O Nada. Vida futura
958 — Por que o ser humano tem, instintivamente, horror ao nada?
— Porque o nada não existe.
959 — De onde vem, no ser humano, o sentimento instintivo da vida futura?
— Já explicamos: antes de encarnar, o Espírito conhecia essas realidades, e a alma conserva uma lembrança vaga do que sabia e do que viu no estado espiritual (393).
Desde todos os tempos, o ser humano se preocupa com o que existe além da morte — e isso é perfeitamente natural. Por mais importância que atribua à vida presente, ele percebe que ela é curta e frágil, sujeita a terminar a qualquer instante, sem garantia sequer do dia seguinte. O que acontece depois do momento final? Essa pergunta é profunda, porque não envolve apenas alguns anos, mas a eternidade.
Quem vai viver muito tempo em um país distante se preocupa com as condições que encontrará lá. Como, então, não nos preocuparíamos com a situação em que estaremos ao deixar este mundo, sabendo que essa passagem é definitiva?
A ideia do nada causa repulsa à razão. Mesmo aquele que vive despreocupado acaba, no instante derradeiro, perguntando a si mesmo o que será dele — e, quase sem perceber, se agarra à esperança.
Crer em Deus sem admitir a vida futura é uma contradição. O sentimento de uma existência melhor está no íntimo de todos os seres humanos, e não faria sentido que Deus o tivesse colocado ali sem propósito.
A vida futura pressupõe a preservação da nossa individualidade após a morte. Afinal, de que nos serviria sobreviver ao corpo se nossa essência moral se dissolvesse no infinito? Para nós, o efeito seria o mesmo que desaparecer no nada.
Intuição das penas e gozos futuros
960 — De onde nasce a crença, comum a todos os povos, na existência de punições e recompensas após a morte?
— Da mesma origem de sempre: o pressentimento da realidade, trazido pelo Espírito encarnado. Saibam que essa voz interior não fala em vão. O erro está em não lhe darem atenção suficiente. Se refletissem mais sobre isso, seriam pessoas melhores.
961 — Qual sentimento predomina na maioria das pessoas no momento da morte: dúvida, medo ou esperança?
— A dúvida nos céticos convictos; o medo nos culpados; a esperança nos homens de bem.
962 — Como podem existir céticos, se a alma traz consigo o sentimento do mundo espiritual?
— Eles são menos numerosos do que parece. Muitos se fazem de fortes e incrédulos por orgulho. No momento da morte, porém, essa postura costuma desaparecer.
A responsabilidade pelos nossos atos decorre diretamente da realidade da vida futura. A razão e a justiça nos dizem que não é possível confundir bons e maus na partilha da felicidade que todos desejam. Não seria justo que uns desfrutassem sem esforço do que outros só conquistam com trabalho e perseverança.
A ideia que fazemos da justiça e da bondade de Deus não permite acreditar que justos e maus sejam tratados da mesma forma. Nem faz sentido duvidar de que, um dia, cada um receba o que lhe corresponde pelo bem ou pelo mal que praticou. É por isso que o sentimento inato de justiça nos dá a intuição das penas e recompensas futuras.
Intervenção de Deus nas penas e recompensas
963 — Deus se ocupa de cada ser humano individualmente? Não somos pequenos demais diante da grandeza divina?
— Deus cuida de todos os seres que criou, por menores que pareçam. Nada é insignificante para a sua bondade.
964 — Mas Deus precisa observar cada um dos nossos atos para nos recompensar ou punir? Muitos deles não seriam irrelevantes para Ele?
— Deus estabeleceu leis que regem todas as ações humanas. Quando essas leis são violadas, a responsabilidade é nossa. Deus não julga dizendo: “Você fez isso, será punido”. Ele fixa limites. As doenças e, muitas vezes, a própria morte são consequências naturais dos excessos. Essa é a punição: o resultado da infração da lei. E isso vale para tudo.
Todas as nossas ações estão submetidas às leis divinas. Nenhuma é tão pequena que não possa representar uma violação dessas leis. Quando sofremos as consequências, somos nós mesmos os responsáveis, pois assim construímos nossa felicidade ou infelicidade futura.
Essa verdade fica clara com a seguinte comparação:
“Um pai educa o filho e lhe dá instrução, ou seja, os meios para se orientar. Entrega-lhe um campo para cultivar e diz: ‘Aqui está a regra que deves seguir e os instrumentos necessários para tornar esse campo produtivo e garantir teu sustento. Dei-te conhecimento para compreender essa regra. Se a seguires, o campo dará frutos e te assegurará tranquilidade na velhice. Se a ignorares, nada produzirá e passarás necessidade.’ Depois disso, deixa o filho agir livremente.”
Não é evidente que o campo produzirá conforme o cuidado que receber, e que toda negligência resultará em prejuízo? Na velhice, o filho será feliz ou infeliz conforme tenha seguido ou não a regra do pai.
Deus é ainda mais cuidadoso: Ele nos adverte constantemente, por meio da consciência, quando fazemos o bem ou o mal. Envia Espíritos para nos inspirar, mas muitas vezes não os escutamos. Há ainda uma diferença fundamental: Deus sempre concede novas oportunidades, novas existências, para que possamos reparar erros do passado — algo que o filho do exemplo não teve quando desperdiçou seu tempo.
Natureza das penas e gozos futuros
965 — As penas e as alegrias da alma, depois da morte, têm algo de material?
— Não podem ser materiais, como indica o bom senso, pois a alma não é matéria. Não há nada de físico nessas penas e alegrias; ainda assim, elas são muito mais intensas do que as que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto, torna-se mais sensível. A matéria já não lhe amortece as percepções (237–257).
966 — Por que o ser humano faz, tantas vezes, uma ideia tão grosseira e absurda das penas e alegrias da vida futura?
— Por falta de desenvolvimento intelectual suficiente. A criança entende as coisas como o adulto? Além disso, isso depende muito do que lhe foi ensinado: aí está a necessidade de uma reforma.
A linguagem humana é limitada para expressar o que está além do mundo material. Foi preciso recorrer a comparações, e as imagens usadas acabaram sendo tomadas como realidades. À medida que o ser humano se instrui, passa a compreender melhor aquilo que a linguagem não consegue traduzir.
967 — Em que consiste a felicidade dos Espíritos bons?
— Em conhecer todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem nenhuma das paixões que causam a infelicidade humana. O amor que os une é fonte de felicidade profunda. Não sofrem necessidades, dores ou angústias da vida material. São felizes pelo bem que realizam.
A felicidade dos Espíritos, porém, é proporcional ao grau de elevação de cada um. Somente os Espíritos puros desfrutam da felicidade plena, mas isso não significa que todos os demais sejam infelizes. Entre os maus e os perfeitos há inúmeros graus, nos quais as alegrias variam conforme o estado moral. Os que já avançaram bastante compreendem a felicidade dos que os antecederam e desejam alcançá-la. Esse desejo não gera inveja, mas estímulo. Sabem que depende deles mesmos chegar lá e trabalham para isso com serenidade de consciência, sentindo-se felizes por não sofrerem mais como sofrem os Espíritos inferiores.
968 — Mencionais a ausência de necessidades materiais como condição da felicidade dos Espíritos bons. Mas a satisfação dessas necessidades não é, para o homem, uma fonte de prazer?
— Sim, é o prazer do animal. Quando não consegues satisfazê-las, sofres.
969 — O que significa dizer que os Espíritos puros estão reunidos no seio de Deus e ocupados em lhe entoar louvores?
— Trata-se de uma alegoria, que indica o grau de compreensão que eles têm das perfeições divinas, pois veem e entendem Deus. Não deve ser tomada ao pé da letra. Tudo na natureza, desde um grão de areia, proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus.
Não penses, porém, que os Espíritos felizes passam a eternidade em contemplação passiva. Isso seria uma felicidade vazia e monótona, própria do egoísmo. Eles estão livres das tribulações da vida material, o que já é um grande gozo. Além disso, utilizam a inteligência que adquiriram para auxiliar o progresso dos outros Espíritos. Essa é sua ocupação — e, ao mesmo tempo, sua alegria.
970 — Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?
— São tão variados quanto as causas que os provocaram e proporcionais ao grau de inferioridade, assim como as alegrias o são ao de superioridade. Podem ser resumidos assim: invejar aquilo que lhes falta para serem felizes e não poder alcançar; ver a felicidade alheia sem poder usufruí-la; sentir remorso, ciúme, raiva, desespero pelo que os impede de ser felizes; sofrer ansiedade moral indefinível. Desejam todos os prazeres e não conseguem satisfazê-los: isso é o que os atormenta.
971 — A influência que os Espíritos exercem uns sobre os outros é sempre boa?
— É sempre boa da parte dos Espíritos bons. Já os Espíritos maus tentam afastar do bem e do arrependimento aqueles que julgam suscetíveis de se deixarem influenciar, muitas vezes os mesmos que eles conduziram ao mal durante a vida terrena.
— Então a morte não nos livra da tentação?
— Não, mas a influência dos maus Espíritos é muito menor sobre outros Espíritos do que sobre os encarnados, pois lhes falta o apoio das paixões materiais (996).
972 — Como os Espíritos maus tentam os outros, se não podem agir sobre paixões materiais?
— As paixões não existem mais de forma material, mas continuam existindo no pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus alimentam esses pensamentos, conduzindo suas vítimas a ambientes onde se apresentam cenas e lembranças capazes de excitá-los.
— Mas para que servem essas paixões, se já não têm objeto real?
— Justamente aí está o tormento: o avarento vê riquezas que não pode possuir; o devasso imagina excessos dos quais não pode participar; o orgulhoso vê honrarias que lhe despertam inveja e às quais não tem acesso.
973 — Quais são os maiores sofrimentos dos Espíritos maus?
— Não há palavras capazes de descrever plenamente as torturas morais que punem certos crimes. Mesmo o Espírito que as sofre teria dificuldade em explicá-las. Mas a mais terrível delas é a certeza de estar condenado sem possibilidade imediata de reparação.
A ideia que o ser humano faz das penas e alegrias após a morte depende do seu grau de entendimento. Quanto mais se desenvolve intelectualmente, mais essa ideia se depura e se afasta das imagens materiais. Passa a compreender de forma mais racional, sem tomar ao pé da letra figuras simbólicas. Sabendo que a alma é espiritual, a razão entende que ela não pode sofrer como o corpo sofre — mas isso não significa que esteja isenta de dor ou de punição (237).
As comunicações espíritas mostram o estado futuro da alma não como teoria, mas como realidade. Revelam as experiências da vida além da morte como consequências diretas e lógicas da vida terrena. Mesmo sem os exageros fantasiosos da imaginação humana, essas consequências continuam sendo dolorosas para quem fez mau uso de suas faculdades. Em síntese: cada um é punido pelo tipo de falta que cometeu. Uns sofrem ao ver continuamente o mal que causaram; outros, pelo remorso, pela vergonha, pelo medo, pela solidão, pelas trevas interiores, pela separação dos entes queridos, e assim por diante.*
974 — De onde vem a doutrina do fogo eterno?
— De uma imagem simbólica tomada como realidade, como tantas outras.
— Mas o medo desse fogo não produz bons efeitos?
— Observai se ele realmente funciona como freio, inclusive entre os que o ensinam. Quando se ensinam ideias que a razão acaba rejeitando, o efeito não é duradouro nem saudável.
Incapaz de definir a natureza desses sofrimentos, o ser humano recorreu à imagem mais forte que conhecia: o fogo, símbolo da dor extrema e da ação intensa. Por isso, a ideia do fogo eterno vem das mais antigas tradições e foi herdada pelos povos modernos. É o mesmo princípio das expressões figuradas: “fogo das paixões”, “arder de amor”, “queimar de ciúme”.
975 — Os Espíritos inferiores compreendem a felicidade dos justos?
— Sim, e isso é para eles um suplício, pois sabem que estão privados dessa felicidade por culpa própria. Por isso, o Espírito liberto da matéria aspira a uma nova encarnação, já que cada existência bem aproveitada reduz a duração do sofrimento. Assim, escolhe provas que lhe permitam reparar suas faltas.
O Espírito sofre por todo o mal que praticou ou causou voluntariamente, pelo bem que poderia ter feito e não fez, e pelo mal que resultou da omissão do bem.
Na erraticidade, o Espírito já não se engana: vê claramente o que o separa da felicidade. Seu sofrimento aumenta porque reconhece sua própria responsabilidade. Não há mais ilusões.
Ele revê suas existências passadas e, ao mesmo tempo, percebe o futuro que o aguarda, compreendendo o que ainda lhe falta para alcançá-lo. É como o viajante que chega ao topo de uma montanha: vê o caminho percorrido e o que ainda precisa percorrer para concluir a jornada.
976 — Ver o sofrimento dos Espíritos inferiores não perturba a felicidade dos bons?
— Não, porque sabem que o mal tem fim. Eles ajudam os outros a se melhorarem e lhes estendem a mão. Essa é sua ocupação — e essa ocupação lhes traz alegria quando conseguem êxito.
— E quando se trata de Espíritos que amaram na Terra? O sofrimento deles não os afeta?
— Se não percebessem esses sofrimentos, seriam estranhos a vós após a morte. Mas eles os veem sob outro ponto de vista. Sabem que as dores são úteis ao progresso, se suportadas com resignação. Sofrem mais ao ver a falta de coragem que atrasa esse progresso do que com o sofrimento em si, que é passageiro.
977 — Como os Espíritos não ocultam seus pensamentos, o culpado permanece sempre diante de sua vítima?
— Necessariamente, como indica o bom senso.
— Isso é um castigo?
— Sim, maior do que se imagina, mas apenas até que o culpado expie suas faltas, seja como Espírito, seja em novas existências corporais.
No mundo espiritual, todo o passado fica exposto. O culpado não pode fugir do olhar de suas vítimas, e essa presença constante é um castigo e um remorso contínuos, até que a reparação seja feita. Já o homem de bem encontra por toda parte acolhimento e serenidade.
978 — A lembrança das faltas passadas não perturba a felicidade do Espírito purificado?
— Não, porque ele já as resgatou e venceu as provas necessárias.
979 — A expectativa de novas provas não compromete a felicidade do Espírito?
— Para o Espírito ainda imperfeito, sim. Para o que já se elevou, não há sofrimento nisso.
A alma que alcança certo grau de pureza já experimenta felicidade. Sente gratidão, harmonia e alegria em tudo o que percebe. O véu que ocultava os mistérios da criação se levanta, e ela contempla as perfeições divinas com clareza.
980 — A afinidade entre Espíritos da mesma ordem é fonte de felicidade?
— Sim. A união baseada na afinidade para o bem é uma das maiores alegrias, pois não há medo de que o egoísmo a destrua. No mundo espiritual formam-se famílias pela identidade de sentimentos, e nisso reside a felicidade espiritual, assim como na Terra as pessoas se agrupam e sentem prazer em conviver.
Na afeição sincera e pura, livre de falsidade e hipocrisia, está uma fonte constante de felicidade. Na Terra, o ser humano já prova um reflexo disso quando encontra almas com quem pode se unir de forma verdadeira. Em um estado mais elevado, essa alegria será plena e ilimitada, pois ali o egoísmo não a sufoca. Na essência, tudo é amor; é o egoísmo que o destrói.
981 — O estado futuro do Espírito difere conforme ele tema ou aceite a morte?
— Pode diferir muito. Contudo, isso depende dos sentimentos que motivam esse temor ou esse desejo. Temê-la ou desejá-la pode nascer de razões muito diferentes, e são essas razões que influenciam o estado do Espírito.
982 — É necessário professar o Espiritismo para garantir uma boa sorte futura?
— Se fosse assim, todos os que não conhecem ou não aceitam o Espiritismo estariam condenados, o que seria absurdo. Só o bem garante o futuro, e o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que leve a ele (165–799).
A crença no Espiritismo ajuda o ser humano a se melhorar, esclarecendo ideias sobre o futuro. Acelera o progresso individual e coletivo, pois mostra com clareza o que seremos amanhã. É um apoio, uma luz orientadora. Ensina a suportar as provas com paciência e resignação, afastando atos que atrasariam a felicidade. Mas isso não significa que, sem ele, essa felicidade não possa ser alcançada.
Penas temporais
983 — O Espírito que expia suas faltas em uma nova existência não sofre também dores materiais? É correto dizer que, após a morte, a alma sofre apenas moralmente?
— Quando a alma está reencarnada, os sofrimentos da vida atingem o Espírito, mas quem sofre materialmente é o corpo.
Costumais dizer que quem morreu não sofre mais, mas isso nem sempre é verdade. Como Espírito, ele não sente dor física; porém, conforme as faltas cometidas, pode sofrer dores morais muito mais intensas e até enfrentar uma nova existência mais difícil. O rico egoísta pode renascer na miséria; o orgulhoso, em condições humilhantes; aquele que abusou da autoridade pode se ver obrigado a obedecer a alguém mais duro do que ele próprio foi. Todas as dores e dificuldades da vida são expiação de faltas passadas ou consequência das atuais. Quando deixardes este mundo, compreendereis isso claramente (273, 393 e 399).
Quem se julga feliz na Terra apenas por satisfazer seus desejos é, em geral, quem menos se esforça para se melhorar. Muitas vezes, começa a expiar esses prazeres ainda nesta vida, mas certamente continuará a fazê-lo em outra existência igualmente material.
984 — As dificuldades da vida são sempre punição por faltas cometidas nesta mesma existência?
— Não. Muitas vezes são provas impostas por Deus ou escolhidas pelo próprio Espírito antes de reencarnar, para expiar faltas de vidas anteriores. Nenhuma infração às leis divinas fica sem consequência, especialmente à lei de justiça. Se não houver reparação nesta vida, ela ocorrerá em outra. É por isso que alguém aparentemente justo pode sofrer: trata-se do ajuste de seu passado (393).
985 — Reencarnar em um mundo menos material é uma recompensa?
— É a consequência do progresso espiritual. À medida que o Espírito se depura, passa a habitar mundos cada vez mais elevados, até se libertar completamente da matéria e alcançar a felicidade dos Espíritos puros.
Nesses mundos mais evoluídos, as necessidades materiais são menores e os sofrimentos físicos quase inexistem. As paixões inferiores desaparecem, não há ódio nem ciúme, e a convivência é baseada na justiça, no amor e na caridade. Não existem os tormentos gerados pelo orgulho, pela inveja e pelo egoísmo, tão comuns na Terra (172–182).
986 — Um Espírito que já progrediu pode reencarnar novamente no mesmo mundo?
— Pode, se ainda não tiver concluído sua missão. Ele mesmo pode pedir uma nova oportunidade para completá-la. Nesse caso, essa reencarnação já não será uma expiação.
987 — O que acontece com quem não faz o mal, mas também não se esforça para se libertar do apego material?
— Como não avança rumo à perfeição, precisa recomeçar uma existência semelhante à anterior. Fica estacionado, prolongando suas próprias provas.
988 — Uma vida tranquila, sem grandes dificuldades, prova que a pessoa não tem nada a expiar?
— Enganas-te se pensas que isso seja comum. Muitas vezes essa tranquilidade é apenas aparente. Há Espíritos que escolhem uma vida assim, mas ao deixá-la percebem que não progrediram. Lamentam, então, o tempo perdido. O Espírito só evolui pela ação. A indolência não conduz a lugar algum.
Quem desperdiça voluntariamente a própria existência terá de responder por isso. A felicidade futura é proporcional ao bem realizado; a infelicidade, ao mal praticado e ao sofrimento causado aos outros.
989 — E aqueles que, sem serem propriamente maus, tornam infelizes todos à sua volta pelo seu caráter?
— Não são bons, de fato. Expiarão esse comportamento ao ver o sofrimento que causaram e, em outra existência, experimentarão aquilo que fizeram os outros sofrer.
Expiação e arrependimento
990 — O arrependimento ocorre no corpo ou no estado espiritual?
— Principalmente no estado espiritual, mas também pode ocorrer ainda em vida, quando a pessoa compreende claramente a diferença entre o bem e o mal.
991 — Qual a consequência do arrependimento no estado espiritual?
— O desejo de uma nova encarnação para se purificar. O Espírito reconhece as imperfeições que o afastam da felicidade e aspira a uma nova oportunidade de reparação (332–975).
992 — E o arrependimento durante a vida corporal, o que produz?
— Produz progresso imediato, se ainda houver tempo de reparar as faltas. Sempre que a consciência acusa uma imperfeição, o ser humano pode se melhorar.
993 — Existem Espíritos irremediavelmente voltados ao mal?
— Não. Todo Espírito deve progredir. Quem hoje só pratica o mal terá, em outra existência, inclinação ao bem. Alguns avançam mais rápido; outros demoram mais, porque assim escolhem. Quem hoje tem inclinação natural ao bem já passou por fases de erro em vidas anteriores (894).
994 — O Espírito que não reconheceu suas faltas em vida sempre as reconhece após a morte?
— Sim, e então sofre mais, porque percebe todo o mal que causou. Contudo, o arrependimento nem sempre é imediato. Alguns Espíritos persistem no erro por um tempo, mas mais cedo ou mais tarde reconhecem o caminho equivocado. Os Espíritos bons trabalham para esclarecê-los, e vós também podeis ajudar.
995 — Há Espíritos que não são maus, mas se mantêm indiferentes ao próprio destino?
— Há Espíritos inativos, que nada fazem de útil. Sofrem exatamente por essa estagnação, pois o progresso é lei. O sofrimento os impulsiona.
— Esses Espíritos não desejam acabar logo com esse sofrimento?
— Desejam, mas lhes falta energia para agir. Muitos preferem sofrer a fazer o esforço necessário para melhorar — como tantos encarnados que preferem a miséria ao trabalho.
996 — Se os Espíritos percebem as consequências do mal, por que alguns continuam a agir mal e a piorar sua situação?
— Porque se arrependem tarde ou recaem no erro, influenciados por Espíritos ainda mais atrasados (971).
997 — Por que alguns Espíritos inferiores são sensíveis às preces, enquanto outros parecem endurecidos e cínicos?
— A prece só alcança quem já se arrepende. Os que, por orgulho, se revoltam contra Deus e persistem no erro não são tocados pela oração, até que desperte neles um verdadeiro arrependimento (664).
O Espírito não se transforma instantaneamente após a morte. Se viveu mal, continua imperfeito por algum tempo. Mantém seus erros, crenças falsas e preconceitos até que se esclareça pelo aprendizado, pela reflexão e pelo sofrimento.
998 — A expiação acontece no corpo ou no estado espiritual?
— Em ambos. No corpo, pelas provas da vida; no estado espiritual, pelos sofrimentos morais ligados à inferioridade do Espírito.
999 — O arrependimento sincero basta para apagar as faltas?
— O arrependimento ajuda no progresso, mas não elimina a necessidade de reparação.
— Então, se alguém pensa que não vale a pena se arrepender, pois terá de expiar de qualquer forma, o que ganha com isso?
— Torna sua expiação mais longa e mais dolorosa, por persistir no mal.
1000 — Podemos reparar nossas faltas ainda nesta vida?
— Sim, reparando o mal que causamos. Mas não penseis que isso se faz com privações inúteis ou esmolas tardias. Deus não valoriza um arrependimento vazio. Uma pequena renúncia feita em benefício real de alguém vale mais do que grandes sacrifícios feitos apenas por vaidade pessoal (726).
O mal só se repara com o bem. Não há mérito se a reparação não atinge o orgulho ou os interesses pessoais.
De que adianta devolver bens depois da morte, quando já não servem para nada?
De que adianta abrir mão de pequenos confortos se o dano causado ao outro permanece?
E de que adianta humilhar-se diante de Deus se, diante das pessoas, o orgulho continua intacto? (720–721)
1001 — Não há mérito em destinar bens a fins úteis apenas após a morte?
— Há algum valor, mas pouco. Quem só doa depois de morrer geralmente quer o mérito sem o esforço. Quem doa em vida tem dois ganhos: o mérito do sacrifício e a alegria de ver o bem que fez.
O egoísmo costuma dizer: “Se doares, perderás teus prazeres”. E como ele fala alto, muitos guardam o que têm, justificando-se com falsas necessidades. Infeliz daquele que nunca sentiu a alegria de dar: ele se priva de um dos prazeres mais puros. A riqueza é uma prova perigosa, mas Deus oferece, como compensação, a felicidade da generosidade, já possível nesta vida (814).
1002 — E quem, ao morrer, reconhece suas faltas, mas já não pode repará-las?
— O arrependimento acelera sua recuperação, mas não o absolve. O futuro não se fecha para ele; apenas exige novas oportunidades de reparação.
Duração das penas futuras
1003 — A duração dos sofrimentos do culpado, na vida futura, é arbitrária ou regida por alguma lei?
— Deus nunca age por capricho. Tudo no universo é regido por leis nas quais se revelam sua sabedoria e sua bondade.
1004 — Em que se baseia a duração dos sofrimentos do culpado?
— No tempo necessário para que ele se melhore. O estado de sofrimento ou de felicidade é proporcional ao grau de purificação do Espírito. Assim, a duração e a natureza dos sofrimentos dependem do esforço que o Espírito faz para progredir. À medida que avança e se purifica, seus sofrimentos diminuem e se transformam.
SÃO LUÍS.
1005 — Para o Espírito sofredor, o tempo parece mais longo ou mais curto do que quando estava encarnado?
— Parece mais longo, porque para ele não existe o sono. Apenas os Espíritos que já alcançaram certo grau de purificação deixam de perceber o tempo diante do infinito (240).
1006 — Os sofrimentos do Espírito podem ser eternos?
— Não. Se o Espírito pudesse permanecer eternamente no mal, sofreria eternamente. Mas Deus não criou seres destinados ao mal perpétuo. Todos foram criados simples e ignorantes, com a obrigação de progredir. Uns demoram mais, outros menos, conforme a própria vontade. Mais cedo ou mais tarde, surge no Espírito a necessidade irresistível de sair da inferioridade e buscar a felicidade. A lei que regula a duração das penas é, portanto, profundamente sábia e justa, pois subordina o sofrimento aos esforços do próprio Espírito, sem jamais lhe retirar o livre-arbítrio. Se ele escolhe mal, sofre as consequências.
SÃO LUÍS.
1007 — Existem Espíritos que nunca se arrependem?
— Há Espíritos cujo arrependimento é muito tardio. Mas dizer que nunca se melhorarão seria negar a lei do progresso, como negar que uma criança possa tornar-se adulta.
SÃO LUÍS.
1008 — A duração das penas depende sempre da vontade do Espírito ou há penas impostas por tempo determinado?
— Ambas as coisas existem. Podem ser impostas penas por tempo determinado, mas Deus, que só quer o bem de suas criaturas, acolhe sempre o arrependimento. Nenhum desejo sincero de melhora é inútil.
SÃO LUÍS.
1009 — As penas impostas podem ser eternas?
— Consultai a vossa razão. Uma condenação sem fim, por erros cometidos em um tempo limitado, não seria a negação da bondade de Deus? O que representa uma vida de cem anos diante da eternidade? Sofrimentos sem fim, sem esperança, por faltas temporárias — essa ideia não repugna ao bom senso?
A ignorância dos povos antigos explica que tenham concebido Deus como severo e vingativo, atribuindo-lhe paixões humanas. Mas esse não é o Deus ensinado pelo Cristo, cujo fundamento é o amor, a misericórdia e o perdão. Poderia Deus exigir virtudes que Ele próprio não tivesse? Poderia ser infinitamente bom e infinitamente vingativo ao mesmo tempo?
A verdadeira justiça divina está em fazer com que a duração das penas dependa dos esforços do culpado. A cada um segundo as suas obras.
SANTO AGOSTINHO.
— Empenhai-vos em destruir a ideia da eternidade absoluta das penas — ideia que blasfema contra a justiça e a bondade de Deus e que tem sido uma das maiores fontes do materialismo, da incredulidade e da indiferença moral. A razão humana, ao se esclarecer, percebe essa injustiça e, rejeitando-a, muitas vezes rejeita também Deus.
Pobres almas desgarradas, olhai o bom Pastor que vem ao vosso encontro, não para vos excluir para sempre, mas para vos reconduzir ao caminho. Filhos pródigos, abandonai o exílio voluntário: o Pai vos espera de braços abertos.
LAMENNAIS.
— Guerras de palavras! Ainda não bastou o sangue derramado? Discutis sobre a eternidade das penas sem perceber que os antigos não entendiam eternidade como vós entendeis hoje. A eternidade dos castigos significa a permanência do mal enquanto o mal existir. Quando o arrependimento for geral, cessarão as penas.
Somente Deus é eterno. Admitir um mal eterno seria negar o seu poder soberano. Humanidade, não busques nos abismos da Terra o castigo: espera, expia e confia num Deus essencialmente bom, justo e poderoso.
PLATÃO.
— O fim da humanidade é gravitar para a unidade divina. Para isso, são necessários justiça, amor e conhecimento. O castigo não é vingança: é consequência natural do desvio. Serve para despertar a alma, levá-la ao arrependimento e à reparação.
Querer penas eternas para faltas temporárias é negar a razão de ser do castigo. Não coloques o Mal, obra da criatura, no mesmo nível do Bem, essência do Criador.
PAULO, APÓSTOLO.
O Espiritismo mostra que recompensas e penas só têm efeito quando são compreendidas pela razão. Castigos ilógicos não corrigem; afastam. Ao apresentar o futuro de forma racional, o Espiritismo devolve sentido à justiça divina.
A palavra “eterno” é frequentemente usada de modo figurado, para indicar longa duração, não infinitude absoluta. Espíritos que sofrem por séculos podem acreditar que sofrerão para sempre, pois não veem o fim de suas provas. Essa ilusão faz parte da própria expiação.
Hoje, a teologia já reconhece que o “fogo” das penas é moral, não material. As dores espirituais, embora imateriais, são profundamente intensas. A duração das penas não é fixa: diminui à medida que o Espírito progride.
Ressurreição da carne
1010 — O dogma da ressurreição da carne ensina, implicitamente, a reencarnação?
— Sim. Essa doutrina decorre naturalmente de muitas passagens que, por muito tempo, não foram compreendidas. O Espiritismo não destrói a religião: ele a esclarece, retirando o véu da linguagem simbólica.
SÃO LUÍS.
A ciência demonstra a impossibilidade literal da ressurreição da carne. A matéria do corpo se transforma e se dispersa, integrando outros corpos. A reencarnação, porém, explica racionalmente o progresso da alma, sem contrariar a ciência nem a fé.
Paraíso, inferno e purgatório. Paraíso perdido. Pecado original
1011 — Existem lugares específicos no universo para penas e recompensas?
— Não. Penas e gozos são estados do Espírito, conforme seu grau de evolução. Não existem lugares fechados destinados ao castigo ou à felicidade.
— Então, inferno e paraíso não existem como o homem imagina?
— São alegorias. Espíritos felizes e infelizes existem em toda parte. Os semelhantes se reúnem por afinidade.
1012 — O que é o purgatório?
— É o estado de expiação. Muitas vezes, ele ocorre na própria Terra.
O purgatório não é um lugar, mas um estado temporário do Espírito imperfeito, que se purifica por meio de sucessivas existências.
1013 — Por que Espíritos elevados falam de inferno e purgatório conforme ideias populares?
— Porque adaptam a linguagem à compreensão de quem pergunta. Espíritos inferiores também usam termos terrenos para expressar sofrimentos espirituais.
1014 — O que significa uma “alma a penar”?
— Um Espírito sofredor, em estado de erraticidade, incerto do futuro, que muitas vezes busca auxílio (664).
1015 — O que se deve entender por céu?
— Não é um lugar fixo. É o universo, os mundos superiores, onde os Espíritos vivem sem as angústias da vida material.
1016 — O que significam expressões como “quarto” ou “quinto céu”?
— Graus de evolução espiritual, não locais físicos.
1017 — O que quis dizer o Cristo com “meu reino não é deste mundo”?
— Que seu reino é moral, fundado no amor e na pureza de coração, não no poder material.
1018 — O bem reinará algum dia na Terra?
— Sim, quando os Espíritos bons forem maioria. Isso ocorrerá com o progresso moral da humanidade. Espíritos atrasados migrarão para mundos compatíveis com seu grau de evolução.
Nessa transformação está a verdadeira alegoria do paraíso perdido e do pecado original, entendido como a imperfeição inicial do Espírito.
Trabalhai, pois, com coragem na regeneração do mundo. Ai dos egoístas, que não encontrarão quem os ajude a carregar o peso das próprias dores.
SÃO LUÍS.