os animais não conseguem fazer.
692 — O aperfeiçoamento das raças animais e vegetais pela ciência contraria a lei da natureza? Não seria mais correto deixar que tudo siga seu curso natural?
— Tudo deve contribuir para alcançar a perfeição, e o próprio homem é um instrumento de Deus para atingir esse objetivo. Como a natureza tende à perfeição, favorecer esse progresso é agir de acordo com a vontade divina.
— Mas, em geral, o homem busca melhorar as raças por interesse pessoal, visando apenas aumentar seus próprios benefícios. Isso não reduz o mérito dessas ações?
— Pouco importa que o mérito pessoal seja pequeno, desde que o progresso aconteça. Cabe ao homem tornar seu trabalho meritório pela intenção. Além disso, ao realizar esse trabalho, ele exercita e desenvolve sua inteligência, e é nisso que está o maior benefício.
Obstáculos à reprodução
693 — As leis e costumes humanos que criam obstáculos à reprodução são contrários à lei da natureza?
— Tudo o que dificulta o curso natural da vida é contrário à lei geral.
— No entanto, há espécies animais e vegetais cuja reprodução excessiva seria prejudicial a outras, e até ao próprio homem. Ele erra ao impedir essa reprodução?
— Deus concedeu ao homem poder sobre os demais seres vivos, e esse poder deve ser usado com equilíbrio, sem abuso. O homem pode regular a reprodução conforme as necessidades, mas não deve criar obstáculos desnecessários. Sua ação consciente serve como contrapeso para manter o equilíbrio das forças da natureza, e é isso que o diferencia dos animais. Ainda assim, os próprios animais também participam desse equilíbrio, pois o instinto de sobrevivência limita o crescimento excessivo das espécies das quais se alimentam.
694 — O que pensar dos costumes que impedem a reprodução apenas para satisfazer os sentidos?
— Isso mostra o quanto o corpo ainda domina a alma e o quanto o homem permanece preso à matéria.
Casamento e celibato
695 — O casamento, entendido como a união permanente de duas pessoas, é contrário à lei da natureza?
— Não. Pelo contrário, representa um avanço no desenvolvimento da humanidade.
696 — Que efeito teria sobre a sociedade humana a abolição do casamento?
— Seria um retrocesso, aproximando o homem da vida dos animais.
A união livre e ocasional dos sexos é o estado mais primitivo. O casamento foi um dos primeiros sinais de progresso social, pois criou laços de solidariedade e organização familiar. Ele existe em todos os povos, ainda que de formas diferentes. Abolir o casamento seria retornar à infância da humanidade e rebaixar o homem a um nível inferior ao de certos animais, que demonstram uniões estáveis.
697 — A indissolubilidade absoluta do casamento é uma lei da natureza ou apenas uma lei humana?
— É uma lei humana, e bastante contrária à lei natural. As leis humanas podem ser modificadas; as leis da natureza, não.
698 — O celibato voluntário é um estado de perfeição que agrade a Deus?
— Não. Quando nasce do egoísmo, ele desagrada a Deus e engana as pessoas.
699 — Para algumas pessoas, o celibato não é um sacrifício feito para se dedicar mais plenamente ao serviço da humanidade?
— Isso é diferente. Eu me referi ao celibato motivado pelo egoísmo. Todo sacrifício pessoal feito em benefício dos outros tem valor. Quanto maior o sacrifício, maior o mérito.
Deus não se contradiz nem condena aquilo que Ele mesmo criou. Por isso, não há mérito em violar a lei natural. O celibato, por si só, não é meritório; mas quando representa uma renúncia consciente às alegrias da vida familiar em favor do bem coletivo, torna-se um sacrifício legítimo. Todo sacrifício feito com esse objetivo eleva o homem acima da condição puramente material.
Poligamia
700 — A proporção quase igual entre homens e mulheres indica a forma correta de união?
— Sim, pois tudo na natureza tem um propósito.
701 — Qual é mais compatível com a lei da natureza: a poligamia ou a monogamia?
— A poligamia é uma criação humana, e sua eliminação representa um progresso social. Segundo a vontade de Deus, o casamento deve se basear no afeto verdadeiro entre os que se unem. Na poligamia, não há afeto real, apenas satisfação dos sentidos.
Se a poligamia fosse uma lei natural, deveria ser possível torná-la universal, o que é inviável devido à proporção equilibrada entre os sexos.
Ela deve ser vista como um costume ou legislação específica, adequada a determinados contextos históricos, e que o progresso social tende a eliminar gradualmente.