Capítulo 8 - Emancipação da alma

O sono e os sonhos
400 — O Espírito encarnado permanece de bom grado no seu envoltório corporal?

— É como se perguntasses se ao preso agrada a prisão. O Espírito encarnado aspira constantemente à libertação, e quanto mais grosseiro é o envoltório, mais intenso é o desejo de se ver livre dele.

401 — Durante o sono, a alma repousa como o corpo?

— Não. O Espírito jamais fica inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, como este não necessita então de sua presença, ele se desloca pelo espaço e entra em relação mais direta com outros Espíritos.

402 — Como podemos julgar da liberdade do Espírito durante o sono?

— Pelos sonhos. Quando o corpo repousa, acredita, o Espírito dispõe de mais faculdades do que no estado de vigília. Lembra-se do passado e, algumas vezes, prevê o futuro. Adquire maior capacidade e pode comunicar-se com outros Espíritos, neste mundo ou em outro. Dizes frequentemente: “Tive um sonho estranho, um sonho horrível, mas totalmente inverossímil.” Enganas-te. Muitas vezes é uma lembrança de lugares e situações que viste ou que ainda verás, em outra existência ou em outro momento. Enquanto o corpo está entorpecido, o Espírito tenta romper seus grilhões e investigar o passado ou o futuro. Pobres seres humanos, que mal conhecem os fenômenos mais comuns da vida! Julgais-vos muito sábios, e as coisas mais simples vos confundem. Nada sabeis responder às perguntas que até as crianças fazem: o que fazemos quando dormimos? O que são os sonhos?

O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o ser humano se encontra, por algum tempo, no estado em que ficará de modo permanente após a morte. Os Espíritos que, ao desencarnar, se desligam rapidamente da matéria, já experimentavam durante a vida corporal um sono lúcido. Quando dormem, vão ao encontro de Espíritos que lhes são superiores; com eles viajam, conversam e aprendem. Trabalham até mesmo em obras que encontram concluídas quando retornam, após a morte, ao mundo espiritual. Isso deve ensinar-vos a não temer a morte, pois todos os dias morreis um pouco, como disse um santo.

Isso se aplica aos Espíritos elevados. Quanto à maioria das pessoas que, ao morrer, passam longos períodos em perturbação e incerteza, enquanto dormem vão a mundos inferiores à Terra, atraídas por antigas inclinações, ou em busca de prazeres ainda mais baixos do que aqueles aos quais se entregam aqui. Absorvem doutrinas mais vis, mais degradantes e mais nocivas do que as que professam entre vós. É daí que nasce a simpatia na Terra: ao despertar, o ser humano sente-se ligado pelo afeto àqueles com quem acabou de passar várias horas de prazer ou satisfação. As antipatias profundas também se explicam assim: sentimos intimamente que aqueles de quem não gostamos têm uma consciência diferente da nossa. Reconhecemo-los sem jamais tê-los visto com os olhos. Isso também explica a indiferença: há pessoas que não se empenham em fazer novos amigos porque sabem que já são amadas por muitos. Em resumo, o sono influencia muito mais a vida de vocês do que imaginam.

Graças ao sono, os Espíritos encarnados mantêm constante relação com o mundo espiritual. Por isso, os Espíritos superiores aceitam, sem grande repulsa, encarnar entre vós. Deus quis que, estando em contato com o vício, pudessem renovar-se na fonte do bem, para não falharem quando se propõem a instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abriu para reencontrar seus amigos espirituais; é o repouso após o trabalho, enquanto aguardam a grande libertação, a libertação final que os reconduzirá ao meio que lhes é próprio.

O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. Observa, porém, que nem sempre sonhas, pois nem sempre te lembras do que viste, ou de tudo o que viste enquanto dormias. Os sonhos nem sempre refletem a ação plena da alma; muitas vezes são apenas a lembrança confusa da perturbação sentida na partida ou no retorno ao corpo, somada ao que fizeste ou ao que te preocupa quando estás desperto. Caso contrário, como explicarias os sonhos absurdos que tanto os sábios quanto as pessoas mais simples têm? Também acontece que Espíritos inferiores se aproveitam do estado de sonho para atormentar almas frágeis e inseguras.

Além disso, em breve verás desenvolver-se outro tipo de sonhos. Embora tão antigos quanto os anteriores, são pouco conhecidos. Refiro-me aos sonhos de Joana d’Arc, aos de Jacó, aos dos profetas judeus e aos de alguns sábios indianos. São lembranças conservadas por almas que se desprendem completamente do corpo, recordações dessa segunda vida a que nos referimos há pouco.

Procura distinguir essas duas espécies de sonhos entre aqueles de que te lembras; do contrário, cairás em contradições e erros prejudiciais à tua compreensão.

Os sonhos são efeito da emancipação da alma, que se torna mais independente pela suspensão da vida ativa e das relações sensoriais. Daí surge uma espécie de clarividência indefinida, que pode se estender a lugares distantes e até a outros mundos. Daí também a lembrança de acontecimentos da vida atual ou de existências anteriores. As imagens estranhas do que ocorre ou ocorreu em mundos desconhecidos, misturadas a elementos da vida presente, formam esses conjuntos confusos que parecem não ter sentido ou ligação.

A incoerência dos sonhos também se explica pelas falhas de uma lembrança incompleta do que foi visto durante o sono. É como uma narrativa da qual foram suprimidos trechos ao acaso; reunidos depois, os fragmentos restantes não apresentam sentido lógico.

403 — Por que não nos lembramos sempre dos sonhos?

— Porque, no que chamas de sono, apenas o corpo repousa; o Espírito permanece sempre ativo. Durante o sono, ele recupera parte de sua liberdade e se comunica com aqueles que lhe são caros, neste mundo ou em outros. Mas, sendo o corpo formado por matéria pesada e grosseira, tem dificuldade em conservar as impressões recebidas pelo Espírito, pois estas não lhe chegam por intermédio dos órgãos corporais.

404 — O que se deve pensar das significações atribuídas aos sonhos?

— Os sonhos não são verdadeiros no sentido que lhes atribuem os intérpretes supersticiosos, pois é absurdo acreditar que sonhar com algo anuncia necessariamente outro fato. Eles são verdadeiros no sentido de apresentarem imagens que, para o Espírito, têm realidade, mas que muitas vezes não guardam relação com a vida corporal. Frequentemente, como já dissemos, são lembranças. Em certos casos, podem ser pressentimentos do futuro, se Deus o permitir, ou a percepção do que ocorre naquele momento em outro lugar para onde a alma se desloca. Não são raros os casos de pessoas que aparecem em sonho a parentes e amigos para avisá-los do que lhes está acontecendo. Que são essas aparições senão as almas ou os Espíritos dessas pessoas comunicando-se com quem lhes é caro? Quando tens certeza de que o que viste realmente aconteceu, isso não prova que a imaginação não teve participação, sobretudo se o fato não te ocupava o pensamento quando estavas desperto?

405 — Acontece com frequência vermos em sonho coisas que parecem presságios, mas que depois não se confirmam. A que se deve isso?

— Pode acontecer que esses pressentimentos se confirmem apenas na experiência do Espírito, e não na do corpo; ou seja, o Espírito vê aquilo que deseja, porque vai ao encontro disso. Não se deve esquecer que, durante o sono, a alma ainda está sob influência da matéria e nunca se liberta completamente das ideias terrenas. Por isso, as preocupações da vigília podem dar ao que se vê a aparência do que se deseja ou do que se teme. É a isso que se deve atribuir, de fato, o efeito da imaginação. Quando uma ideia nos ocupa intensamente, tudo o que vemos parece ligado a ela.

406 — Quando, em sonho, vemos pessoas vivas e conhecidas praticando atos nos quais jamais pensariam, isso não é puro efeito da imaginação?

— Dizes que jamais pensariam nisso. O que sabes a respeito? Os Espíritos dessas pessoas podem visitar o teu, assim como o teu pode visitá-los, sem que saibas sempre o que eles pensam. Além disso, não é raro atribuíres a pessoas conhecidas, conforme teus desejos ou receios, fatos que dizem respeito a outras existências.

407 — É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito?

— Não. Basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recupere sua liberdade. Para se emancipar, ele aproveita todos os momentos de repouso que o corpo lhe concede. Sempre que há enfraquecimento das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre quanto mais fraco estiver o corpo.

Assim, quando estamos apenas sonolentos ou em leve dormência, muitas vezes vemos imagens semelhantes às dos sonhos.

408 — Às vezes parece-nos ouvir, dentro de nós, palavras pronunciadas com clareza, sem relação com o que nos preocupa. Qual a razão disso?

— É fato. Chegas até a ouvir frases inteiras, principalmente quando os sentidos começam a entorpecer-se. Trata-se, muitas vezes, de um eco fraco do que diz um Espírito que tenta comunicar-se contigo.

409 — Em outras ocasiões, num estado que ainda não é exatamente o do sono, com os olhos fechados, vemos imagens nítidas, figuras cujos mínimos detalhes percebemos. Isso é visão ou imaginação?

— Como o corpo está entorpecido, o Espírito procura desprender-se. Ele se desloca e vê. Se o sono fosse completo, isso já seria um sonho.

410 — Durante o sono, ou mesmo quando estamos apenas levemente adormecidos, surgem ideias que parecem excelentes, mas que logo se apagam da memória, apesar do esforço para retê-las. De onde vêm essas ideias?

— Vêm da liberdade do Espírito que se emancipa e, nesse estado, dispõe de mais faculdades. Muitas vezes são conselhos dados por outros Espíritos.

— De que servem essas ideias e conselhos, se esquecemos tudo e não conseguimos aproveitá-los?

— Algumas dessas ideias dizem mais respeito ao mundo espiritual do que ao mundo corporal. Porém, com mais frequência, mesmo que o corpo as esqueça, o Espírito as conserva, e elas retornam no momento oportuno, como uma inspiração repentina.

411 — Estando desprendido da matéria e agindo como Espírito, sabe o Espírito encarnado quando morrerá?

— Frequentemente, ele pressente isso. Às vezes, tem consciência clara desse momento, o que faz com que, no estado de vigília, tenha uma intuição do fato. É por isso que algumas pessoas conseguem prever com grande exatidão a data de sua morte.

412 — A atividade do Espírito durante o repouso ou o sono pode fatigar o corpo?

— Pode, pois o Espírito permanece ligado ao corpo como um balão preso a um poste. Assim como os movimentos do balão sacodem o poste, a atividade do Espírito reage sobre o corpo e pode cansá-lo.

Visitas espíritas entre pessoas vivas
413 — Do princípio da emancipação da alma parece decorrer que temos duas existências simultâneas: a do corpo, que nos permite a vida de relação ostensiva; e a da alma, que nos proporciona a vida de relação oculta. É assim?

— No estado de emancipação, a vida da alma predomina. Contudo, não existem, de fato, duas existências. São, antes, duas fases de uma só existência, porque o homem não vive duas vezes.

414 — Podem duas pessoas que se conhecem visitar-se durante o sono?

— Sim, e muitos que acham que não se conhecem costumam se reunir e conversar. Você pode ter, sem perceber, amigos em outro país. É tão comum vocês se encontrarem, durante o sono, com amigos e parentes, com os que conhecem e com pessoas que podem ser úteis, que quase todas as noites fazem essas visitas.

415 — Que utilidade podem elas ter, se as esquecemos?

— Em geral, ao despertar, vocês guardam a intuição desse fato, e daí frequentemente surgem ideias que aparecem espontaneamente, sem que consigam explicar de onde vieram. São ideias que vocês adquiriram nessas conversas.

416 — Pode o homem, pela sua vontade, provocar as visitas espíritas? Pode, por exemplo, dizer, quando está para dormir: Quero esta noite encontrar-me em Espírito com fulano, quero falar-lhe para dizer isto?

— O que acontece é o seguinte: quando o homem adormece, seu Espírito desperta e, muitas vezes, não tem a menor disposição de fazer o que o homem havia decidido, porque a vida corporal pouco interessa ao Espírito, uma vez desprendido da matéria. Isso vale para homens já bastante elevados espiritualmente. Os outros passam por essa fase espiritual da existência terrena de modo bem diferente: entregam-se às suas paixões, ou permanecem inativos. Pode, portanto, acontecer — se houver motivos para isso — que o Espírito vá visitar aqueles com quem deseja encontrar-se. Mas o simples fato de a pessoa, acordada, querer que isso aconteça não é motivo suficiente para que de fato aconteça.

417 — Podem Espíritos encarnados reunir-se em certo número e formar assembleias?

— Sem dúvida alguma. Laços de amizade, antigos ou recentes, costumam reunir desse modo diversos Espíritos, que se sentem felizes de estar juntos.

Pelo termo antigos se devem entender os laços de amizade contraídos em existências anteriores. Ao despertar, guardamos intuição das ideias que recolhemos nesses colóquios, mas ficamos na ignorância da fonte de onde vieram.

418 — Uma pessoa que julgasse morto um de seus amigos, sem que tal fosse a realidade, poderia encontrar-se com ele, em Espírito, e verificar que continua vivo? Poderia, neste caso, ter a intuição desse fato ao despertar?

— Como Espírito, a pessoa que imaginas pode ver o seu amigo e conhecer a sua situação. Se não lhe tiver sido imposto, como prova, acreditar na morte desse amigo, poderá ter um pressentimento de que ele está vivo, assim como poderá ter um pressentimento de sua morte.

Transmissão oculta do pensamento
419 — Que é o que faz com que uma ideia, a de uma descoberta, por exemplo, surja em muitos pontos ao mesmo tempo?

— Já dissemos que, durante o sono, os Espíritos se comunicam entre si. Então, quando acontece o despertar, o Espírito se lembra do que aprendeu e o homem acha que isso foi uma invenção dele mesmo. Assim é que muitos podem descobrir, ao mesmo tempo, a mesma coisa. Quando vocês dizem que uma ideia “paira no ar”, usam uma imagem mais exata do que imaginam. Todos, sem perceber, contribuem para propagá-la.

Desse modo, o nosso próprio Espírito muitas vezes revela a outros Espíritos, sem que disso nos demos conta, o que era objeto de nossas preocupações no estado de vigília.

420 — Podem os Espíritos comunicar-se, estando completamente despertos os corpos?

— O Espírito não está fechado no corpo como numa caixa; ele irradia por todos os lados. Por isso, pode comunicar-se com outros Espíritos mesmo em estado de vigília, embora com mais dificuldade.

421 — Como se explica que duas pessoas perfeitamente acordadas tenham instantaneamente a mesma ideia?

— São dois Espíritos simpáticos que se comunicam e veem, reciprocamente, os pensamentos um do outro, mesmo sem os corpos estarem adormecidos.

Há, entre os Espíritos que se encontram, uma comunicação de pensamento, que faz com que duas pessoas se vejam e se compreendam sem precisarem dos sinais visíveis da linguagem. Poder-se-ia dizer que falam entre si a linguagem dos Espíritos.

Letargia, catalepsia, mortes aparentes
422 — Os letárgicos e os catalépticos, em geral, veem e ouvem o que se passa em derredor, sem que possam expressar que estão vendo e ouvindo. É pelos olhos e pelos ouvidos que têm essas percepções?

— Não; pelo Espírito. O Espírito tem consciência de si, mas não pode comunicar-se.

— Por quê?

— Porque o estado do corpo impede isso. Esse estado especial dos órgãos prova que no homem há algo mais do que o corpo, pois, então, o corpo já não funciona e, no entanto, o Espírito continua ativo.

423 — Na letargia, pode o Espírito separar-se inteiramente do corpo, de modo a imprimir-lhe todas as aparências da morte e voltar depois a habitá-lo?

— Na letargia, o corpo não está morto, porque há funções que continuam a ser executadas. Sua vitalidade fica em estado latente, como na crisálida, mas não é anulada. Enquanto o corpo vive, o Espírito continua ligado a ele. Quando esses laços se rompem, por causa da morte real e da desagregação dos órgãos, a separação se torna completa e o Espírito não volta mais ao seu envoltório. Quando um homem aparentemente morto volta à vida, é porque a morte não era completa.

424 — Por meio de cuidados dispensados a tempo, podem reatar-se laços prestes a se desfazerem, restituindo-se à vida um ser que definitivamente morreria se não fosse socorrido?

— Sem dúvida, e todos os dias vocês têm prova disso. O magnetismo, em tais casos, é muitas vezes um poderoso meio de ação, porque restitui ao corpo o fluido vital que lhe falta para manter o funcionamento dos órgãos.

A letargia e a catalepsia derivam do mesmo princípio, que é a perda temporária da sensibilidade e do movimento, por uma causa fisiológica ainda não explicada. Diferem uma da outra em que, na letargia, a suspensão das forças vitais é geral e dá ao corpo todas as aparências da morte; na catalepsia, fica localizada, podendo atingir uma parte mais ou menos extensa do corpo, de modo a permitir que a inteligência se manifeste livremente, o que a torna inconfundível com a morte. A letargia é sempre natural; a catalepsia é por vezes espontânea, mas pode ser provocada e anulada artificialmente pela ação magnética.

Sonambulismo
425 — O sonambulismo natural tem alguma relação com os sonhos? Como explicá-lo?

— É um estado de independência da alma mais completo do que o do sonho. Nesse estado, suas faculdades se ampliam. A alma passa a ter percepções que não possui no sonho, que pode ser considerado um sonambulismo incompleto.

No sonambulismo, o Espírito está plenamente consciente de si. Os órgãos materiais, encontrando-se em espécie de catalepsia, deixam de receber as impressões externas. Esse estado ocorre principalmente durante o sono, quando o Espírito pode afastar-se temporariamente do corpo, que então desfruta do repouso necessário à matéria. Quando surgem os fenômenos do sonambulismo, é porque o Espírito, ocupado com determinado assunto, aplica-se a uma ação que exige o uso do corpo. Ele então se serve do corpo como se serviria de um objeto material, como ocorre nas manifestações físicas, ou como utiliza a mão do médium nas comunicações escritas.

Nos sonhos conscientes, os órgãos, inclusive os da memória, começam a despertar. Eles recebem de forma imperfeita as impressões produzidas por objetos ou causas externas e as transmitem ao Espírito, que, ainda em repouso, experimenta apenas sensações confusas, muitas vezes desordenadas, sem razão aparente, misturadas a vagas lembranças da existência atual ou de existências anteriores. Assim, compreende-se facilmente por que os sonâmbulos não guardam lembrança do que ocorreu durante o estado sonambúlico e por que os sonhos de que nos lembramos, na maioria das vezes, não fazem sentido. Digo na maioria das vezes, porque também ocorre que sejam lembranças exatas de acontecimentos de uma vida anterior ou, em certos casos, uma espécie de intuição do futuro.

426 — O chamado sonambulismo magnético tem alguma relação com o sonambulismo natural?

— É o mesmo fenômeno, com a única diferença de ser provocado.

427 — De que natureza é o agente chamado fluido magnético?

— Fluido vital, eletricidade animalizada, que são modificações do fluido universal.

428 — Qual a causa da clarividência sonambúlica?

— Já foi dito: é a alma que vê.

429 — Como pode o sonâmbulo ver através de corpos opacos?

— Não existem corpos opacos senão para os vossos órgãos grosseiros. Já não dissemos que a matéria não oferece obstáculo ao Espírito, que a atravessa livremente? Frequentemente ouvis o sonâmbulo dizer que vê pela fronte, pelo joelho, etc., porque, estando vós inteiramente presos à matéria, não compreendeis que ele possa ver sem o auxílio dos órgãos. Ele próprio, influenciado pelo desejo de quem o interroga, julga precisar desses órgãos. Se, porém, fosse deixado livre, compreenderia que vê por todas as partes do corpo, ou melhor dizendo, que vê fora do corpo.

430 — Se a clarividência pertence à alma ou ao Espírito, por que o sonâmbulo não vê tudo e tantas vezes se engana?

— Primeiro, porque aos Espíritos imperfeitos não é dado saber tudo nem ver tudo. Eles ainda compartilham dos vossos erros e preconceitos. Além disso, quando ligados à matéria, não desfrutam plenamente de todas as faculdades espirituais. Deus concedeu ao ser humano a faculdade sonambúlica para fins úteis e sérios, não para revelar tudo o que não deve ser conhecido. Por isso, os sonâmbulos não podem dizer tudo.

431 — Qual a origem das ideias inatas do sonâmbulo, e como pode falar com exatidão de coisas que ignora quando desperto, inclusive de assuntos acima de sua capacidade intelectual?

— O sonâmbulo possui mais conhecimentos do que imaginais. Esses conhecimentos apenas permanecem adormecidos, pois, sendo o envoltório corporal imperfeito, não permite que ele se recorde plenamente. O que é um sonâmbulo, afinal? Um Espírito como nós, encarnado na matéria para cumprir sua missão, que desperta dessa letargia quando entra em estado sonambúlico. Já dissemos repetidamente que renascemos muitas vezes. Essa mudança de condição faz com que o sonâmbulo, como qualquer Espírito, perca materialmente o que aprendeu em existência anterior. Ao entrar no estado que chamas de crise, ele se lembra do que sabe, mas sempre de modo incompleto. Sabe, mas não consegue dizer de onde vem o conhecimento nem como o possui. Passada a crise, toda lembrança se apaga, e ele retorna à obscuridade.

A experiência mostra também que os sonâmbulos recebem comunicações de outros Espíritos, que lhes transmitem o que devem dizer e suprem as limitações que apresentam. Isso se verifica principalmente nas prescrições médicas. O Espírito do sonâmbulo percebe o mal, e outro Espírito lhe indica o remédio. Essa dupla ação às vezes é evidente e se revela por expressões frequentes como: “disseram-me que eu dissesse” ou “não me permitem dizer tal coisa”. Neste último caso, há sempre perigo em insistir numa revelação negada, pois se abre espaço para a intervenção de Espíritos levianos, que falam sem critério e sem compromisso com a verdade.

432 — Como se explica a visão à distância em certos sonâmbulos?

— Durante o sono, a alma não se desloca? O mesmo ocorre no sonambulismo.

433 — O maior ou menor desenvolvimento da clarividência sonambúlica depende da organização física ou apenas da natureza do Espírito encarnado?

— De ambos. Existem disposições físicas que permitem ao Espírito desprender-se da matéria com maior ou menor facilidade.

434 — As faculdades de que goza o sonâmbulo são as mesmas que o Espírito possui após a morte?

— Apenas até certo ponto, pois é preciso considerar a influência da matéria à qual ele ainda está ligado.

435 — O sonâmbulo pode ver outros Espíritos?

— A maioria os vê muito bem, conforme o grau e a natureza da lucidez de cada um. Algumas vezes, porém, não percebem de imediato que estão vendo Espíritos e os tomam por seres corpóreos. Isso ocorre principalmente com aqueles que nada conhecem do Espiritismo e ainda não compreendem a natureza dos Espíritos. O fato os espanta e os leva a acreditar que estão diante de pessoas encarnadas.

O mesmo acontece com Espíritos recém-desencarnados que ainda se julgam vivos. Não percebendo nenhuma alteração ao seu redor e vendo Espíritos com aparência semelhante à humana, tomam a aparência do próprio perispírito por um corpo material.

436 — Se, nos fenômenos sonambúlicos, é a alma que se desloca, de onde o sonâmbulo vê: do local onde está o corpo ou de onde está a alma?

— Por que fazer essa pergunta, se sabes que é a alma que vê, e não o corpo?

437 — Se é a alma que se desloca, como pode o sonâmbulo sentir no corpo as sensações de frio ou calor do lugar onde se encontra sua alma, muitas vezes distante do corpo?

— A alma, nesses casos, não se separa completamente do corpo. Ela permanece ligada por um laço que funciona como condutor das sensações. Quando duas pessoas se comunicam à distância por meio da eletricidade, esta funciona como o elo que liga seus pensamentos. Assim, conversam como se estivessem lado a lado.

438 — O uso que o sonâmbulo faz de sua faculdade influencia o estado de seu Espírito após a morte?

— Influencia muito, assim como o bom ou mau uso que o ser humano faz de todas as faculdades que Deus lhe concedeu.

Êxtase
439 — Qual a diferença entre o êxtase e o sonambulismo?

— O êxtase é um sonambulismo mais elevado. A alma do extático é ainda mais independente.

440 — O Espírito do extático realmente penetra nos mundos superiores?

— Ele vê esses mundos e compreende a felicidade dos que os habitam, o que desperta o desejo de ali permanecer. Contudo, existem mundos inacessíveis aos Espíritos que ainda não estão suficientemente purificados.

441 — Quando o extático manifesta o desejo de deixar a Terra, fala com sinceridade? O instinto de conservação não o retém?

— Isso depende do grau de purificação do Espírito. Se percebe que sua situação futura será melhor do que a atual, esforça-se por romper os laços que o prendem à Terra.

442 — Se o extático fosse deixado entregue a si mesmo, sua alma poderia abandonar definitivamente o corpo?

— Poderia, sim. Ele poderia morrer. Por isso é necessário chamá-lo de volta, apelando para tudo o que o liga a este mundo, fazendo-o compreender que a maneira mais segura de não permanecer onde vê felicidade é romper totalmente os laços com a vida corporal.

443 — Se o extático vê coisas que parecem produto da imaginação influenciada por crenças e preconceitos terrenos, não se deve concluir que nem tudo o que ele vê é real?

— O que o extático vê é real para ele. Contudo, como seu Espírito ainda sofre a influência das ideias terrenas, pode acontecer que ele interprete ou expresse o que vê segundo seus próprios preconceitos ou segundo os de quem o escuta, para ser melhor compreendido. Nesse sentido, é que pode ocorrer erro.

444 — Que confiança se pode depositar nas revelações dos extáticos?

— O extático está sujeito a enganar-se com frequência, sobretudo quando tenta penetrar em assuntos que devem permanecer ocultos ao ser humano. Nesses casos, pode ser levado por suas próprias ideias ou tornar-se instrumento de Espíritos mistificadores, que se aproveitam de seu entusiasmo.

445 — Que conclusões podem ser tiradas dos fenômenos do sonambulismo e do êxtase? Não seriam uma espécie de iniciação à vida futura?

— De certo modo, por meio desses fenômenos, o ser humano vislumbra a vida passada e a vida futura. Estudai-os e encontrareis neles a explicação de muitos mistérios que a razão, sozinha, tenta em vão esclarecer.

446 — Esses fenômenos podem ser conciliados com as ideias materialistas?

— Quem os estuda de boa-fé e sem preconceitos não pode permanecer materialista nem ateu.

Segunda vista
447 — O fenômeno chamado segunda vista tem relação com o sonho e o sonambulismo?

— Tudo isso é a mesma coisa. O que chamais de segunda vista é também resultado da libertação do Espírito, sem que o corpo esteja adormecido. A segunda vista é a visão da alma.

448 — A segunda vista é permanente?

— A faculdade é permanente; o exercício, não. Em mundos menos materiais que o vosso, os Espíritos se desprendem com mais facilidade e se comunicam apenas pelo pensamento, sem abolir a linguagem articulada. Nesses mundos, a segunda vista é uma faculdade permanente para a maioria dos habitantes, cujo estado normal se assemelha ao dos vossos sonâmbulos lúcidos. É por isso também que esses Espíritos se manifestam com mais facilidade do que os encarnados em corpos mais densos.

449 — A segunda vista se desenvolve espontaneamente ou pela vontade de quem a possui?

— Na maioria das vezes, surge espontaneamente, mas a vontade também desempenha papel importante em seu desenvolvimento. Observa, por exemplo, as pessoas conhecidas como videntes ou leitoras de sorte: muitas entram nesse estado com auxílio da própria vontade.

450 — A segunda vista pode ser desenvolvida pelo exercício?

— Sim. O exercício conduz ao progresso e à dissipação do véu que encobre certas percepções.

— Essa faculdade tem relação com a organização física?

— Sem dúvida. O organismo influencia sua manifestação. Há organismos que lhe são refratários.

451 — Por que a segunda vista parece hereditária em algumas famílias?

— Pela semelhança do organismo, que se transmite como outras características físicas. Além disso, a faculdade se desenvolve por uma espécie de educação, que também se transmite.

452 — Certas circunstâncias favorecem o desenvolvimento da segunda vista?

— Sim. Doença, perigo iminente, grandes emoções podem despertá-la. Às vezes, o corpo entra num estado especial que permite ao Espírito ver o que não se pode perceber com os sentidos físicos.

Em épocas de crises e calamidades, grandes comoções morais frequentemente provocam o desenvolvimento da segunda vista. Parece que a Providência, quando um perigo nos ameaça, nos oferece um meio de enfrentá-lo.

453 — As pessoas dotadas de segunda vista sempre têm consciência dessa faculdade?

— Nem sempre. Muitas a consideram algo natural e acreditam que todos, se observassem melhor a si mesmos, perceberiam o mesmo.

454 — A perspicácia de algumas pessoas, que compreendem melhor as situações sem nada apresentarem de extraordinário, pode ser atribuída à segunda vista?

— É sempre a alma que irradia com mais liberdade e aprecia melhor do que sob o véu da matéria.

— Essa faculdade pode, em certos casos, dar a presciência?

— Pode, assim como pressentimentos. Ela possui muitos graus, que podem coexistir num mesmo indivíduo.

455 — Resumo teórico do sonambulismo, do êxtase e da segunda vista

Os fenômenos do sonambulismo natural ocorrem espontaneamente e independem de causa exterior conhecida. Em algumas pessoas, dotadas de organização física particular, podem ser provocados artificialmente pela ação magnética.

O sonambulismo magnético difere do natural apenas por ser provocado, enquanto o outro é espontâneo.

O sonambulismo natural é um fato conhecido, que ninguém contesta seriamente, apesar do caráter extraordinário dos fenômenos que produz. Por que seria mais irracional o sonambulismo magnético? Apenas porque é provocado artificialmente, como tantas outras coisas? Se charlatães o exploram, isso não invalida o fenômeno. Pelo contrário, é motivo para que a ciência se aproprie dele. Quando isso ocorrer, os charlatães perderão espaço. Enquanto isso não acontece, o fenômeno avança, apesar da resistência de alguns, inclusive no meio científico.

Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenômeno fisiológico: é uma luz lançada sobre a psicologia. É nesse estado que a alma pode ser estudada diretamente, pois se manifesta de forma mais livre. Um dos principais fenômenos observados é a clarividência independente dos órgãos da visão. Os que contestam esse fato alegam que o sonâmbulo não vê sempre ou conforme a vontade do experimentador. Mas isso ocorre porque os meios são diferentes. A alma tem propriedades próprias, assim como os olhos têm as suas. Deve-se analisá-las por si mesmas, não por analogia.

A clarividência do sonâmbulo, seja natural ou magnética, tem a mesma origem: é um atributo da alma. O sonâmbulo vê onde quer que sua alma possa se transportar, independentemente da distância.

Na visão à distância, o sonâmbulo não vê a partir do local onde está o corpo, como se usasse um telescópio. Ele vê como se estivesse presente no lugar observado, porque sua alma realmente está ali. Por isso, o corpo fica momentaneamente privado de sensações até que a alma retorne. Essa separação parcial entre alma e corpo é um estado anormal, que não pode durar indefinidamente. Daí o cansaço que o corpo sente após certo tempo, especialmente quando a alma se dedica a atividades intensas.

A visão da alma não tem sede determinada. Por isso, os sonâmbulos não conseguem apontar um órgão específico. Eles veem simplesmente, sem saber como, pois, como Espíritos, a visão não depende de um foco físico. Ao tentar explicar isso com base no corpo, situam essa percepção nos centros de maior atividade vital, como o cérebro ou a região do epigástrio, que consideram pontos de ligação mais fortes entre o Espírito e o corpo.

A lucidez sonambúlica não é ilimitada. O Espírito, mesmo livre, tem seus conhecimentos limitados pelo grau de perfeição alcançado. Essas limitações são ainda maiores quando está ligado à matéria. Por isso, a clarividência sonambúlica não é universal nem infalível, especialmente quando desviada de seu fim natural e transformada em simples curiosidade.

No estado de desprendimento, o Espírito do sonâmbulo se comunica com mais facilidade com outros Espíritos, encarnados ou não. Essa comunicação ocorre pelo contato dos fluidos dos perispíritos, que transmitem o pensamento, como um fio elétrico. O sonâmbulo não precisa de palavras: ele sente e percebe os pensamentos. Isso o torna extremamente sensível às influências morais do ambiente. Por isso, uma assistência numerosa ou hostil prejudica o desenvolvimento de suas faculdades, que só se manifestam plenamente em ambiente favorável.

O sonâmbulo percebe ao mesmo tempo seu Espírito e seu corpo, como se fossem dois seres distintos, representando a dupla existência corporal e espiritual. Nem sempre tem consciência clara dessa condição, o que explica por que às vezes fala de si como se fosse outra pessoa.

Em cada existência corporal, o Espírito adquire novos conhecimentos e experiências. Ao encarnar em matéria mais grosseira, esquece-os parcialmente, mas deles se recorda como Espírito. Por isso, sonâmbulos podem revelar conhecimentos superiores ao grau de instrução que possuem quando despertos. Esses conhecimentos podem vir de experiências anteriores, da clarividência sobre o presente ou de comunicações de outros Espíritos.

Os fenômenos do sonambulismo, natural ou magnético, oferecem prova clara da existência e da independência da alma. Permitem observar diretamente sua emancipação e compreender melhor o destino espiritual. Enquanto a metafísica abstrata se perde em especulações, Deus coloca diante de nós meios simples e acessíveis para o estudo da psicologia experimental.

O êxtase é o estado em que a independência da alma em relação ao corpo se manifesta de forma mais intensa. No sonho e no sonambulismo, a alma se movimenta nas regiões terrestres; no êxtase, penetra em mundos espirituais mais elevados, ainda que sem ultrapassar certos limites. Se os ultrapassasse, os laços com o corpo se romperiam definitivamente.

Nesse estado, o corpo quase se anula, restando apenas a vida orgânica. A alma parece ligada ao corpo por um fio tênue, que poderia romper-se com pequeno esforço. Os pensamentos terrenos desaparecem, dando lugar a sentimentos elevados. O extático vê a vida corporal como uma etapa passageira e antecipa, por instantes, a felicidade espiritual.

Como nos sonâmbulos, a lucidez dos extáticos varia conforme o grau de elevação do Espírito. Às vezes, há mais exaltação do que verdadeira lucidez, o que leva a misturas de verdades e erros. Espíritos inferiores podem se aproveitar desse estado para enganar o extático, adaptando-se aos seus preconceitos. Cabe sempre julgar essas revelações com razão e discernimento.

A emancipação da alma pode ocorrer também em estado de vigília, dando origem à segunda vista. Nesse fenômeno, o Espírito percebe além dos limites dos sentidos físicos. O estado físico da pessoa se altera: o olhar torna-se vago, e os olhos deixam de ser o instrumento da percepção.

Para quem possui a segunda vista, essa faculdade parece natural. Muitas vezes, o esquecimento se segue à experiência, como ocorre com os sonhos. O grau dessa faculdade varia desde simples intuições até percepções claras de acontecimentos presentes ou futuros.

O sonambulismo, o êxtase, a segunda vista e os sonhos são manifestações de uma mesma causa: a emancipação da alma. Esses fenômenos sempre existiram e explicam muitos fatos antes considerados sobrenaturais.

Capítulo 9 - Intervenção dos Espíritos no mundo corporal