Prelúdio da volta
330 — Os Espíritos sabem em que época irão reencarnar?
— Eles pressentem, assim como um cego pressente o calor ao se aproximar do fogo. Sabem que precisarão retomar um corpo, do mesmo modo que vocês sabem que um dia irão morrer, mas sem saber quando isso acontecerá (166).
— Então a reencarnação é uma necessidade da vida espiritual, assim como a morte é da vida corporal?
— Exatamente. É assim que ocorre.
331 — Todos os Espíritos se preocupam com a própria reencarnação?
— Muitos não pensam nisso, nem sequer compreendem plenamente o que seja. Isso depende do grau de adiantamento. Para alguns, a incerteza quanto ao futuro que os aguarda constitui uma forma de punição.
332 — Pode o Espírito acelerar ou retardar o momento da reencarnação?
— Pode acelerá-lo, atraindo-o por um desejo intenso. Pode também adiá-lo, recuando diante da prova, pois entre os Espíritos também há covardes e indiferentes. No entanto, nenhum faz isso sem consequências, pois sofre por isso, como aquele que recusa o remédio capaz de curá-lo.
333 — Se um Espírito se julgasse suficientemente feliz numa condição intermediária entre os Espíritos errantes e não desejasse progredir, poderia prolongar indefinidamente esse estado?
— Indefinidamente, não. Mais cedo ou mais tarde, o Espírito sente a necessidade de avançar. Todos precisam progredir; esse é o destino de todos.
334 — Existe predestinação na união da alma com determinado corpo, ou essa escolha ocorre apenas no último momento?
— O Espírito é sempre designado antecipadamente. Após escolher a prova pela qual deseja passar, pede para encarnar. Deus, que tudo sabe e tudo vê, já sabia e previa que tal Espírito se uniria a tal corpo.
335 — Cabe ao Espírito escolher o corpo em que irá encarnar, ou apenas o tipo de vida que servirá como prova?
— Ele pode também escolher o corpo, pois as imperfeições físicas podem representar provas que auxiliam seu progresso, se souber vencer os obstáculos que delas decorrem. Essa escolha, porém, nem sempre depende exclusivamente dele; ainda assim, ele pode pedir que seu corpo seja de determinada forma.
— Poderia o Espírito recusar, no último momento, tomar o corpo que havia escolhido?
— Se recusasse, sofreria muito mais do que aquele que não tentou prova alguma.
336 — Poderia acontecer de nenhum Espírito aceitar encarnar em uma criança prestes a nascer?
— Deus providencia isso. Quando uma criança deve nascer para viver, ela está sempre destinada a ter uma alma. Nada é criado sem um propósito.
337 — Pode a união do Espírito a determinado corpo ser imposta por Deus?
— Pode, assim como certas provas, sobretudo quando o Espírito ainda não é capaz de escolher com pleno discernimento. Como expiação, o Espírito pode ser obrigado a unir-se ao corpo de determinada criança que, pelo nascimento e pela posição que ocupará no mundo, se torne para ele um instrumento de aprendizado doloroso.
338 — Se vários Espíritos desejarem ocupar um mesmo corpo destinado a nascer, o que determina a escolha?
— Muitos podem solicitá-lo, mas Deus julga qual deles é mais capaz de cumprir a missão destinada àquela criança. Contudo, como já foi dito, o Espírito é designado antes do momento da união com o corpo.
339 — No momento de encarnar, o Espírito sofre perturbação semelhante à que sente ao desencarnar?
— Muito maior e, sobretudo, mais prolongada. Pela morte, o Espírito se liberta; pelo nascimento, entra em nova forma de limitação.
340 — O instante da encarnação é solene para o Espírito? Ele o encara como algo sério e importante?
— Age como um viajante que se lança a uma travessia perigosa, sem saber se encontrará a morte nas ondas que decide enfrentar.
O viajante conhece o perigo, mas não sabe se naufragará. O mesmo ocorre com o Espírito: ele conhece o tipo de provas que enfrentará, mas não sabe se irá vencê-las.
Assim como a morte do corpo é, para o Espírito, uma espécie de renascimento, a reencarnação é uma espécie de morte, ou melhor, de exílio e confinamento. Ele deixa o mundo espiritual para entrar no mundo corporal, assim como o ser humano deixa este mundo ao morrer. Sabe que irá reencarnar, assim como o homem sabe que morrerá. Porém, somente no instante decisivo tem plena consciência de que vai reencarnar. Nesse momento, uma perturbação o envolve, semelhante à agonia humana, prolongando-se até que a nova existência esteja claramente formada. À medida que se aproxima o momento da reencarnação, o Espírito experimenta uma espécie de angústia.
341 — Diante da incerteza quanto ao êxito nas provas que enfrentará na vida, o Espírito sente ansiedade antes de reencarnar?
— Sente uma ansiedade muito grande, pois as provas podem retardar ou acelerar seu progresso, conforme ele as enfrente.
342 — No momento de reencarnar, o Espírito é acompanhado por Espíritos amigos, que assistem à sua partida do mundo espiritual, assim como o recebem quando ele retorna?
— Isso depende da esfera a que pertença. Se já se encontra em regiões onde reina a afeição, os Espíritos que o amam o acompanham até o último instante, encorajam-no e, muitas vezes, seguem seus passos ao longo da vida.
343 — Os Espíritos amigos que nos acompanham durante a vida seriam aqueles que vemos em sonhos, que nos demonstram afeto e se apresentam com semblantes desconhecidos?
— Muito frequentemente, sim. Eles vêm visitá-los, assim como vocês visitam alguém que está preso.
União da alma e do corpo. Aborto
344 — Em que momento a alma se une ao corpo?
— A união começa na concepção, mas só se completa no nascimento. Desde a concepção, o Espírito destinado a habitar aquele corpo liga-se a ele por um laço fluídico, que se fortalece progressivamente até o instante em que a criança nasce. O primeiro choro anuncia que ela passa a integrar o mundo dos vivos.
345 — A união do Espírito com o corpo é definitiva desde a concepção? Durante essa fase inicial, o Espírito pode desistir de habitar o corpo que lhe foi destinado?
— A união é definitiva no sentido de que nenhum outro Espírito pode substituí-lo. No entanto, como os laços ainda são frágeis, podem se romper com facilidade. O Espírito pode desistir da prova escolhida, mas, nesse caso, a criança não sobrevive.
346 — O que faz o Espírito se o corpo que escolheu morre antes do nascimento?
— Escolhe outro.
— Qual a utilidade dessas mortes prematuras?
— Geralmente decorrem das imperfeições da matéria.
347 — Que utilidade encontra um Espírito ao encarnar em um corpo que morre poucos dias após o nascimento?
— O ser ainda não tem consciência plena da existência; a importância da morte é mínima. Frequentemente, trata-se de uma prova para os pais.
348 — O Espírito sabe, de antemão, que o corpo escolhido não tem probabilidade de sobreviver?
— Às vezes, sim. Mas se essa for a razão da escolha, significa que ele está fugindo da prova.
349 — Quando uma encarnação falha por qualquer motivo, ela é imediatamente substituída por outra?
— Nem sempre. É necessário dar tempo ao Espírito para fazer nova escolha, salvo quando a reencarnação imediata já fazia parte de uma decisão anterior.
350 — Uma vez unido ao corpo da criança, e não podendo mais voltar atrás, o Espírito alguma vez lamenta a escolha feita?
— Pergunta-se se, como ser humano, ele se queixa da vida que tem e desejaria outra diferente? Sim. Mas se ele se arrepende da escolha feita? Não, pois não tem consciência de tê-la feito. Após encarnar, não pode lamentar uma escolha da qual não se lembra. Pode, no entanto, achar a carga pesada demais e considerá-la acima de suas forças, recorrendo, em alguns casos, ao suicídio.
351 — Entre a concepção e o nascimento, o Espírito desfruta plenamente de suas faculdades?
— Em maior ou menor grau, conforme o estágio desse período, pois ainda não está encarnado, apenas ligado ao corpo. Desde a concepção, o Espírito entra em estado de perturbação, que o avisa de que chegou o momento de iniciar nova vida corporal. Essa perturbação aumenta progressivamente até o nascimento. Seu estado é quase idêntico ao de um Espírito encarnado durante o sono. À medida que o nascimento se aproxima, suas ideias se apagam, assim como a lembrança do passado, da qual deixa de ter consciência ao ingressar na vida humana. Essa lembrança retorna gradualmente quando volta ao estado de Espírito.
352 — Ao nascer, o Espírito recupera imediatamente todas as suas faculdades?
— Não. Elas se desenvolvem gradualmente junto com os órgãos. O Espírito inicia uma nova existência e precisa aprender a usar os instrumentos de que dispõe. As ideias retornam pouco a pouco, como em alguém que desperta e se encontra em situação diferente da do dia anterior.
353 — Não estando completa a união do Espírito com o corpo antes do nascimento, pode-se considerar o feto como dotado de alma?
— O Espírito que irá animá-lo existe, de certo modo, fora dele. O feto não possui, propriamente falando, uma alma, pois a encarnação ainda está em processo. No entanto, ele já está ligado à alma que virá a ter.
354 — Como se explica a vida intrauterina?
— É semelhante à da planta que cresce. A criança vive vida orgânica e animal. O ser humano possui a vida vegetal e a vida animal, que se completam com a vida espiritual após o nascimento.
355 — Existem, como indica a ciência, crianças que ainda no útero não são viáveis? Com que finalidade isso ocorre?
— Isso acontece frequentemente, e Deus o permite como prova, seja para os pais, seja para o Espírito da criança.
356 — Entre os natimortos, há alguns que não foram destinados à encarnação de Espíritos?
— Sim, há casos em que nenhum Espírito foi destinado àqueles corpos. Nada havia a ser realizado ali. Essas crianças existem apenas em função dos pais.
— Um ser dessa natureza pode nascer a termo?
— Algumas vezes, sim, mas não sobrevive.
— Toda criança que vive após o nascimento tem necessariamente um Espírito encarnado?
— O que ela seria se assim não fosse? Não seria um ser humano.
357 — Que consequências o aborto tem para o Espírito?
— Trata-se de uma existência nula, que precisará ser recomeçada.
358 — Provocar aborto constitui crime em qualquer fase da gestação?
— Há crime sempre que se transgride a lei de Deus. Uma mãe, ou qualquer pessoa, comete crime ao tirar a vida de uma criança antes do nascimento, pois impede que uma alma passe pelas provas para as quais aquele corpo serviria.
359 — No caso em que o nascimento da criança coloca em risco a vida da mãe, há crime em sacrificar a primeira para salvar a segunda?
— É preferível sacrificar o ser que ainda não existe plenamente do que aquele que já existe.
360 — É racional tratar um feto com as mesmas considerações que se têm com o corpo de uma criança que já viveu algum tempo?
— Em tudo, considerem a vontade e a obra de Deus. Não tratem com leviandade aquilo que deve ser respeitado. Por que não respeitar obras da criação que, às vezes, permanecem incompletas por vontade do Criador? Tudo ocorre segundo seus desígnios, e ninguém é chamado a julgá-los.
Faculdades morais e intelectuais do homem
361 — Qual é a origem das qualidades morais, boas ou más, do ser humano?
— Elas pertencem ao Espírito que nele está encarnado. Quanto mais puro é esse Espírito, maior a inclinação para o bem.
— Disso se conclui que o homem de bem é a encarnação de um Espírito bom, e o homem vicioso a de um Espírito mau?
— Sim, mas é melhor dizer que o homem vicioso é a encarnação de um Espírito imperfeito. Caso contrário, poder-se-ia supor a existência de Espíritos eternamente maus, a que costumais chamar de demônios.
362 — Qual é o caráter das pessoas em que encarnam Espíritos levianos e pouco equilibrados?
— São indivíduos imprudentes, levianos e, às vezes, mal-intencionados.
363 — Os Espíritos possuem paixões que a humanidade não compartilha?
— Não. Se possuíssem, vocês já teriam sido informados disso.
364 — O mesmo Espírito é responsável tanto pelas qualidades morais quanto pelas intelectuais?
— Sim, conforme o grau de adiantamento que alcançou. O ser humano não abriga dois Espíritos.
365 — Por que algumas pessoas muito inteligentes, o que indica superioridade intelectual, são ao mesmo tempo profundamente viciosas?
— Porque os Espíritos que nelas encarnam ainda não são suficientemente purificados e cedem à influência de Espíritos inferiores. O progresso do Espírito é gradual e não acontece ao mesmo tempo em todas as áreas. Ele pode avançar na ciência em um período e na moral em outro.
366 — O que pensar da opinião daqueles que afirmam que as diferentes faculdades morais e intelectuais resultam da encarnação de vários Espíritos distintos, cada um responsável por uma aptidão específica?
— Basta refletir para perceber o absurdo dessa ideia. O Espírito precisa reunir todas as aptidões em si mesmo, pois o progresso exige uma vontade única. Se o ser humano fosse um conjunto de Espíritos diferentes, essa unidade não existiria, e ele perderia sua individualidade. Com a morte, esses Espíritos se dispersariam como pássaros fugindo de uma gaiola.
Com frequência, o ser humano se queixa de não compreender certas coisas, mas curiosamente multiplica as dificuldades quando tem à disposição uma explicação simples e natural. Nesse caso, confunde-se o efeito com a causa. O mesmo erro foi cometido pelos antigos pagãos, que acreditavam em vários deuses para explicar os fenômenos da natureza, quando esses fenômenos eram apenas manifestações de um único princípio.
O mundo físico e o mundo moral oferecem muitos exemplos semelhantes. Enquanto os homens se fixavam apenas na aparência dos fenômenos, acreditavam que a matéria fosse múltipla. Hoje se compreende que fenômenos diversos podem ser apenas modificações de uma única matéria fundamental. Do mesmo modo, as diferentes faculdades humanas são manifestações de uma única causa — a alma ou Espírito encarnado — e não de várias almas, assim como os diferentes sons de um instrumento provêm do mesmo ar, e não de vários tipos de ar.
Se fosse diferente, ao perder ou adquirir certas aptidões, o ser humano estaria recebendo ou perdendo Espíritos, tornando-se um ser múltiplo, sem identidade e sem responsabilidade. Além disso, essa teoria é desmentida pelas inúmeras manifestações espirituais que comprovam a individualidade e a identidade dos Espíritos.
Influência do organismo
367 — Ao se unir ao corpo, o Espírito se identifica com a matéria?
— A matéria é apenas o envoltório do Espírito, assim como a roupa é o envoltório do corpo. Ao unir-se ao corpo, o Espírito conserva suas características espirituais.
368 — Depois de unido ao corpo, o Espírito exerce suas faculdades com plena liberdade?
— O exercício dessas faculdades depende dos órgãos que servem como instrumentos. A matéria mais grosseira dificulta sua manifestação.
— Então o corpo material é um obstáculo à livre expressão das faculdades do Espírito, como um vidro opaco dificulta a passagem da luz?
— Sim, como um vidro muito opaco.
Pode-se também comparar a ação da matéria grosseira sobre o Espírito à de um corpo mergulhado em lama espessa, que perde a liberdade de movimento.
369 — O livre exercício das faculdades da alma depende do desenvolvimento dos órgãos?
— Os órgãos são instrumentos da manifestação das faculdades da alma. Essa manifestação depende do grau de desenvolvimento e perfeição desses órgãos, assim como a qualidade de um trabalho depende da ferramenta utilizada.
370 — Da influência dos órgãos pode-se concluir que existe relação direta entre o desenvolvimento do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?
— Não confundam causa e efeito. O Espírito sempre possui as faculdades que lhe são próprias. Não são os órgãos que criam essas faculdades, mas as faculdades que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.
— Deve-se concluir, então, que a diversidade de aptidões entre as pessoas deriva apenas do estado do Espírito?
— A palavra apenas não expressa com exatidão a realidade. A origem dessa diversidade está, de fato, nas qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado. No entanto, é preciso considerar também a influência da matéria, que pode limitar em maior ou menor grau o exercício dessas faculdades.
Ao encarnar, o Espírito traz certas predisposições. Se admitirmos que a cada uma delas corresponda um órgão cerebral específico, o desenvolvimento desses órgãos será consequência, e não causa. Se os órgãos fossem a origem das faculdades, o ser humano seria apenas uma máquina, sem livre-arbítrio e sem responsabilidade moral.
Seria necessário admitir, então, que os grandes gênios — cientistas, poetas, artistas — o são apenas por acaso, porque receberam órgãos especiais. Isso levaria à conclusão absurda de que, sem esses órgãos, um gênio não existiria, e que qualquer pessoa poderia ter sido um Newton, um Virgílio ou um Rafael, bastando possuir determinados órgãos.
Essa ideia se torna ainda mais insustentável quando aplicada às qualidades morais. Segundo essa lógica, um Vicente de Paulo poderia ter sido um criminoso se tivesse órgãos diferentes, e o maior dos criminosos poderia tornar-se um Vicente de Paulo apenas por uma alteração orgânica.
Ao contrário, se admitirmos que os órgãos, quando especializados, se desenvolvem pelo exercício da faculdade — assim como os músculos se desenvolvem com o movimento — nenhuma conclusão absurda será necessária.
Usemos uma comparação simples, mas verdadeira: certos traços físicos permitem reconhecer uma pessoa com o vício da embriaguez. Esses sinais fazem dela um alcoólatra, ou é o alcoolismo que imprime esses sinais? Assim ocorre com o Espírito: os órgãos recebem a marca das faculdades, e não o contrário.
Idiotismo, loucura
371 — Tem algum fundamento a ideia de que a alma dos cretinos e dos idiotas seja de natureza inferior?
— Nenhum. Eles possuem almas humanas, muitas vezes mais inteligentes do que imaginais, mas sofrem pela limitação dos meios de que dispõem para se expressar, assim como o mudo sofre por não poder falar.
372 — Que objetivo tem a Providência ao criar seres infelizes, como os cretinos e os idiotas?
— Os Espíritos que habitam corpos de idiotas estão submetidos a uma punição. Sofrem pelo constrangimento que experimentam e pela impossibilidade de se manifestarem por meio de órgãos não desenvolvidos ou comprometidos.
— Não há, então, fundamento para dizer que os órgãos não influenciam as faculdades?
— Nunca dissemos que os órgãos não influenciam. Eles exercem grande influência sobre a manifestação das faculdades, mas não são a sua origem. Eis a diferença. Um excelente músico, com um instrumento defeituoso, não produzirá boa música, mas nem por isso deixa de ser um bom músico.
É importante distinguir o estado normal do estado patológico. No primeiro, o moral supera os obstáculos impostos pela matéria. No segundo, a matéria oferece tal resistência que as manifestações da alma ficam bloqueadas ou distorcidas, como ocorre no idiotismo e na loucura. São estados patológicos e, como nesses casos a alma não dispõe de plena liberdade, a própria lei humana isenta essas pessoas da responsabilidade por seus atos.
373 — Qual é o mérito da existência de seres que, como os cretinos e os idiotas, não podendo fazer o bem nem o mal, parecem incapazes de progredir?
— Trata-se de uma expiação decorrente do abuso de certas faculdades em existências anteriores. É um estado temporário de estacionamento.
— Pode, então, o corpo de um idiota conter um Espírito que tenha animado um homem de gênio em existência anterior?
— Sim. A genialidade, quando mal utilizada, pode transformar-se em um fardo.
A superioridade moral nem sempre acompanha a superioridade intelectual. Grandes gênios podem ter muito a expiar. Daí, muitas vezes, resultarem existências inferiores às que tiveram antes, cheias de sofrimento. As dificuldades que o Espírito encontra para se manifestar podem ser comparadas às correntes que imobilizam um homem forte. Pode-se dizer que os cretinos e os idiotas são mutilados do cérebro, assim como o coxo o é das pernas e o cego da visão.
374 — No estado de Espírito livre, o idiota tem consciência de sua condição mental?
— Frequentemente, sim. Compreende que as limitações que o prendem são prova e expiação.
375 — Qual é a situação do Espírito na loucura?
— Quando livre, o Espírito recebe diretamente as impressões e atua diretamente sobre a matéria. Encarnado, porém, depende de órgãos específicos para manifestar-se. Se esses órgãos se alteram, parcial ou totalmente, sua ação e suas percepções ficam comprometidas. Se o órgão da inteligência e da vontade for afetado, o Espírito, embora consciente interiormente, não consegue governar suas manifestações.
— Nesse caso, é sempre o corpo que está desorganizado, e não o Espírito?
— Sim. Contudo, é preciso lembrar que, assim como o Espírito atua sobre a matéria, a matéria também reage sobre ele, dentro de certos limites. Pode ocorrer que o Espírito seja temporariamente afetado pela alteração dos órgãos pelos quais se manifesta. Se a loucura se prolonga por muito tempo, a repetição dos mesmos atos pode exercer influência sobre o Espírito, da qual ele só se libertará após se desligar completamente da matéria.
376 — Por que a loucura leva, às vezes, o ser humano ao suicídio?
— Porque o Espírito sofre com o constrangimento e com a impossibilidade de se manifestar livremente. Por isso, busca na morte uma forma de romper seus grilhões.
377 — Após a morte, o Espírito do alienado ainda sente os efeitos da perturbação mental?
— Pode senti-los por algum tempo, até que se desligue completamente da matéria, assim como alguém que desperta ainda se ressente, por instantes, da confusão provocada pelo sono.
378 — De que modo a alteração do cérebro repercute sobre o Espírito após a morte?
— Como uma lembrança. Um peso ainda o oprime, e, como não teve plena consciência do que se passou durante a loucura, necessita de certo tempo para compreender tudo. Quanto mais longa foi a loucura na vida terrena, mais prolongada será a perturbação após a morte. Libertado do corpo, o Espírito ainda sente, por algum tempo, a impressão dos vínculos que o prendiam a ele.
A infância
379 — O Espírito que anima o corpo de uma criança é tão desenvolvido quanto o de um adulto?
— Pode ser até mais desenvolvido, se já tiver progredido mais. A imperfeição dos órgãos infantis é que impede sua plena manifestação. Ele age conforme o instrumento de que dispõe.
380 — Desconsiderando a limitação dos órgãos, o Espírito de uma criança pensa como criança ou como adulto?
— Como os órgãos da inteligência ainda não estão desenvolvidos, eles não permitem ao Espírito expressar toda a compreensão de um adulto. Assim, sua inteligência se encontra, de fato, limitada até que a razão amadureça. A perturbação causada pela encarnação não desaparece de imediato após o nascimento; ela se dissipa gradualmente, à medida que os órgãos se desenvolvem.
A observação confirma isso: os sonhos infantis têm caráter simples e pueril, o que revela a natureza das preocupações do Espírito nessa fase.
381 — Com a morte da criança, o Espírito recupera imediatamente seu vigor anterior?
— Sim, pois se liberta do envoltório corporal. Contudo, só readquire plena lucidez quando se separa completamente do corpo.
382 — Durante a infância, o Espírito sofre pelo constrangimento imposto pela imperfeição dos órgãos?
— Não. Esse estado corresponde a uma necessidade natural e está de acordo com os desígnios da Providência. É um período de repouso para o Espírito.
383 — Qual é a utilidade do estado de infância para o Espírito?
— Ao encarnar para se aperfeiçoar, o Espírito torna-se, nesse período, mais receptivo às impressões que podem auxiliá-lo no progresso, cabendo aos responsáveis por sua educação favorecer esse desenvolvimento.
384 — Por que o choro é a primeira manifestação da criança ao nascer?
— Para despertar a atenção da mãe e provocar os cuidados de que necessita. Se suas manifestações fossem apenas de alegria, quando ainda não sabe falar, os que a cercam se preocupariam menos com suas necessidades. Em tudo se revela a sabedoria da Providência.
385 — O que explica a mudança de caráter que ocorre em certa idade, especialmente ao sair da adolescência? O Espírito se modifica?
— O Espírito retoma sua natureza própria e se mostra como realmente é.
A inocência da criança oculta o que ela foi e o que será. Deus concede às crianças a aparência de inocência para que não se possa acusá-lo de severidade excessiva. Mesmo quando se trata de Espíritos com más inclinações, suas ações ficam encobertas pela inconsciência da infância. Essa inocência não é superioridade real, mas a imagem do que deveriam ser.
Essa aparência de inocência também é concedida em benefício dos pais, pois o amor necessário à fragilidade infantil se enfraqueceria se o caráter real se manifestasse desde cedo. Quando, porém, cessada a necessidade dessa proteção, o caráter verdadeiro surge, com as nuances que a infância ocultava.
A infância é, portanto, um estado necessário e providencial. Espíritos vindos de mundos diversos, com hábitos e tendências diferentes, só podem conviver harmoniosamente passando por esse período de nivelamento inicial. A infância permite que os Espíritos sejam educados, que seus caracteres sejam moldados e que más tendências sejam contidas. Essa é uma missão sagrada confiada aos pais, da qual prestarão contas.
Assim, a infância é não apenas útil, mas indispensável, sendo consequência natural das leis divinas que regem o universo.
Simpatias e antipatias terrenas
386 — Dois seres que se conheceram e se amaram podem reencontrar-se em outra existência corporal e reconhecer-se?
— Não se reconhecem. Mas podem sentir atração mútua. Muitas ligações profundas, fundadas em sincera afeição, têm origem nessa atração entre Espíritos.
— Não seria mais agradável que se reconhecessem?
— Nem sempre. A lembrança das existências passadas traria inconvenientes maiores do que imaginais. Após a morte, irão se reconhecer e saber quanto tempo passaram juntos.
387 — A simpatia tem sempre como causa um conhecimento anterior?
— Não. Espíritos que se harmonizam atraem-se naturalmente, mesmo sem terem se conhecido como humanos.
388 — Os encontros que parecem obra do acaso não seriam efeito de relações de simpatia?
— Entre os seres pensantes existem vínculos que ainda não conhecem. O magnetismo é o precursor de uma ciência que compreenderão melhor no futuro.
389 — De onde vem a repulsão instintiva sentida, à primeira vista, por algumas pessoas?
— De Espíritos antipáticos que se reconhecem sem necessidade de palavras.
390 — A antipatia instintiva é sempre sinal de natureza má?
— Não necessariamente. A antipatia pode resultar apenas de divergência no modo de pensar. À medida que os Espíritos se elevam, essas divergências desaparecem e a antipatia deixa de existir.
391 — A antipatia entre duas pessoas surge primeiro na que é pior ou na que é melhor?
— Pode surgir em ambas, mas por razões diferentes. O Espírito mau sente antipatia por quem pode desmascará-lo e julgá-lo. O Espírito bom sente repulsão pelo mau por saber que não será compreendido por ele. Contudo, o primeiro transforma esse sentimento em ódio e desejo de fazer o mal; o segundo limita-se a evitar o outro e a lastimá-lo.
Esquecimento do passado
392 — Por que o Espírito encarnado perde a lembrança de seu passado?
— Porque o ser humano não pode, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua sabedoria. Sem o véu que oculta certas coisas, ele ficaria ofuscado, como alguém que sai bruscamente da escuridão para a luz. Esquecendo o passado, ele é mais plenamente ele mesmo.
393 — Como pode o ser humano ser responsável por atos e reparar faltas de que não se lembra?
— Em cada nova existência, ele dispõe de mais inteligência e distingue melhor o bem do mal. Onde estaria seu mérito se se lembrasse de tudo? Ao retornar à vida espiritual, o Espírito revê toda a sua vida passada, reconhece suas faltas e compreende a justiça das provas que enfrenta. Escolhe então novas experiências para reparar o que fez e pede auxílio a Espíritos superiores. Essa intuição se manifesta, na vida corporal, como a voz da consciência, que o adverte para não reincidir nos mesmos erros.
394 — Nos mundos mais elevados que a Terra, os habitantes se consideram mais felizes do que nós?
— Há mundos cujos habitantes conservam lembrança clara de suas existências passadas e, por isso, sabem apreciar a felicidade que desfrutam. Em outros, embora vivam em condições melhores que as vossas, não se consideram plenamente felizes, pois não se recordam de estados mais infelizes. Ainda assim, apreciam sua condição como Espíritos.
O esquecimento do passado doloroso revela a sabedoria divina. Nos mundos inferiores, a lembrança constante de sofrimentos agravaria as dificuldades presentes. Tudo o que Deus fez é perfeito, e não cabe ao ser humano julgar ou corrigir suas obras.
395 — Podemos ter revelações sobre nossas vidas anteriores?
— Nem sempre. Contudo, muitos sabem o que foram e o que fizeram. Se pudessem dizer tudo abertamente, fariam revelações extraordinárias.
396 — As vagas lembranças de um passado desconhecido são sempre ilusões?
— Às vezes são impressões reais; outras vezes, simples ilusões da imaginação, contra as quais é preciso cautela.
397 — Em existências corporais mais elevadas que a nossa, a lembrança do passado é mais clara?
— Sim. À medida que o corpo se torna menos material, a lembrança do passado se torna mais precisa.
398 — Estudando as tendências instintivas, pode o ser humano conhecer suas faltas passadas?
— Até certo ponto. Contudo, é preciso considerar os progressos já realizados e as resoluções tomadas na erraticidade. Uma existência atual pode ser muito melhor que a anterior.
— Pode também ser pior?
— Sim, se o Espírito não souber vencer as provas. Isso indica estacionamento, nunca retrocesso.
399 — As vicissitudes da vida corporal permitem deduzir como foi a existência anterior?
— Muitas vezes, sim. Cada um é frequentemente punido naquilo em que errou. Contudo, não se deve estabelecer regra absoluta. As tendências instintivas são indícios mais seguros.
As provas da vida corporal são, ao mesmo tempo, expiação do passado e preparação para o futuro. Se o Espírito triunfa nelas, eleva-se; se falha, precisa recomeçar. O livre-arbítrio permanece sempre, e o esquecimento do passado não impede o progresso, pois a consciência e as tendências instintivas funcionam como guia interior.