Faculdade que têm os Espíritos de penetrar nossos pensamentos
456 — Os Espíritos veem tudo o que fazemos?
— Podem ver, pois estão constantemente ao redor de vocês. Cada Espírito, porém, só observa aquilo a que presta atenção. Não se ocupam do que lhes é indiferente.
457 — Os Espíritos podem conhecer nossos pensamentos mais secretos?
— Muitas vezes conhecem até aquilo que vocês gostariam de esconder de si mesmos. Nem atos nem pensamentos lhes podem ser ocultados.
— Então seria mais fácil esconder algo de uma pessoa viva do que dessa mesma pessoa depois de morta?
— Certamente. Quando vocês acreditam estar bem escondidos, é comum haver ao seu lado uma multidão de Espíritos observando.
458 — O que pensam de nós os Espíritos que nos cercam e nos observam?
— Depende. Os Espíritos levianos riem das pequenas armadilhas que pregam e zombam da impaciência de vocês. Os Espíritos sérios se compadecem das dificuldades que enfrentam e procuram ajudar.
Influência oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e atos
459 — Os Espíritos influenciam nossos pensamentos e nossas ações?
— Muito mais do que vocês imaginam, pois frequentemente são eles que os conduzem.
460 — Além dos pensamentos que nos são próprios, existem outros que nos são sugeridos?
— A alma de vocês é um Espírito que pensa. Vocês sabem que, muitas vezes, vários pensamentos surgem ao mesmo tempo sobre o mesmo assunto, e não raro entram em conflito. Pois bem: nesse conjunto, misturam-se os pensamentos de vocês com os nossos. Daí nasce a indecisão. É porque existem, em vocês, ideias que se enfrentam.
461 — Como distinguir os pensamentos próprios daqueles que nos são sugeridos?
— Quando um pensamento é sugerido, vocês costumam ter a impressão de que alguém lhes fala. Em geral, os pensamentos próprios surgem primeiro. No entanto, não é tão importante saber distinguir uns dos outros. Muitas vezes é melhor que isso não seja possível. Assim, a pessoa age com mais liberdade. Quando escolhe o bem, o faz por vontade própria; quando escolhe o mal, sua responsabilidade é maior.
462 — As pessoas inteligentes e de gênio tiram sempre suas ideias apenas de si mesmas?
— Às vezes as ideias vêm do próprio Espírito delas; muitas outras vezes, são sugeridas por Espíritos que as consideram capazes de compreendê-las e dignas de transmiti-las. Quando não encontram essas ideias em si mesmas, recorrem à inspiração. Sem perceber, fazem assim uma verdadeira evocação.
Se fosse útil distinguir claramente nossos próprios pensamentos daqueles que nos são sugeridos, Deus teria nos dado meios claros para isso, como nos deu para distinguir o dia da noite. Quando algo permanece indefinido, é porque assim convém.
463 — Diz-se que o primeiro impulso é sempre bom. Isso é verdade?
— Pode ser bom ou mau, conforme a natureza do Espírito encarnado. É sempre bom para quem sabe ouvir as boas inspirações.
464 — Como distinguir se um pensamento sugerido vem de um Espírito bom ou de um Espírito mau?
— Analisem o conteúdo. Os Espíritos bons aconselham sempre para o bem. Cabe a vocês discernir.
465 — Com que objetivo os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal?
— Para que sofram como eles sofrem.
— Isso diminui o sofrimento deles?
— Não. Fazem isso por inveja, por não suportarem ver outros felizes.
— Que tipo de sofrimento procuram causar?
— O sofrimento de permanecer em condição inferior e afastado de Deus.
466 — Por que Deus permite que Espíritos nos estimulem ao mal?
— Os Espíritos imperfeitos servem para colocar à prova a fé e a perseverança das pessoas no bem. Como Espírito que és, precisas avançar no conhecimento do infinito, e isso exige enfrentar provas. Passa-se pelo mal para alcançar o bem. Nossa missão é orientar vocês para o caminho correto. Quando sofrem más influências, é porque as atraem por seus próprios desejos, pois os Espíritos inferiores se aproximam quando há inclinação para o mal. Só quando alguém deseja o mal é que eles podem ajudá-lo a praticá-lo. Se uma pessoa tende à violência, terá ao redor Espíritos que alimentam essa inclinação. Mas outros Espíritos também estarão presentes, tentando influenciá-la para o bem, restabelecendo o equilíbrio e preservando sua liberdade de escolha.
Assim, Deus confia à consciência de cada um a escolha do caminho a seguir e a liberdade de ceder a uma ou outra influência.
467 — O ser humano pode livrar-se da influência dos Espíritos que tentam levá-lo ao mal?
— Pode, pois esses Espíritos só se ligam àqueles que os atraem por seus desejos ou pensamentos.
468 — Os Espíritos cuja influência é rejeitada desistem de suas tentativas?
— O que você espera que façam? Quando nada conseguem, afastam-se. Mas ficam atentos, à espera de uma oportunidade, como o gato à espreita do rato.
469 — Como neutralizar a influência dos maus Espíritos?
— Praticando o bem e confiando plenamente em Deus. Assim, vocês repelem os Espíritos inferiores e anulam o poder que eles desejam exercer. Evitem dar atenção às sugestões que despertam maus pensamentos, que criam discórdia ou alimentam paixões negativas. Desconfiem, sobretudo, daqueles que estimulam o orgulho, pois esse é o ponto mais vulnerável. Por isso Jesus ensinou na oração: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.”
470 — Os Espíritos que nos induzem ao mal cumprem alguma missão ao testar nossa firmeza no bem? Eles são responsáveis por isso?
— Nenhum Espírito recebe a missão de praticar o mal. Quem o faz age por conta própria e responde pelas consequências. Deus pode permitir essa ação como prova, mas jamais a ordena. Cabe a vocês resistir.
471 — Quando sentimos angústia, ansiedade sem causa aparente ou uma alegria íntima inexplicável, isso é apenas efeito físico?
— Quase sempre é resultado das comunicações inconscientes que vocês mantêm com Espíritos, ou das que ocorreram durante o sono.
472 — Os Espíritos que tentam nos levar ao mal apenas aproveitam as circunstâncias ou também as criam?
— Aproveitam as circunstâncias, mas também podem criá-las, conduzindo vocês, sem que percebam, para aquilo que desejam. Por exemplo, um homem encontra dinheiro em seu caminho. Não pensem que os Espíritos colocaram o dinheiro ali, mas podem tê-lo inspirado a seguir aquele caminho e depois sugerido que se apropriasse da quantia, enquanto outros lhe sugerem devolvê-la. O mesmo ocorre em todas as tentações.
Possessos
473 — Um Espírito pode tomar temporariamente o corpo de uma pessoa viva e agir em seu lugar?
— Um Espírito não entra em um corpo como alguém entra em uma casa. Ele se associa a um Espírito encarnado cujas imperfeições e qualidades sejam semelhantes às suas, para agir junto com ele. Mas quem atua sobre a matéria é sempre o encarnado, conforme sua vontade. Nenhum Espírito pode substituir aquele que está encarnado, pois este permanece ligado ao corpo até o fim de sua existência material.
474 — Se não há possessão no sentido de dois Espíritos ocuparem o mesmo corpo, pode a alma ficar dominada por outro Espírito a ponto de ter a vontade paralisada?
— Sim, e esses são os verdadeiros possessos. Mas essa dominação nunca ocorre sem o consentimento daquele que a sofre, seja por fraqueza, seja por desejo. Muitas pessoas doentes, como epilépticos ou indivíduos com transtornos mentais, foram confundidas com possessos, quando precisavam de cuidados médicos, não de exorcismos.
O termo possesso, no sentido comum, pressupõe a existência de demônios como seres maus por natureza e a coabitação deles com a alma de alguém. Como não existem demônios nesse sentido e dois Espíritos não podem ocupar o mesmo corpo, não há possessão como normalmente se imagina. O termo só deve ser usado para indicar a dependência extrema de uma alma em relação a Espíritos imperfeitos que a dominam.
475 — Alguém pode afastar por si mesmo os maus Espíritos e libertar-se dessa dominação?
— Sempre que houver vontade firme, é possível livrar-se desse jugo.
476 — Pode acontecer que a fascinação seja tão forte que a pessoa não perceba que está dominada? Nesse caso, outra pessoa pode ajudá-la?
— Se essa outra pessoa for moralmente elevada, sua vontade pode ser eficaz ao pedir auxílio aos Espíritos bons. Quanto mais moralmente elevada for, maior poder terá sobre os Espíritos imperfeitos. No entanto, nada conseguirá se o dominado não cooperar. Há quem goste dessa dependência, pois ela alimenta seus desejos. Além disso, quem não tiver o coração puro não exercerá influência alguma, pois os Espíritos bons não o atendem e os maus não o temem.
477 — As fórmulas de exorcismo têm eficácia contra os maus Espíritos?
— Não. Eles zombam quando veem alguém levar isso a sério.
478 — Algumas pessoas bem-intencionadas continuam obsidiadas. Qual o melhor meio de se libertarem?
— Ignorar completamente esses Espíritos, não dar valor às sugestões deles e mostrar que estão perdendo tempo. Quando percebem que não conseguem nada, afastam-se.
479 — A prece é eficaz contra a obsessão?
— A prece é sempre um grande auxílio. Mas não basta repetir palavras. Deus ajuda quem age, não quem apenas pede. É indispensável que o obsidiado trabalhe para eliminar em si mesmo a causa que atrai os maus Espíritos.
(Ver O Livro dos Médiuns, capítulo “Da obsessão”.)
480 — O que pensar da expulsão dos demônios mencionada no Evangelho?
— Tudo depende da interpretação. Se chamarem de demônio o Espírito imperfeito que domina alguém, ao destruir essa influência, ele terá sido de fato expulso. Se atribuirem a um demônio a causa de uma doença, ao curá-la, podem dizer que expulsaram o demônio. Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa conforme o sentido dado às palavras. Muitas verdades parecem absurdas quando se observa apenas a forma ou quando se toma a alegoria como realidade. Guardem bem isso, pois se aplica a muitos casos.
Convulsionários
481 — Os Espíritos participam dos fenômenos observados nos chamados convulsionários?
— Sim, de forma importante, assim como o magnetismo, que é a fonte principal desses fenômenos. O charlatanismo, porém, muitas vezes os explorou e exagerou, levando-os ao ridículo.
— Que tipo de Espíritos costuma participar desses fenômenos?
— Espíritos pouco elevados. Vocês acham que Espíritos superiores se divertiriam com isso?
482 — Como se explica que o estado anormal dos convulsionários se espalhe subitamente por uma população inteira?
— É efeito de simpatia. As disposições morais se comunicam facilmente em certos casos. Vocês conhecem os efeitos do magnetismo e podem compreender isso, assim como a participação natural de Espíritos que simpatizam com os que provocam esses fenômenos.
483 — Qual a causa da insensibilidade física observada em convulsionários e em pessoas submetidas a grandes dores?
— Em alguns casos, é efeito exclusivo do magnetismo sobre o sistema nervoso. Em outros, a exaltação do pensamento diminui a sensibilidade. É como se a vida se afastasse do corpo para concentrar-se no Espírito. Quando o Espírito está intensamente focado em algo, o corpo não sente, não vê e não ouve.
A exaltação fanática e o entusiasmo explicam muitos casos em que pessoas suportam dores extremas com calma impressionante. Em batalhas, por exemplo, há combatentes que não percebem ferimentos graves, enquanto em situações comuns um pequeno ferimento os faria sofrer intensamente.
Esses fenômenos dependem de causas físicas e da ação de certos Espíritos. A autoridade pública, ao intervir, não elimina a causa espiritual, mas suprime a condição que favorecia o abuso e o escândalo, tornando latente o que antes era ativo. Nesses casos, a intervenção é legítima, pois a ação dos Espíritos era apenas secundária.
Afeição dos Espíritos por certas pessoas
484 — Os Espíritos se afeiçoam mais a algumas pessoas do que a outras?
— Os Espíritos bons simpatizam com pessoas de bem ou com aquelas dispostas a melhorar. Os Espíritos inferiores se ligam aos viciosos ou aos que podem tornar-se assim. Daí surgem suas preferências, conforme a afinidade de sentimentos.
485 — A afeição dos Espíritos é exclusivamente moral?
— A afeição verdadeira não é carnal. Contudo, quando um Espírito se apega a alguém, nem sempre o faz apenas por afinidade moral; podem existir reminiscências de paixões humanas.
486 — Os Espíritos se interessam por nossas alegrias e sofrimentos?
— Os Espíritos bons fazem todo o bem que podem e se alegram com suas felicidades. Sofrem com suas dores quando vocês não as enfrentam com resignação, pois então nada aprendem com elas.
487 — Quais sofrimentos mais afligem os Espíritos por nossa causa: os físicos ou os morais?
— O egoísmo e a dureza do coração. Desses nascem todos os outros males. Eles se compadecem pouco dos sofrimentos imaginários causados pelo orgulho e pela ambição, mas se entristecem profundamente com os males morais que afastam vocês do progresso.
488 — Os parentes e amigos que já partiram nos dedicam mais afeição do que Espíritos desconhecidos?
— Sim, e muitas vezes os protegem conforme as possibilidades que têm.
— Eles sentem a afeição que ainda temos por eles?
— Sentem profundamente, mas esquecem aqueles que os esquecem.
Anjos guardiães. Espíritos protetores, familiares ou simpáticos
489 — Há Espíritos que se ligam particularmente a uma pessoa para protegê-la?
— Existe o irmão espiritual, aquele que vocês chamam de bom Espírito ou bom gênio.
490 — O que se deve entender por anjo guardião?
— O Espírito protetor pertencente a uma ordem mais elevada.
491 — Qual é a missão do Espírito protetor?
— A mesma de um pai em relação aos filhos: guiar a pessoa pelo caminho do bem, ajudá-la com conselhos, consolá-la nas aflições e encorajá-la nas provas da vida.
492 — O Espírito protetor se liga à pessoa desde o nascimento?
— Desde o nascimento até a morte, e muitas vezes a acompanha também na vida espiritual após a morte, e até mesmo ao longo de várias existências corporais, que não passam de fases muito breves da vida do Espírito.
493 — A missão do Espírito protetor é voluntária ou obrigatória?
— O Espírito assume o compromisso de assistir aquele a quem foi confiado, uma vez que aceita essa tarefa. No entanto, pode escolher pessoas com as quais tenha afinidade. Para alguns, isso é um prazer; para outros, uma missão ou um dever.
— Ao se ligar a uma pessoa, o Espírito deixa de proteger outras?
— Não, mas passa a protegê-las de forma menos direta.
494 — O Espírito protetor fica inevitavelmente preso à pessoa sob sua guarda?
— Frequentemente acontece que alguns Espíritos deixam temporariamente a função de protetores para cumprir outras missões. Nesses casos, outros Espíritos os substituem.
495 — Pode acontecer de o Espírito protetor afastar-se da pessoa, por ela se mostrar rebelde aos seus conselhos?
— Ele se afasta quando percebe que seus conselhos são ignorados e que a pessoa prefere seguir a influência de Espíritos inferiores. No entanto, não a abandona por completo e continua tentando se fazer ouvir. É a própria pessoa que fecha os ouvidos. O protetor retorna assim que ela o chama.
A doutrina dos anjos guardiães, por sua ternura e consolação, deveria tocar até os mais incrédulos. Não é profundamente reconfortante saber que existem sempre ao nosso lado seres superiores, prontos a aconselhar, amparar e ajudar na difícil subida do caminho do bem? Amigos mais sinceros e dedicados do que muitos dos que nos cercam na Terra. Eles estão ao nosso lado por vontade de Deus. Foi Deus quem os colocou ali, e por amor a Ele permanecem conosco, cumprindo uma missão bela, embora exigente. Onde quer que estejamos, eles estão conosco: nem nas prisões, nem nos hospitais, nem nos lugares de degradação moral, nem na solidão estamos separados desses amigos invisíveis, cujo influxo suave a alma percebe e cujos conselhos prudentes ela escuta.
Ah, se compreendessem bem essa verdade! Quanto ela ajudaria nos momentos difíceis! Quantas vezes afastaria a influência dos maus Espíritos! Mas quantas vezes, no dia decisivo, esse anjo não terá de lamentar: “Não te aconselhei? E, ainda assim, não me ouviste. Não te mostrei o abismo? E mesmo assim te lançaste nele. Não fiz ecoar em tua consciência a voz da verdade? Preferiste seguir a mentira.” Interroguem seus anjos guardiães. Criem com eles a intimidade que existe entre verdadeiros amigos. Não pensem em esconder nada, pois eles veem com o olhar de Deus, e não podem ser enganados. Pensem no futuro. Procurem avançar desde já. Assim, encurtarão as provas e tornarão suas existências mais felizes. Coragem, homens! Abandonem de vez os preconceitos e pensamentos ocultos. Entrem no novo caminho que se abre diante de vocês. Caminhem. Vocês têm guias: sigam-nos, e não deixarão de alcançar a meta, que é o próprio Deus.
Aos que consideram impossível que Espíritos elevados se dediquem a uma tarefa tão constante e exigente, respondemos que influenciamos suas almas mesmo estando a milhões de léguas de distância. Para nós, o espaço não é obstáculo. Ainda que vivamos em outro mundo, mantemos laços com vocês. Possuímos qualidades que vocês ainda não compreendem, mas tenham certeza de que Deus não nos impôs tarefas acima de nossas forças e não deixou vocês sozinhos na Terra, sem amigos ou amparo. Cada anjo guardião tem alguém sob sua proteção, como um pai cuida de um filho. Alegra-se ao vê-lo no caminho certo e sofre quando seus conselhos são desprezados.
Não tenham receio de nos cansar com suas perguntas. Ao contrário, procurem manter contato conosco. Assim, serão mais fortes e mais felizes. Essas comunicações entre cada pessoa e seu Espírito familiar fazem com que, de certo modo, todos sejam médiuns — ainda que hoje inconscientes disso. No futuro, essa faculdade se manifestará amplamente, espalhando-se como um oceano sem limites, varrendo a incredulidade e a ignorância. Homens instruídos, ensinem seus semelhantes; homens de talento, eduquem seus irmãos. Vocês não imaginam a obra que realizam assim: a obra do Cristo, aquela que Deus lhes confiou. Para que Deus lhes deu inteligência e conhecimento, senão para compartilhá-los, ajudando seus irmãos a avançar no caminho que leva à felicidade verdadeira?
São Luís, Santo Agostinho.
Nada há de surpreendente na doutrina dos anjos guardiães, que velam por aqueles que protegem, apesar da distância entre os mundos. Pelo contrário, ela é grandiosa e sublime. Não vemos, na Terra, um pai cuidar do filho mesmo à distância, ajudando-o com conselhos? Por que então seria estranho que os Espíritos, de outro mundo, possam guiar aqueles que tomaram sob sua proteção, se para eles a distância entre os mundos é menor do que a que separa continentes na Terra? Além disso, eles dispõem do fluido universal, que liga todos os mundos, tornando-os solidários — um imenso veículo de transmissão do pensamento, assim como o ar é, para nós, o meio da transmissão do som.
496 — O Espírito que se afasta de seu protegido, deixando de ajudá-lo, pode prejudicá-lo?
— Os bons Espíritos jamais fazem o mal. Eles apenas permitem que Espíritos inferiores ocupem esse espaço. Então, vocês costumam atribuir à sorte os males que sofrem, quando na verdade são consequência das próprias escolhas.
497 — Um Espírito protetor pode deixar seu protegido exposto à ação de outro Espírito que queira prejudicá-lo?
— Os Espíritos inferiores se unem para neutralizar a ação dos bons. Mas, se quiser, o protegido pode dar toda a força ao seu protetor. Pode acontecer que o bom Espírito encontre, em outro lugar, alguém disposto a receber auxílio, e se dedique a isso enquanto aguarda o momento de retornar.
498 — O Espírito protetor permite que seu protegido se desvie por não conseguir lutar contra Espíritos maus?
— Não é por incapacidade, mas por escolha. Ele não impede porque das provas surgem o aprendizado e o aperfeiçoamento do protegido. Ele continua a orientar por meio de bons pensamentos, que infelizmente nem sempre são ouvidos. A fraqueza, o descuido e o orgulho da pessoa é que dão força aos maus Espíritos, cujo poder só existe quando não encontram resistência.
499 — O Espírito protetor está sempre junto de seu protegido ou pode, em certas circunstâncias, afastar-se sem abandoná-lo?
— Há situações em que não é necessário que o Espírito protetor esteja constantemente ao lado da pessoa.
500 — Chega um momento em que o Espírito não precisa mais de anjo guardião?
— Sim, quando alcança o ponto de poder guiar-se sozinho, como o estudante que chega ao momento em que não precisa mais do professor. Isso, porém, não acontece enquanto se está na Terra.
501 — Por que a ação dos Espíritos sobre nossa vida é oculta? E por que, quando nos protegem, não o fazem de modo evidente?
— Porque, se vocês dependessem sempre dessa ação, deixariam de agir por si mesmos, e o Espírito não progrediria. Para avançar, ele precisa da experiência, muitas vezes adquirida com esforço próprio. É necessário exercitar suas forças; caso contrário, seria como uma criança que nunca aprende a andar sozinha. A ação dos Espíritos bons é sempre equilibrada para não tirar o livre-arbítrio. Sem responsabilidade, não há progresso. Mesmo sem vê-los, vocês contam com a vigilância do guia, que, de tempos em tempos, alerta sobre os perigos.
502 — O Espírito protetor que consegue conduzir seu protegido ao bem recebe algum benefício?
— Isso lhe conta como mérito, seja para seu progresso, seja para sua felicidade. Ele se sente feliz ao ver o sucesso de seus esforços, como um educador se alegra com o êxito do aluno.
— Ele é responsável quando o resultado é negativo?
— Não, pois fez tudo o que estava ao seu alcance.
503 — O Espírito protetor sofre ao ver seu protegido seguir mau caminho, apesar de seus conselhos?
— Ele se entristece com os erros do protegido, mas essa dor não se compara às angústias humanas. Ele sabe que há remédio para o mal e que o que não é feito hoje poderá ser feito amanhã.
504 — Podemos saber o nome do nosso Espírito protetor?
— Como esperar nomes que não existem para vocês? Acham que só existem Espíritos conhecidos por vocês?
— Como invocá-lo, então, se não sabemos seu nome?
— Dêem-lhe o nome que quiserem, de um Espírito elevado que lhes inspire respeito ou carinho. O protetor atenderá, pois todos os Espíritos bons são irmãos e se auxiliam.
505 — Os Espíritos protetores que se apresentam com nomes conhecidos são realmente aqueles que tiveram esses nomes?
— Nem sempre. Muitas vezes são Espíritos simpáticos a essas figuras, que respondem em nome delas, com autorização. Assim como vocês delegam alguém para agir em seu nome, os Espíritos fazem o mesmo.
506 — Na vida espiritual, reconheceremos nosso Espírito protetor?
— Sim, pois não é raro que já o conhecessem antes de encarnar.
507 — Todos os Espíritos protetores pertencem à classe dos Espíritos superiores? Um pai pode tornar-se protetor do próprio filho?
— Pode, mas a proteção exige certo grau de elevação e autoridade moral. Um pai pode proteger o filho, mas também pode ser auxiliado por um Espírito mais elevado.
508 — Espíritos que deixam a Terra em boas condições sempre podem proteger os que lhes são queridos?
— O poder de que dispõem varia conforme a situação em que se encontram, e nem sempre têm plena liberdade de ação.
509 — Pessoas em estado de selvageria ou inferioridade moral também têm Espíritos protetores?
— Todo ser humano tem um Espírito que vela por ele, mas as missões são proporcionais ao grau de evolução. Não se dá um professor de filosofia a uma criança que está aprendendo a ler. O progresso do Espírito protetor acompanha o do protegido. Assim, ao ser protegido hoje, você poderá amanhã tornar-se protetor de alguém menos adiantado. O progresso daquele que você auxilia contribui também para o seu próprio avanço.
510 — Quando um pai protetor reencarna, ele continua a proteger o filho?
— Isso se torna mais difícil. Ainda assim, ele pode, em momentos de desprendimento, pedir a um Espírito simpático que o substitua. Além disso, os Espíritos só aceitam missões que podem cumprir até o fim.
Encarnado, sobretudo em mundos materiais, o Espírito fica muito preso ao corpo para dedicar-se inteiramente a outro. Por isso, mesmo os que ainda não se elevaram muito são assistidos por Espíritos superiores, de modo que, se um falhar, outro o substitui.
511 — Além do Espírito protetor, cada pessoa tem também um mau Espírito ligado a ela para levá-la ao erro?
— Ligado não é a palavra certa. Os Espíritos maus se aproximam quando encontram oportunidade. Há sempre uma luta entre o bem e o mal, e vence aquele a quem a pessoa decide ouvir.
512 — Podemos ter vários Espíritos protetores?
— Toda pessoa tem Espíritos mais ou menos elevados que simpatizam com ela e se interessam por seu progresso, assim como outros que a influenciam negativamente.
513 — Os Espíritos simpáticos atuam por missão?
— Às vezes, cumprem missões temporárias. Mais frequentemente, agem por afinidade de pensamentos e sentimentos, seja para o bem, seja para o mal.
— Isso significa que Espíritos simpáticos podem ser bons ou maus?
— Sim. O ser humano sempre atrai Espíritos semelhantes a si.
514 — Os Espíritos familiares são os mesmos que os simpáticos ou os protetores?
— Há gradações. O Espírito familiar é, antes de tudo, um amigo próximo.
Dos esclarecimentos acima, pode-se concluir:
O Espírito protetor, anjo guardião ou bom gênio tem como missão acompanhar a pessoa e ajudá-la a progredir. É sempre superior ao protegido.
Os Espíritos familiares ligam-se a certas pessoas para ajudá-las dentro de limites restritos. Em geral são bons, mas ainda pouco adiantados, e às vezes levianos. Atuam apenas com permissão dos Espíritos protetores.
Os Espíritos simpáticos se aproximam por afinidade de gostos e sentimentos, tanto para o bem quanto para o mal, e sua permanência depende das circunstâncias.
O mau gênio é um Espírito imperfeito que tenta desviar a pessoa do bem. Age por iniciativa própria e só tem poder quando encontra abertura. A pessoa é sempre livre para ouvi-lo ou resistir.
515 — O que pensar de pessoas que parecem exercer influência irresistível sobre outras, levando-as ao bem ou ao mal?
— Em certos casos, trata-se de uma fascinação real. Quando ocorre para o mal, são Espíritos inferiores que, com ajuda de outros semelhantes, subjugam a vontade. Deus permite isso como prova.
516 — Os Espíritos bons e maus podem encarnar para acompanhar mais de perto alguém?
— Isso às vezes acontece. Mais frequentemente, encarregam dessa missão outros Espíritos encarnados que lhes são afins.
517 — Existem Espíritos ligados à proteção de uma família inteira?
— Alguns Espíritos se ligam aos membros de uma família unida por afeto, mas não pensem em Espíritos protetores do orgulho das raças.
518 — Assim como Espíritos se ligam a indivíduos por afinidade, podem também se ligar a grupos?
— Sim. Os Espíritos preferem estar entre aqueles que lhes são semelhantes. Sociedades, cidades e povos atraem Espíritos conforme os pensamentos e sentimentos predominantes. O aperfeiçoamento moral coletivo afasta Espíritos inferiores e atrai os bons.
519 — Coletividades como cidades e nações têm Espíritos protetores?
— Sim, porque são individualidades coletivas que seguem um objetivo comum e precisam de direção superior.
520 — Os Espíritos protetores das coletividades são mais elevados que os dos indivíduos?
— Depende do grau de progresso tanto da coletividade quanto do indivíduo.
521 — Espíritos podem auxiliar o progresso das artes e das ciências?
— Sim. Existem Espíritos protetores dessas áreas, que assistem os que são dignos dessa ajuda.
As antigas tradições chamaram esses Espíritos de divindades. As Musas eram a personificação dos Espíritos protetores das artes e das ciências, assim como os Lares e Penates simbolizavam os protetores da família. Hoje, cidades, países e atividades também têm seus patronos, que são Espíritos superiores sob diferentes nomes.
Assim como ocorre com os indivíduos, as coletividades atraem Espíritos conforme os pensamentos predominantes. Nos povos, as leis têm papel fundamental, pois refletem o caráter da nação. Onde reina a justiça, os maus Espíritos perdem influência. Onde há leis injustas, os Espíritos inferiores se multiplicam e enfraquecem as boas influências, que se tornam isoladas. Observando os costumes e as leis de um povo, pode-se compreender a população invisível que atua sobre seus pensamentos e ações.
Pressentimentos
522 — O pressentimento é sempre um aviso do Espírito protetor?
— É um conselho íntimo e discreto de um Espírito que deseja o seu bem. Também está ligado à intuição das escolhas feitas antes da encarnação. É a voz do instinto. Antes de encarnar, o Espírito conhece as principais fases da sua existência, isto é, o tipo de provas que irá enfrentar. Como essas provas têm características marcantes, ele conserva, em seu íntimo, uma espécie de lembrança delas. Essa lembrança, que se manifesta como instinto, torna-se pressentimento quando se aproxima o momento de vivê-las.
523 — Como os pressentimentos e a voz do instinto costumam ser vagos, o que devemos fazer quando ficamos em dúvida?
— Quando estiveres na incerteza, invoca o teu Espírito protetor ou ora a Deus, soberano de tudo, para que te envie um de seus mensageiros, um de nós.
524 — Os conselhos dos Espíritos protetores dizem respeito apenas à nossa conduta moral ou também às decisões da vida pessoal?
— A tudo. Eles procuram ajudar para que vivam da melhor forma possível. Muitas vezes, porém, vocês ignoram esses conselhos e acabam sofrendo por causa das próprias escolhas.
Os Espíritos protetores nos orientam por meio da voz da consciência, que ressoa dentro de nós. Como nem sempre damos atenção a isso, eles também utilizam meios indiretos, como as pessoas ao nosso redor. Cada um pode analisar sua própria vida e perceber quantas vezes recebeu conselhos que, se tivessem sido seguidos, teriam evitado muitos sofrimentos.
Influência dos Espíritos nos acontecimentos da vida
525 — Os Espíritos exercem alguma influência nos acontecimentos da vida?
— Certamente, pois eles aconselham.
— Essa influência ocorre apenas por meio dos pensamentos que sugerem, ou eles também atuam diretamente nos acontecimentos?
— Sim, atuam, mas sempre dentro das leis da natureza.
Costumamos imaginar que os Espíritos só atuam por meio de fenômenos extraordinários. Gostaríamos que nos ajudassem através de milagres e os imaginamos como se tivessem poderes mágicos. Como não é assim, a ação deles nos parece invisível e o que acontece nos soa apenas como algo natural. Eles podem, por exemplo, favorecer o encontro de duas pessoas que acreditam ter se encontrado por acaso; inspirar alguém a passar por determinado lugar; ou chamar sua atenção para algo específico. Mesmo assim, a pessoa continua acreditando que agiu por vontade própria, preservando sempre o livre-arbítrio.
526 — Tendo ação sobre a matéria, podem os Espíritos provocar acontecimentos para que algo se cumpra? Por exemplo: um homem deve morrer; sobe uma escada, a escada quebra e ele morre da queda. Foram os Espíritos que quebraram a escada?
— Os Espíritos têm ação sobre a matéria, mas sempre para cumprir as leis da natureza, nunca para contrariá-las. No exemplo, a escada se quebrou porque estava podre ou não suportava o peso. Se era destino daquele homem morrer dessa forma, os Espíritos apenas lhe inspirariam a ideia de subir aquela escada, que naturalmente se quebraria, sem que fosse necessário nenhum milagre.
527 — Consideremos outro caso: um homem deve morrer atingido por um raio. Ele se abriga debaixo de uma árvore e o raio cai ali. Os Espíritos provocaram o raio?
— O raio caiu naquele local porque assim determinavam as leis da natureza. Não foi atraído pelo homem. O que ocorreu foi que ele foi inspirado a se abrigar justamente sob aquela árvore, que seria atingida de qualquer forma.
528 — Se alguém dispara contra outra pessoa e o projétil passa muito perto sem atingi-la, pode ter havido a intervenção de um Espírito bondoso?
— Se a pessoa não estava destinada a morrer daquela forma, o Espírito bondoso pode inspirá-la a se desviar, ou então confundir momentaneamente quem dispara, fazendo-o errar o alvo. Uma vez disparado, o projétil segue naturalmente o seu curso.
529 — O que pensar das balas encantadas mencionadas em algumas lendas, que atingiriam fatalmente o alvo?
— Pura imaginação. O ser humano gosta do fantástico e não se satisfaz com as maravilhas naturais.
— Espíritos que dirigem acontecimentos podem ter sua ação impedida por outros Espíritos que desejam o contrário?
— O que Deus quer sempre se realiza. Se há demora ou obstáculos, é porque assim foi permitido.
530 — Espíritos levianos e zombeteiros podem criar pequenos transtornos e atrapalhar nossos planos, sendo a causa das chamadas pequenas misérias da vida?
— Eles gostam de causar esse tipo de aborrecimento, que serve como prova para exercitar a paciência. Mas se cansam quando percebem que não obtêm resultado. Ainda assim, não é justo atribuir a eles todas as frustrações, pois muitas decorrem da imprudência humana.
— Esses Espíritos agem por antipatia pessoal ou por simples malícia?
— Às vezes por antipatia, especialmente quando há inimizades de vidas passadas; outras vezes, por simples gosto em perturbar.
531 — A maldade daqueles que nos prejudicaram na Terra desaparece com a morte?
— Muitas vezes eles reconhecem o erro cometido. Mas também é comum que continuem perseguindo, se isso for permitido como prova.
— É possível pôr fim a isso? Como?
— Sim. Orando por eles e respondendo ao mal com o bem. Assim, acabam compreendendo o erro. Além disso, quando vocês se colocam acima dessas influências, eles desistem por não obter vantagem.
532 — Os Espíritos podem afastar males ou favorecer alguém com prosperidade?
— Não completamente, pois há sofrimentos previstos pela Providência. Eles, porém, aliviam as dores, inspirando paciência e resignação. Muitas vezes, depende de vocês evitar ou suavizar esses males.
Deus deu ao ser humano a inteligência para usá-la, e é principalmente por meio dela que os Espíritos auxiliam, sugerindo ideias úteis. Mas só ajudam de fato aqueles que também se ajudam.
533 — Os Espíritos podem conceder riquezas a quem pede?
— Às vezes, como prova. Na maioria das vezes, recusam, como se faz com uma criança que pede algo imprudente.
— São os bons ou os maus Espíritos que concedem esses favores?
— Pode ser qualquer um, dependendo da intenção. Geralmente, os maus Espíritos facilitam riquezas quando isso pode conduzir ao excesso e ao desvio moral.
534 — Quando obstáculos parecem impedir nossos projetos, isso é sempre influência espiritual?
— Às vezes sim, mas na maioria dos casos é erro de planejamento ou de execução. Se insistem em um caminho errado, não podem culpar os Espíritos pelos fracassos.
535 — Quando algo bom acontece, devemos agradecer ao Espírito protetor?
— Agradeçam primeiro a Deus, sem cuja permissão nada acontece, e depois aos bons Espíritos que foram instrumentos dessa vontade.
— E se esquecermos de agradecer?
— O mesmo que acontece aos ingratos.
536 — Os grandes fenômenos da natureza são fruto do acaso ou têm finalidade providencial?
— Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus.
— Esses fenômenos têm sempre o ser humano como objetivo?
— Às vezes sim, mas muitas vezes servem apenas para manter o equilíbrio e a harmonia das forças naturais.
537 — As antigas mitologias, que atribuíam fenômenos naturais a deuses, tinham fundamento?
— Tinham mais fundamento do que se imagina, embora ainda estivessem longe da verdade completa.
538 — Os Espíritos que atuam nos fenômenos da natureza formam uma categoria especial?
— São Espíritos que já encarnaram ou que ainda encarnarão.
— Pertencem a ordens superiores ou inferiores?
— Depende da função. Os que executam tarefas mais materiais são de ordem inferior; os que dirigem são mais elevados.
539 — Fenômenos como tempestades são obra de um único Espírito ou de vários?
— De muitos, reunidos em grandes conjuntos.
540 — Esses Espíritos atuam conscientemente ou por impulso instintivo?
— Alguns têm consciência, outros não. Os Espíritos menos adiantados executam tarefas sem plena noção do conjunto, como instrumentos da lei divina.
Os Espíritos durante os combates
541 — Durante uma batalha há Espíritos auxiliando os combatentes?
— Sim, estimulando a coragem.
542 — Se a justiça está de um lado, por que Espíritos apoiam causas injustas?
— Porque há Espíritos que se comprazem na discórdia e na destruição, sem se importar com a justiça.
543 — Espíritos podem influenciar um general em seus planos?
— Sim, como em qualquer concepção.
544 — Maus Espíritos podem inspirar planos errados?
— Podem, mas o general tem livre-arbítrio. Se não souber discernir, sofrerá as consequências.
545 — Um general pode ter uma intuição antecipando o resultado de seus planos?
— Sim. Isso ocorre com pessoas de gênio. Essa inspiração vem dos Espíritos que as orientam.
546 — O que acontece com os Espíritos dos que morrem em combate?
— Alguns continuam interessados na batalha, outros se afastam.
547 — Após a morte, antigos inimigos continuam se odiando?
— No início pode acontecer, mas com o retorno da lucidez o ódio tende a desaparecer, embora possam restar resquícios.
— Eles ainda ouvem os sons da batalha?
*— Sim. Perfeitamente.
548 — Como o Espírito percebe a separação da alma e do corpo em uma morte violenta?
— Raramente a morte é instantânea. No começo, o Espírito fica confuso e não percebe imediatamente que morreu. Aos poucos, compreende a situação, e a separação lhe parece natural.
Pactos
549 — Existe alguma verdade nos pactos com Espíritos maus?
— Não, não existem pactos no sentido literal. O que existe são pessoas de natureza má que entram em sintonia com Espíritos igualmente maus. Por exemplo: alguém deseja prejudicar o vizinho e não sabe como fazer isso. Ao alimentar esse desejo, acaba atraindo Espíritos inferiores que, como ele, querem o mal. Esses Espíritos ajudam, mas exigem que a pessoa também os sirva em seus propósitos negativos. Isso não impede, porém, que o vizinho se liberte dessa influência por meio de sua própria vontade e de uma influência contrária. É apenas nisso que consiste o chamado “pacto”.
Quando alguém se torna dependente de Espíritos inferiores, isso acontece porque se entrega aos pensamentos ruins que eles sugerem, e não porque tenha feito algum acordo formal. O pacto, no sentido comum da palavra, é apenas uma imagem que representa a afinidade entre uma pessoa de má índole e Espíritos igualmente mal-intencionados.
550 — Qual o significado das lendas que falam de pessoas que teriam vendido a alma ao diabo para obter vantagens?
— Todas as fábulas trazem um ensinamento moral. O erro está em tomá-las ao pé da letra. Essa ideia é uma alegoria que pode ser explicada assim: quem recorre a Espíritos para obter riquezas ou favores materiais reclama da Providência, rejeita as provas que lhe cabem nesta vida e abandona a missão que assumiu ao encarnar. No futuro espiritual, sofrerá as consequências dessa escolha.
Isso não significa que sua alma esteja condenada para sempre. Mas, ao se apegar cada vez mais à matéria, perderá no mundo espiritual tudo o que ganhou em prazeres terrenos, até reparar a falta por meio de novas provas, talvez mais difíceis. Por buscar satisfações materiais, coloca-se sob a influência de Espíritos impuros. Forma-se assim um pacto implícito, que pode ser rompido a qualquer momento, desde que a pessoa o queira de forma sincera e busque o auxílio dos Espíritos bons.
Poder oculto. Talismãs. Feiticeiros
551 — Pode uma pessoa má, com a ajuda de um Espírito mau, fazer mal ao próximo?
— Não. Deus não permitiria isso.
552 — O que pensar da crença de que certas pessoas teriam o poder de lançar feitiços?
— Algumas pessoas possuem grande poder magnético e podem usá-lo de forma negativa se seus sentimentos forem ruins. Nesse caso, podem ser auxiliadas por Espíritos igualmente maus. Mas não existe poder mágico no sentido supersticioso. Isso só vive na imaginação de pessoas ignorantes das leis da natureza. Os fatos citados como prova desse poder são fenômenos naturais mal observados e mal interpretados.
553 — Que efeito produzem fórmulas e práticas usadas por pessoas que acreditam controlar Espíritos?
— Tornam essas pessoas ridículas, quando agem de boa-fé. Quando há má-fé, tratam-se de charlatães que merecem reprovação. Todas essas fórmulas são ilusões. Não existe palavra sagrada, sinal cabalístico ou talismã que tenha ação sobre Espíritos. Eles respondem ao pensamento, não a objetos materiais.
— Mas alguns Espíritos não chegam a ditar fórmulas ou sinais estranhos?
— Sim, alguns Espíritos indicam palavras estranhas ou gestos simbólicos, sugerindo conjuros. Mas são Espíritos zombeteiros, que se divertem explorando a credulidade humana.
554 — A crença na virtude de um talismã não poderia atrair um Espírito, já que o que atua é o pensamento?
— Sim, mas a natureza do Espírito atraído depende da intenção e da elevação moral de quem acredita nisso. Geralmente, quem confia em talismãs busca objetivos mais materiais do que morais. Essa crença revela fragilidade intelectual e favorece a ação de Espíritos inferiores e zombeteiros.
555 — Que significado deve ser dado ao termo “feiticeiro”?
— O que vocês chamam de feiticeiros são, muitas vezes, pessoas que possuem certas faculdades naturais, como o magnetismo ou a segunda vista, e que, agindo de boa-fé, produzem efeitos que os ignorantes não compreendem. Por isso, são tidas como dotadas de poderes sobrenaturais. Quantas vezes cientistas também não foram considerados feiticeiros pelos ignorantes?
O Espiritismo e o magnetismo explicam inúmeros fenômenos que a ignorância transformou em lendas exageradas. O conhecimento claro dessas duas áreas — que, no fundo, formam uma só — é o melhor antídoto contra a superstição, pois mostra o que é possível, o que é natural e o que não passa de fantasia.
556 — Algumas pessoas realmente têm o poder de curar pelo simples contato?
— O poder magnético pode chegar a esse ponto quando aliado à pureza de intenção e ao sincero desejo de fazer o bem. Nesses casos, Espíritos bons auxiliam. No entanto, é preciso desconfiar dos relatos exagerados feitos por pessoas muito crédulas ou entusiasmadas, que veem o maravilhoso onde há apenas fenômenos naturais. Também é necessário cautela com relatos interesseiros de quem explora a fé alheia.
Bênçãos e maldições
557 — A bênção ou a maldição podem realmente atrair o bem ou o mal para alguém?
— Deus não atende a uma maldição injusta, e quem a profere se torna responsável por isso. Como existem influências opostas — o bem e o mal —, uma maldição pode exercer influência momentânea, até mesmo sobre a matéria, mas apenas se Deus permitir, como prova para quem a recebe. Em geral, os maus são amaldiçoados e os bons são abençoados.
A bênção ou a maldição jamais desviam a Providência do caminho da justiça. Deus só permite que o mal atinja quem pratica o mal e só concede proteção a quem a merece.