Antes de Começar
A ciência do Século XXI nos conta uma história curta, o Big Bang explodiu, o universo se formou, e bilhões de anos depois uma forma de vida primitiva surgiu na Terra, evoluiu, e aqui estamos. Fim. Somos parte de uma grande piada cósmica. E se isso for verdade, por que eu deveria ajudar o próximo, se um dia vou simplesmente morrer e a minha consciência vai acabar para sempre? Como dormir em paz sabendo que amanhã pode ser o último dia que verei meus entes queridos?
Alguns se utilizam da fé para consertar esse problema, e eu admiro essas pessoas profundamente, porque nunca tive essa qualidade. Como acreditar em Deus se o mundo é tão injusto? Cresci com uma mãe doente, e a única relação que consegui ter com Deus foi a conclusão de que ele é um cínico. Por que alguns sofrem e outros não? Deus não era para ser soberanamente justo e bom? Onde está sua bondade quando crianças morrem de fome, inocentes morrem na guerra, e pessoas más prevalecem sobre as boas o tempo todo?
Allan Kardec propôs uma solução, em 1857, na França. Unificar Ciência, Religião e Filosofia para responder a essas fatais perguntas através do “Livro dos Espíritos”. Quando descobri a existência desse livro, fiquei curioso, mas também muito cético. Como assim, um livro feito por espíritos? Espíritos nem existem! Mas decidi dar uma chance, porque gostei da postura de Kardec: “Rejeite o que a razão não aprova”, “Não aceite ideias por fé cega” e “Analise tudo sob lógica rigorosa”.
Para a minha surpresa, o método dele era bem engenhoso. Kardec mantinha correspondência com reuniões espíritas independentes, espalhadas pela Europa, pelas Américas, e até por algumas localidades na África e na Ásia. Essas cartas continham perguntas para os alegados “espíritos” que se comunicavam através de médiuns. Eram questões de altíssimo calibre sobre Deus, o surgimento do universo, quem somos nós, e algumas carregadas de temas polêmicos para a época, como a pena de morte, desigualdade entre homens e mulheres e a escravidão dos mais fracos. Práticas e costumes amplamente aceitos na sociedade do Século XIX.
As respostas voltavam para Kardec, que as comparava. Se havia concordância entre diversas fontes, a pergunta e a resposta entravam no Livro dos Espíritos. Quando surgiam divergências ou opiniões isoladas, aquela resposta era deixada de lado ou analisada com maior cautela. Esse método ficou conhecido como Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE).
Por mais sofisticado que fosse para a época, esse método contém duas falhas capitais. A primeira: como garantir que a resposta não era simplesmente fruto do senso comum ou da inteligência do próprio médium? E a segunda: como garantir que Kardec foi imparcial ao descartar ou incluir respostas? São duas perguntas válidas, e muito difíceis de serem categoricamente respondidas. Mas, e se a gente pudesse colocar esse método à prova em uma escala nunca vista antes? Juntar relatos de pessoas do mundo inteiro, de todas as culturas, para testar os ensinamentos dos espíritos? E se a gente aplicasse o método de Kardec através da Internet?
Foi quando percebi que o método de Kardec já está sendo aplicado, e em escala global. Pegue seu celular agora, abra o YouTube, e digite: “Relatos de Experiências de Quase Morte (EQM)”. Milhares de pessoas, em dezenas de idiomas, contando o que viveram enquanto estavam clinicamente mortas. Milhões nos comentários relatando suas próprias experiências espirituais. Pessoas que nunca leram Kardec, que nunca ouviram falar de Espiritismo, descrevendo exatamente o que está escrito em um livro de 1857. Esse é o CUEE rodando na velocidade da Internet, em uma amostra que Kardec jamais sonharia em alcançar.
Intrigado, mergulhei nessa obra. Desde então tive grande vontade de compartilhá-la com o maior número de pessoas possíveis, porque ela literalmente mudou a minha vida. Eu queria que essa luz e essa tranquilidade alcançassem todas as pessoas que eu amo, mas percebi um problema. A versão original do livro não é muito amigável. É truncada e cheia de termos antigos. Kardec era renomado educador e tradutor, falava 6 línguas fluentemente. Talvez para ele a leitura fosse simples, mas não é para a maioria de nós. Então decidi criar esta nova versão do Livro dos Espíritos, em português brasileiro moderno. Tentei otimizar o texto ao máximo para que a leitura seja fácil e prazerosa. A única dificuldade que você deve encontrar é a profundidade da obra, não o vocabulário rebuscado.
Sobre a Introdução a seguir
O próximo capítulo, intitulado “Introdução à Doutrina Espírita”, foi escrito pelo próprio Kardec para acompanhar a primeira edição. É um texto voltado a um público muito específico: os leitores e críticos da França de 1857. Kardec dedica seções inteiras a defender a seriedade do estudo diante da ironia dos jornais, da resistência das corporações científicas e das acusações de fraude. Essas defesas faziam todo o sentido no seu tempo, mas exigem do leitor atual uma boa dose de contextualização histórica para serem plenamente apreciadas. Por isso, a leitura completa da Introdução é opcional, especialmente no primeiro contato com a obra. Na sua primeira leitura, sinta-se livre para ler apenas:
- Seções I e II (Terminologia básica). Esclarecem por que se usa “Espiritismo” em vez de “espiritualismo”, e os diferentes sentidos que a palavra “alma” pode ter. Esse vocabulário aparece com frequência ao longo do livro e ajuda a evitar confusões.
- Seção VI (Resumo da doutrina). A parte mais importante da Introdução. Apresenta, em proposições curtas, os princípios fundamentais que serão desenvolvidos no restante da obra: existência de Deus, natureza dos Espíritos, encarnação, perispírito, livre-arbítrio, progresso espiritual, comunicação entre os mundos. Funciona quase como um mapa do que vem pela frente.
- Seção XVII (Encerramento). Traz uma analogia com a astronomia para explicar por que a existência de seres invisíveis é uma hipótese coerente com o que sabemos da natureza.
A partir do próximo capítulo, começa a obra original de Allan Kardec, agora em português brasileiro moderno. Caso encontre falhas gramaticais, erros doutrinários, ou tenha alguma sugestão de melhoria, sinta-se à vontade para escanear o QR code na primeira página deste livro. Sua contribuição será muito bem-vinda.
E aqui vai minha sugestão para tirar o máximo dessa leitura: antes de começar cada capítulo, assista a um relato de Experiência de Quase Morte. Compare. Veja por si mesmo. Esse livro foi escrito em 1857, esses relatos são de hoje, é você quem vai julgar se eles concordam.
Que esse livro mude a sua vida como mudou a minha. Boa leitura.