Introdução à Doutrina Espírita

Introdução à Doutrina Espírita

I

Para nomear ideias novas, são necessários termos novos. Isso é uma exigência de clareza, pois evita a confusão causada por palavras que possuem vários significados. Os termos espiritual, espiritualista e espiritualismo já têm sentidos definidos. Usá-los para designar a doutrina dos Espíritos criaria ainda mais ambiguidades.

Espiritualismo é o oposto de materialismo. Todo aquele que acredita que existe em si algo além da matéria é espiritualista. No entanto, isso não significa necessariamente que acredite na existência dos Espíritos ou na possibilidade de comunicação entre eles e o mundo visível.

Para distinguir essa crença específica, adotamos os termos “espírita” e “espiritismo”. Essas palavras indicam com precisão a doutrina que trata das relações entre o mundo material e os Espíritos, ou seres do mundo invisível. Assim, preserva-se o sentido original de espiritualismo e evita-se confusão. Os seguidores dessa doutrina são chamados espíritas, também conhecidos como espiritistas.

II

Outra palavra que precisa ser bem definida é alma. Muitas discussões sobre o tema surgem porque cada pessoa entende esse termo de maneira diferente. Para alguns, alma é apenas o princípio da vida biológica. Não teria existência própria e desapareceria com a morte do corpo. Essa é a posição materialista: a alma seria um efeito do organismo, não sua causa.

Outros defendem a ideia de uma alma universal, da qual cada ser receberia uma parte durante a vida. Após a morte, essa parte retornaria à fonte comum, perdendo a individualidade. Embora admita algo além da matéria, essa visão praticamente elimina a consciência pessoal depois da morte.

Por fim, há a concepção mais difundida: a alma como um ser imaterial, individual e independente da matéria, que sobrevive ao corpo. Essa é a visão espiritualista. O problema é que a mesma palavra é usada para ideias diferentes. Para evitar confusão, é preciso definir claramente o sentido adotado. Nesta obra, chamamos alma o ser imaterial e individual que existe em nós e continua a existir após a morte.

Quando nos referimos à força que sustenta a vida biológica, usamos a expressão princípio vital. Trata-se da energia que mantém os seres orgânicos (plantas, animais e seres humanos) independentemente da inteligência ou do pensamento. A vida material é comum a todos os organismos; já a inteligência e o senso moral aparecem em graus diferentes, atingindo no ser humano seu desenvolvimento mais completo.

Muitas divergências ao longo do tempo nasceram apenas do uso impreciso das palavras. Ao esclarecer o sentido de alma desde o início, evitamos mal-entendidos e discussões desnecessárias.

Essa definição é fundamental porque a doutrina espírita se baseia na existência de um ser independente da matéria que sobrevive ao corpo. Feito esse esclarecimento, podemos avançar para o tema principal.

III

Como toda novidade, a doutrina espírita tem defensores e críticos. Vamos examinar algumas objeções feitas por estes últimos, analisando seus argumentos com serenidade. Não pretendemos convencer a todos, mas dialogar com quem esteja disposto a observar os fatos sem preconceito. Muitas críticas surgiram de análises apressadas ou de observação incompleta. Antes disso, recordemos brevemente como os fenômenos que deram origem a essa doutrina começaram a chamar atenção.

Os primeiros relatos falavam da movimentação de objetos, fenômeno que ficou conhecido como mesas girantes. Embora tenha se tornado popular nos Estados Unidos, registros semelhantes existem desde a antiguidade. O que chamou atenção não foi apenas o movimento, mas também ruídos e pancadas sem causa aparente. Em pouco tempo, os relatos se espalharam pela Europa e outras regiões. A princípio houve descrença; depois, a repetição dos fatos tornou difícil negá-los.

Se os fenômenos tivessem se limitado ao simples movimento de objetos, poderiam ser explicados por causas físicas ainda desconhecidas. A própria ciência já demonstrou que forças invisíveis, como a eletricidade, produzem efeitos intensos. Nada impediria que algum agente natural fosse responsável pelos movimentos observados. O fato de que a presença de várias pessoas parecia aumentar a intensidade do fenômeno reforçava essa hipótese. Mesmo movimentos bruscos, deslocamentos inesperados ou sons estranhos poderiam, em tese, receber explicações físicas. Até esse ponto, tudo ainda podia ser investigado dentro do campo das forças naturais.

O que surpreende é que o assunto não tenha sido estudado com mais profundidade por muitos cientistas da época. Parte da resistência pode ter vindo do tom informal com que o fenômeno foi divulgado. A expressão “dança das mesas” contribuiu para que o tema fosse tratado com ironia, afastando pesquisadores que não quiseram associar seu nome a algo visto como trivial.

Alguns estudiosos chegaram a investigar, mas como os fenômenos não se produziam sempre à vontade deles, concluíram que não eram reais. No entanto, o fato de algo não ocorrer sob qualquer condição não significa que não exista. Muitos fenômenos físicos dependem de circunstâncias específicas para acontecer. O mesmo poderia valer aqui. Para compreender novas ocorrências, é preciso observá-las com paciência e método, aceitando que talvez obedeçam a leis ainda desconhecidas.

Outra objeção frequente é a possibilidade de fraude. É evidente que fraudes podem ocorrer, como em qualquer área. Mas a existência de imitações não invalida automaticamente todos os casos. Além disso, muitos dos relatos vieram de pessoas respeitadas, sem interesse aparente em enganar. Uma mistificação isolada é possível; um fenômeno relatado de forma ampla e persistente já exige análise mais cuidadosa.

Diante disso, a questão central deixa de ser negar ou aceitar de imediato, e passa a ser investigar com seriedade. Foi desse esforço de observação e reflexão que a doutrina espírita começou a se estruturar.

IV

Se os fenômenos tivessem se limitado ao movimento de objetos, permaneceriam no campo da física. Mas não foi isso que aconteceu. Percebeu-se que os movimentos não pareciam resultado apenas de uma força mecânica. Havia sinais de intenção nas respostas. Surgiu então a questão: existiria ali uma causa inteligente? E, se existisse, qual seria sua natureza?

As primeiras respostas consideradas inteligentes eram simples. A mesa se levantava ou batia um dos pés no chão para indicar “sim” ou “não”, conforme o combinado. Para muitos, isso ainda podia ser coincidência. Depois passou-se a usar o alfabeto: cada número de pancadas correspondia a uma letra, formando palavras e frases. As respostas mostravam coerência com as perguntas, o que aumentou o interesse.

Quando questionada sobre sua identidade, a causa dessas manifestações declarou ser um Espírito, apresentou um nome e forneceu informações a seu respeito. Um ponto importante é que essa explicação não foi criada antes como hipótese; surgiu a partir das próprias comunicações.

O método das pancadas era lento e pouco prático. Então o Espírito sugeriu a adaptação de um lápis a uma pequena cesta ou objeto semelhante. Colocado sobre o papel e tocado levemente por uma pessoa, o objeto se movia e o lápis passava a escrever palavras, frases, dissertações de muitas páginas sobre as mais altas questões de filosofia, de moral, de metafísica, de psicologia, etc., e com tanta rapidez como se fosse com a mão.

Esse mesmo conselho foi dado simultaneamente na América, na França e em diversos outros países. Eis em que em Paris, em 10 de junho de 1853, foi comunicado a um dos participantes:

— Vai buscar, no aposento ao lado, a cestinha; amarra-lhe um lápis; coloca-a sobre o papel; põe-lhe os teus dedos sobre a borda.

Pouco depois, a cesta começou a se mover e escreveu, de forma legível:

— Proíbo expressamente que transmitas a quem quer que seja o que acabo de dizer. Da próxima vez que escrever, escreverei melhor.

O objeto ao qual o lápis era preso era apenas um instrumento; sua forma não era essencial. Com o tempo, foram adotados meios mais simples, como pequenas pranchetas, até que a escrita passou a ocorrer diretamente pela mão da pessoa.

Observou-se também que nem todos conseguiam produzir essas manifestações. Algumas pessoas demonstravam maior facilidade e passaram a ser chamadas de médiuns, isto é, intermediários entre os Espíritos e os seres humanos. Essa capacidade aparece em pessoas de diferentes idades e níveis de instrução e pode se desenvolver com a prática. As condições que a tornam possível envolvem fatores físicos e psicológicos ainda pouco conhecidos na época.

V

A experiência também revelou outras formas de manifestação: comunicações pela fala, pela audição, pela visão, pelo tato e até casos de escrita que surgia sem o movimento consciente da mão do médium. Restava, porém, uma questão central: qual era o papel do médium nas respostas? Ele seria o autor das mensagens, mesmo sem perceber?

Dois pontos chamaram a atenção dos observadores. O primeiro era o modo como o objeto se movia. Bastava que o médium encostasse levemente os dedos para que a cesta se deslocasse. Quando duas ou três pessoas tocavam ao mesmo tempo, seria necessário supor uma coordenação extremamente precisa de movimentos e pensamentos para produzir respostas coerentes. Além disso, a caligrafia variava conforme a identidade atribuída ao Espírito comunicante, repetindo-se o mesmo estilo quando ele voltava a se manifestar. Isso exigiria do médium a capacidade de reproduzir diversas formas de escrita com consistência, o que tornava a hipótese de fraude mais complexa.

O segundo ponto dizia respeito ao conteúdo das mensagens. Muitas respostas tratavam de temas científicos ou abstratos que ultrapassavam claramente o conhecimento do médium. Em vários casos, ele não tinha consciência do que escrevia, não compreendia a pergunta (às vezes feita mentalmente ou em idioma desconhecido) e ainda assim surgia uma resposta coerente. Também acontecia de a escrita começar espontaneamente, sem pergunta prévia, sobre assuntos inesperados.

Em algumas comunicações apareciam ideias profundas, elevadas e moralmente consistentes. Em outras, surgiam mensagens superficiais ou triviais. Essa diferença de conteúdo indicaria diversidade de inteligências atuando.

Esses fatos ocorriam de forma aberta, repetidos por milhares de pessoas, e não como experiências isoladas. Se demonstravam intenção e inteligência, já não podiam ser considerados apenas fenômenos físicos. Diversas teorias foram propostas para explicá-los. Elas serão examinadas adiante. Por ora, consideremos a hipótese apresentada pelas próprias comunicações: a existência de inteligências distintas da humana. A partir dessa possibilidade, analisemos o que essas inteligências afirmam.

VI

Como vimos, os próprios seres que se comunicam designam a si mesmos como Espíritos ou gênios e declaram, ao menos em parte, terem pertencido a homens que viveram na Terra. Eles formam o mundo espiritual, assim como nós constituímos o mundo corporal durante a vida terrena. A seguir, resumimos os pontos principais da doutrina que nos transmitiram, para depois respondermos com mais facilidade a certas objeções.

— Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.

— Deus criou o universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais.

— Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo; os seres imateriais formam o mundo invisível ou espírita, isto é, o mundo dos Espíritos.

— O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, anterior e posterior a tudo o mais.

— O mundo corporal é secundário. Poderia deixar de existir, ou jamais ter existido, sem que isso alterasse a essência do mundo espírita.

— Os Espíritos vestem temporariamente um corpo material perecível. A morte desfaz esse envoltório e lhes devolve a liberdade.

— Entre as diferentes espécies de seres corpóreos, Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que atingiram certo grau de desenvolvimento, conferindo-lhe superioridade moral e intelectual sobre as demais.

— A alma é um Espírito encarnado; o corpo é apenas o seu envoltório.

— Há no ser humano três elementos: primeiro, o corpo, ser material semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; segundo, a alma, ser imaterial, ou seja, o Espírito encarnado no corpo; terceiro, o laço que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.

— Assim, o ser humano possui duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais, com os instintos que lhes são próprios; pela alma, participa da natureza dos Espíritos.

— O laço que une o corpo e o Espírito, chamado perispírito, é uma espécie de envoltório semimaterial. A morte destrói o envoltório mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo, que lhe serve como um corpo etéreo, invisível para nós em condições normais, mas que pode tornar-se acidentalmente visível e até tangível, como ocorre nas aparições.

— O Espírito não é, portanto, um ser abstrato e indefinido, perceptível apenas pelo pensamento. É um ser real, com contornos próprios, que em certos casos pode ser percebido pela visão, pela audição e pelo tato.

— Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais em poder, inteligência, conhecimento ou moralidade. Os da primeira ordem são os Espíritos superiores, que se distinguem pela perfeição, pelos conhecimentos, pela proximidade de Deus, pela pureza dos sentimentos e pelo amor ao bem: são os anjos ou Espíritos puros. Os das demais classes encontram-se cada vez mais distantes dessa perfeição. Os de categorias inferiores manifestam ainda muitas das paixões humanas: ódio, inveja, ciúme, orgulho. Comprazem-se no mal. Há também os que não são nem muito bons nem muito maus, mais perturbadores e enredadores do que perversos, em quem predominam a malícia e a leviandade. São os Espíritos levianos.

— Os Espíritos não permanecem indefinidamente na mesma ordem. Todos progridem, atravessando os diferentes graus da hierarquia espiritual. Esse progresso se dá por meio da encarnação, que para uns é expiação e para outros, missão. A vida material é uma prova pela qual precisam passar repetidamente, até alcançarem a perfeição. É como um filtro do qual saem cada vez mais purificados.

— Ao deixar o corpo, a alma retorna ao mundo dos Espíritos, de onde havia saído, para depois iniciar nova existência material após um período mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito errante.

— Como o Espírito passa por muitas encarnações, todos nós já tivemos diversas existências e ainda teremos outras, mais ou menos aperfeiçoadas, na Terra ou em outros mundos.

— A encarnação dos Espíritos na Terra ocorre sempre na espécie humana. Seria erro acreditar que a alma ou o Espírito possa encarnar no corpo de um animal.

— As diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas, nunca regressivas. A rapidez do progresso depende dos esforços feitos para alcançar a perfeição.

— As qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós. Assim, a pessoa de bem é a encarnação de um Espírito bom; a pessoa perversa, a de um Espírito impuro.

— A alma já possuía individualidade antes de encarnar e a conserva depois de se separar do corpo.

— Ao retornar ao mundo dos Espíritos, ela reencontra todos aqueles que conheceu na Terra e todas as suas existências anteriores se reconstituem na memória, com a lembrança de todo o bem e de todo o mal que praticou.

— O Espírito encarnado está sob a influência da matéria. A pessoa que vence essa influência, pela elevação e depuração da alma, aproxima-se dos Espíritos bons, com os quais um dia conviverá. Já a que se deixa dominar pelas más paixões e coloca toda a sua alegria na satisfação dos apetites grosseiros aproxima-se dos Espíritos impuros, dando preponderância à natureza animal.

— Os Espíritos encarnados habitam os diferentes mundos do universo.

— Os Espíritos não encarnados, ou errantes, não ocupam uma região fixa e delimitada. Estão por toda parte no espaço, ao nosso lado, vendo-nos e convivendo conosco a todo instante. É toda uma população invisível, que se move ao nosso redor.

— Os Espíritos exercem ação contínua sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento, e constituem uma das forças da natureza, causa eficiente de muitos fenômenos até hoje sem explicação satisfatória, e que só encontram resposta racional no Espiritismo.

— A relação dos Espíritos com os seres humanos é constante. Os bons nos atraem para o bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação. Os maus nos impelem para o mal: têm prazer em ver-nos sucumbir e tornarmo-nos parecidos com eles.

— As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As ocultas se dão pela influência boa ou má que exercem sobre nós sem que percebamos. Cabe ao nosso discernimento separar as boas das más inspirações. As ostensivas ocorrem por meio da escrita, da fala ou de outras manifestações materiais, quase sempre por intermédio dos médiuns.

— Os Espíritos manifestam-se espontaneamente ou mediante evocação. Pode-se evocar qualquer Espírito: o de pessoas comuns, o de personagens ilustres, de qualquer época em que tenham vivido, o de parentes, amigos ou inimigos. Por meio de comunicações escritas ou faladas, podemos obter deles conselhos, informações sobre a situação em que se encontram além da vida terrena, sobre o que pensam a nosso respeito, e ainda as revelações que lhes seja permitido nos transmitir.

— Os Espíritos são atraídos pela afinidade com a natureza moral do ambiente que os evoca. Os Espíritos superiores comparecem nas reuniões sérias, onde predominam o amor ao bem e o desejo sincero de aprendizado e progresso. A presença deles afasta os Espíritos inferiores, que, ao contrário, encontram livre acesso e podem agir à vontade entre pessoas frívolas, movidas apenas pela curiosidade, ou em ambientes onde existam maus instintos. Em vez de bons conselhos ou ensinamentos úteis, dali só se podem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto e mistificações, pois muitas vezes esses Espíritos assumem nomes respeitados para induzir mais facilmente ao erro.

— Distinguir os bons dos maus Espíritos é simples. Os superiores usam linguagem digna, nobre, marcada por elevada moralidade, sem qualquer vestígio de paixões inferiores. Seus conselhos refletem pura sabedoria e visam sempre o nosso aperfeiçoamento e o bem da humanidade. Já a linguagem dos Espíritos inferiores é incoerente, muitas vezes trivial e até grosseira. Quando dizem algo bom e verdadeiro, dizem muito mais falsidades e absurdos, por malícia ou ignorância. Zombam da credulidade humana, divertem-se às custas de quem os interroga, lisonjeiam vaidades e alimentam desejos com falsas esperanças. Em resumo: comunicações sérias só ocorrem em ambientes igualmente sérios, em que haja sintonia de pensamentos voltados para o bem.

— A moral dos Espíritos superiores resume-se, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Nesse princípio o ser humano encontra uma regra universal de conduta, válida até para as menores ações.

— Eles ensinam que o egoísmo, o orgulho e a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal e nos prendem à matéria. Aquele que, ainda neste mundo, se desliga da matéria, despreza as futilidades e ama o próximo aproxima-se da natureza espiritual. Cada um deve tornar-se útil, na medida das faculdades e dos meios que Deus lhe colocou nas mãos para experimentá-lo. O forte e o poderoso devem amparo e proteção ao fraco, pois transgride a lei de Deus quem usa a força e o poder para oprimir o semelhante. Ensinam ainda que, no mundo dos Espíritos, nada permanece oculto: o hipócrita será desmascarado e todas as suas torpezas virão à luz. A presença inevitável e contínua daqueles a quem fizemos mal é um dos castigos que nos aguardam. E ao estado de inferioridade ou superioridade dos Espíritos correspondem sofrimentos e alegrias desconhecidos na Terra.

— Mas ensinam também que não há faltas que não possam ser reparadas. As diferentes existências oferecem ao ser humano os meios de avançar, conforme seus desejos e esforços, no caminho do progresso, rumo à perfeição, que é o seu destino final.

Esse é o resumo da doutrina espírita conforme os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos superiores. Vejamos agora as objeções que se lhe contrapõem.

VII

Para muitas pessoas, a oposição das corporações científicas constitui, se não uma prova, ao menos um forte indício contra qualquer nova ideia. Não estamos entre os que atacam os cientistas; pelo contrário, temos grande respeito por eles e consideraríamos uma honra sermos contados entre seus membros. Mas suas opiniões não podem, em todas as circunstâncias, ser tomadas como sentença definitiva.

Quando a ciência se limita à observação material dos fatos, ela caminha em terreno seguro. Porém, ao interpretar, avaliar e explicar aquilo que observa, entra inevitavelmente no campo das hipóteses. Cada estudioso constrói seu próprio sistema e tende a defendê-lo com convicção. Não vemos com frequência teorias opostas serem alternadamente rejeitadas como absurdas e depois proclamadas como verdades incontestáveis? O verdadeiro critério do juízo são os fatos. Onde os fatos faltam, a dúvida é a postura mais sensata.

Em assuntos já conhecidos e amplamente estudados, a opinião dos cientistas merece confiança, pois possuem conhecimento técnico superior ao do público em geral. Contudo, diante de princípios novos e fenômenos ainda pouco compreendidos, essa opinião costuma ser provisória. Os cientistas, como qualquer ser humano, também estão sujeitos a preconceitos. Muitas vezes, a própria especialização os leva a interpretar tudo a partir do campo em que se aprofundaram: o matemático busca demonstrações numéricas; o químico reduz os fenômenos à ação dos elementos; o físico procura forças e mecanismos. Fora de sua área, podem errar como qualquer outro.

Consultaremos com confiança um químico sobre análise de substâncias, um físico sobre eletricidade, um engenheiro sobre máquinas. Mas isso não nos obriga a aceitar, como decisiva, a opinião negativa que qualquer deles possa emitir sobre o Espiritismo, assim como não recorreríamos a um arquiteto para resolver uma questão de música.

As ciências tradicionais estudam a matéria, que pode ser manipulada e experimentada livremente. Os fenômenos espíritas, porém, envolvem a ação de inteligências dotadas de vontade própria, que não se submetem aos caprichos dos observadores. Por isso, não podem ser analisados pelos mesmos métodos. Exigir que se ajustem aos processos comuns de laboratório é aplicar uma analogia inadequada.

A ciência, enquanto ciência material, não possui instrumentos para decidir sobre a existência da alma ou sobre seu estado após a morte. O Espiritismo baseia-se justamente nessas questões. Submeter o problema ao julgamento exclusivo de físicos ou astrônomos seria tão incoerente quanto pedir a um matemático que determine, apenas com números, a realidade de um sentimento.

Se as ideias espíritas se difundirem amplamente, e a rapidez com que se propagam indica que isso pode ocorrer, o que sempre aconteceu com as ideias novas voltará a acontecer: a resistência inicial cederá à evidência. Os estudiosos chegarão a suas conclusões individualmente, à medida que os fatos se impuserem. Não é produtivo desviá-los de suas áreas específicas para obrigá-los a estudar um tema que ainda não faz parte de seus programas.

A história mostra que muitas descobertas hoje celebradas foram inicialmente ridicularizadas. Em 1752, a proposta apresentada por Benjamin Franklin sobre o para-raios foi recebida com riso por uma respeitável assembleia científica. O projeto de navegação a vapor de Robert Fulton foi considerado um sonho irrealizável. Ideias que depois transformaram o mundo foram, em seu início, tratadas como impossíveis.

Se corporações formadas pela elite intelectual erraram em temas de sua própria área, por que esperar julgamento mais favorável em um campo que não lhes é habitual? Esses equívocos não diminuem o mérito científico de seus autores, mas mostram que o saber humano é falível.

Além disso, o bom senso não é monopólio de diplomas. Entre os adeptos do Espiritismo encontram-se pessoas instruídas, de reconhecida integridade e mérito intelectual. Não é razoável supor que todos tenham sido enganados por mera ingenuidade. Quando homens e mulheres sérios afirmam ter examinado certos fatos e chegado a conclusões semelhantes, ao menos merece consideração a hipótese de que exista algo digno de estudo.

Se os fenômenos espíritas se limitassem a movimentos puramente mecânicos, caberia à ciência investigá-los como qualquer outro fenômeno físico. Mas tratando-se de manifestações que parecem envolver inteligência e intenção, o problema ultrapassa os limites da matéria. Quando surge um fato novo, o verdadeiro cientista deve suspender seus pressupostos e admitir que talvez esteja diante de um campo ainda inexplorado.

Aquele que considera sua razão infalível aproxima-se do erro. Muitos dos que rejeitaram grandes descobertas o fizeram apelando à própria razão. Porém, o que se chama razão muitas vezes é apenas orgulho disfarçado. Quem se julga incapaz de engano coloca-se perigosamente acima da condição humana.

Dirigimo-nos, portanto, aos que sabem duvidar sem negar precipitadamente; aos que reconhecem que o conhecimento humano está em constante evolução; aos que não acreditam que já tenhamos lido a última página do livro da natureza.

VIII

Acrescentamos que o estudo do Espiritismo, que nos apresenta uma ordem de ideias tão nova quanto ampla, exige seriedade, perseverança e ausência de preconceitos. Não é matéria para julgamentos apressados nem para análises superficiais. Quem examina sem método, sem continuidade ou apenas para encontrar motivo de ironia dificilmente chegará a qualquer compreensão real. Ninguém é obrigado a aceitar essas ideias, mas é razoável que se respeite a convicção de quem as estuda com sinceridade.

Todo estudo sério exige constância. Questões profundas não se esclarecem quando lançadas ao acaso, misturadas a curiosidades vazias ou feitas sem base prévia. Como em qualquer ciência, é preciso começar pelos fundamentos e acompanhar o desenvolvimento das ideias; do contrário, mesmo boas respostas parecerão confusas ou contraditórias. O mesmo princípio vale aqui: aprender requer método, escolha criteriosa das fontes e dedicação contínua.

Além disso, ambientes marcados por descuido ou falta de intenção sincera não favorecem esclarecimentos consistentes. Se se desejam respostas sérias, é preciso criar condições igualmente sérias. Sem disciplina e perseverança, o aprendizado não avança, e até os melhores instrutores se afastam quando não encontram interesse genuíno.

IX

O movimento de objetos é um fato amplamente relatado. A questão não é se ocorre, mas se há nele uma manifestação inteligente e, caso haja, qual sua origem.

Não nos limitaremos aqui em manifestações verbais ou em mensagens escritas diretamente pelo médium, pois para quem observa pela primeira vez pode parecer que ainda dependem da vontade ou da habilidade de quem as produz. Consideremos apenas a escrita obtida por meio de um objeto munido de lápis (como cesta ou prancheta) sobre o qual o médium apenas repousa os dedos. A posição das mãos torna difícil supor interferência consciente no traçado das letras. Ainda que se admitisse habilidade extraordinária capaz de enganar o observador mais atento, restaria explicar algo mais complexo: a natureza das respostas.

Muitas vezes não se trata de palavras isoladas, mas de páginas inteiras escritas com rapidez, espontaneamente ou sobre temas propostos. Surgem textos fora do campo de conhecimento do médium e, ocasionalmente, composições de qualidade literária inesperada. Esses fatos são relatados em diferentes lugares e por inúmeros médiuns. São reais ou não? A resposta proposta é simples: observar com atenção, repetidamente e nas condições adequadas.

Diante disso, os críticos costumam falar em fraude ou ilusão. Quanto à fraude, é preciso notar que nem sempre há interesse financeiro envolvido. Seria possível falar em engano deliberado, mas como explicar a coincidência de fenômenos semelhantes ocorrendo em lugares distintos, com respostas convergentes sobre os mesmos temas, mesmo quando expressas em línguas diferentes? E por que pessoas de reputação respeitável, ou mesmo crianças, se prestariam sistematicamente a tal encenação, muitas vezes sem qualquer benefício?

Resta a hipótese da ilusão. Mas também aqui convém ponderar: a doutrina espírita não é seguida apenas por pessoas sem instrução. Muitos de seus adeptos estudaram, observaram por longo tempo e não tinham interesse em sustentar um erro. Isso não constitui prova definitiva, mas ao menos um indício de que o assunto merece exame sério. O que não parece razoável é presumir que apenas os céticos detenham o monopólio do bom senso, rotulando como incapazes todos os que, após estudo, chegam a conclusão diferente.

X

Entre as objeções ao Espiritismo, algumas parecem mais consistentes por se apoiarem na observação e partirem de pessoas sérias. Uma delas questiona a linguagem de certos Espíritos, que nem sempre corresponde à elevação atribuída a seres superiores.

A própria doutrina, porém, afirma que não há igualdade entre os Espíritos, nem em conhecimento nem em moralidade, e que nem tudo o que dizem deve ser aceito literalmente. Cabe ao observador discernir. Concluir, a partir de comunicações inferiores, que apenas Espíritos enganosos se manifestam revela desconhecimento das reuniões em que se apresentam mensagens de teor elevado. Julgar o conjunto por experiências isoladas seria como avaliar toda uma sociedade pelo comportamento de um grupo desordeiro.

No mundo espiritual, como no mundo humano, há diferentes níveis. Permanecer apenas nas manifestações mais superficiais e generalizar a partir delas é limitar o próprio campo de observação. Quem amplia o estudo percebe que os fenômenos não se reduzem a expressões grosseiras ou contraditórias.

Outra interpretação atribui todos os fenômenos à ação de uma força exclusivamente maligna, capaz de assumir qualquer forma para enganar. Essa hipótese, além de extrema, pouco se sustenta. Se assim fosse, seria preciso admitir que essa força age, em muitos casos, com coerência moral e bom senso, o que enfraquece a própria acusação.

Além disso, admitir a intervenção de espíritos malignos já é reconhecer que há manifestações espirituais. Se elas existem, só podem ocorrer com a permissão divina. Seria coerente supor que Deus permita apenas a ação do mal, sem conceder espaço para orientações elevadas? Se não pudesse impedir, não seria soberano; se pudesse e não o fizesse, não seria justo. Ambas as conclusões contradizem noções básicas de razão e de fé.

XI

Alguns consideram estranho que, nas comunicações espíritas, se mencionem com frequência nomes de personagens conhecidas e perguntam por que seriam justamente essas a se manifestar. Essa impressão nasce de observação incompleta. Entre as comunicações espontâneas, é muito maior o número das atribuídas a Espíritos desconhecidos do que a figuras ilustres, muitas vezes identificados apenas por nomes simbólicos ou genéricos. Quando há evocação direta, é natural que se recorra a nomes conhecidos (parentes, amigos ou personagens históricos), simplesmente porque são lembrados com mais facilidade e despertam maior interesse.

Também se estranha que Espíritos de homens considerados eminentes respondam a chamados comuns e tratem, às vezes, de assuntos simples. Mas essa objeção parte da ideia de que a posição social mantida na Terra se conserva após a morte. Segundo o próprio ensinamento espírita, títulos, autoridade e prestígio não têm valor automático no mundo espiritual. A hierarquia ali não se baseia em poder ou fama, mas em desenvolvimento moral e intelectual.

Assim, alguém que ocupou posição elevada pode não conservar a mesma condição depois da vida corporal, enquanto outro, antes ignorado, pode destacar-se por suas qualidades reais. A morte encerra as distinções externas; o que permanece é o que cada um efetivamente se tornou.

XII

A observação mostra, e os próprios Espíritos confirmam, que Espíritos inferiores podem usar nomes conhecidos e respeitados. Surge então a dúvida: como ter certeza de que aquele que se apresenta como Sócrates ou Fénelon é realmente quem diz ser? A questão é legítima. A identidade absoluta é difícil de provar; não existe um “documento” espiritual que a garanta. O que se pode obter são indícios consistentes.

Quando se trata de alguém que conhecemos em vida, um parente ou amigo, a linguagem costuma refletir com fidelidade seu modo de ser. O estilo, as ideias, as lembranças pessoais e até detalhes íntimos da convivência servem como fortes sinais de reconhecimento. Em comunicações desse tipo, podem surgir informações desconhecidas de terceiros, mas familiares ao interlocutor, o que reforça a convicção de identidade.

Outro elemento observado é a mudança na escrita do médium conforme o Espírito comunicante. Há casos em que a grafia apresenta semelhança com a da pessoa quando viva. Contudo, isso não deve ser tomado como regra absoluta, apenas como um possível indicativo entre outros.

Os Espíritos que ainda não se libertaram totalmente das influências materiais conservam traços de sua personalidade terrena: ideias, preferências e até manias. Esses aspectos também ajudam na identificação. Em casos mais antigos, quando faltam referências pessoais diretas, resta o critério moral: o conteúdo da mensagem. Um Espírito elevado não se expressará de modo contrário ao bom senso ou à ética. Se alguém se apresenta com nome respeitável, mas fala de forma incoerente ou moralmente inferior, o próprio discurso revela a inconsistência.

Além disso, Espíritos de mesma afinidade formam grupos. Nada impede que um Espírito semelhante a outro se apresente sob determinado nome como forma de facilitar a compreensão do interlocutor. No fundo, o essencial não é o nome adotado, mas a qualidade do ensinamento transmitido. Se a mensagem é elevada, coerente e constante no bem, é isso que deve ser considerado.

É claro que a substituição de identidades pode gerar enganos e mistificações. Essa é uma das dificuldades da prática espírita. Mas nunca se afirmou que se trata de estudo simples ou que dispense dedicação. Como em qualquer área séria de investigação, exige observação atenta, paciência e tempo. Os fatos não surgem por imposição; aparecem quando as condições permitem. Para quem observa com cuidado, os sinais se multiplicam. O olhar superficial enxerga pouco; o atento descobre nuances que esclarecem.

XIII

Essas observações nos levam a outra dificuldade: a divergência na linguagem dos Espíritos. Como eles variam muito em conhecimento e moralidade, é natural que respondam de modos diferentes, exatamente como aconteceria se a mesma pergunta fosse dirigida a pessoas muito diferentes entre si: um cientista, um leigo, alguém sério, um zombador de mau gosto. O ponto central é saber a quem se dirige a pergunta.

Mas por que os Espíritos considerados superiores nem sempre concordam entre si? Primeiro: além das diferenças de nível, há outros fatores que influenciam as respostas, e isso só se compreende com estudo mais profundo. Por isso insistimos: o tema pede atenção, observação cuidadosa e continuidade. Leva anos formar um profissional mediano em qualquer área; como imaginar que, em poucas horas, alguém domine um assunto que toca o infinito?

Além disso, muitas vezes a contradição é mais aparente do que real. Em qualquer ciência, pessoas que tratam da mesma coisa podem defini-la de modos diferentes, por palavras diferentes ou por enfoques distintos, mantendo a mesma ideia central. Quantas definições existem para “gramática”? E a forma da resposta depende muitas vezes da forma da pergunta. Seria pueril chamar de contradição o que às vezes é apenas diferença de termos. Os Espíritos superiores não se prendem à forma; para eles, o fundo do pensamento é tudo.

Tomemos, por exemplo, a palavra “alma”. Como o termo carece de sentido invariável, é natural que a definição varie: um pode chamá-la de “princípio da vida”, outro de “centelha anímica”, outro dizer que é interna, outro que é externa, e cada um pode estar falando de um aspecto sem deixar de ter razão a partir do seu ponto de vista. O mesmo acontece com a linguagem sobre Deus: “princípio de todas as coisas”, “criador do universo”, “inteligência suprema”, “infinito”, “grande Espírito”. No fim, todos apontam para Deus.

Também vale para classificações. A sequência dos Espíritos é contínua, do mais baixo ao mais elevado, e qualquer classificação em três, cinco ou dez classes é, em parte, convenção. Isso ocorre em toda ciência: o sistema muda, mas o objeto estudado permanece o mesmo. Pode-se estudar botânica por classificações diferentes e, ainda assim, aprender botânica. Convém, portanto, não dar a coisas de pura convenção mais importância do que merecem, mantendo o foco no que é essencial. Muitas vezes, uma reflexão mais calma revela harmonia onde parecia haver conflito.

XIV

Alguns céticos apontam os erros de ortografia presentes em certas comunicações dos Espíritos como motivo de crítica. À primeira vista, pode parecer um argumento forte: se os Espíritos sabem tudo, deveriam escrever sem erros. No entanto, essa objeção pouco prova. Mesmo entre os cientistas da Terra não faltam falhas desse tipo, e isso não diminui seu valor.

A questão principal é outra. Para os Espíritos, sobretudo os mais elevados, a ideia é o essencial; a forma tem pouca importância. Livres da matéria, eles se comunicam entre si de modo direto, quase instantâneo, como pensamento que alcança pensamento. Quando precisam usar a linguagem humana, encontram nela um instrumento lento e limitado para expressar o que pensam.

Eles próprios afirmam que a linguagem terrestre é insuficiente para traduzir plenamente suas ideias. Por isso, muitas vezes recorrem a diferentes meios para contornar essa limitação. Algo semelhante aconteceria conosco se tivéssemos de nos expressar em um idioma mais pobre e menos preciso que o nosso. É a mesma impaciência que sente o homem de grande pensamento quando sua escrita não consegue acompanhar a rapidez de suas ideias.

Assim, compreende-se que os Espíritos deem pouca importância a detalhes como a ortografia, especialmente quando tratam de assuntos sérios. O que já é notável é que consigam se comunicar em diversas línguas e compreendê-las todas.

Isso não significa, porém, que ignorem as regras da linguagem. Quando necessário, podem respeitá-las perfeitamente. Prova disso é que muitas poesias atribuídas a Espíritos suportariam a análise dos críticos mais rigorosos, mesmo quando transmitidas por médiuns que não dominam a arte poética.

XV

Há pessoas que veem perigo em tudo o que não conhecem. Por isso, quando alguns dos que se dedicaram ao Espiritismo perderam a razão, muitos se apressaram em usar esses casos como argumento contra a doutrina. Mas essa conclusão não é razoável. O mesmo poderia ser dito de quase qualquer atividade intelectual. Quantos casos de perturbação mental já foram associados ao estudo da matemática, da medicina, da música ou da filosofia? Seria motivo para proibir essas áreas do conhecimento?

Em qualquer trabalho existe risco de desgaste. Nos trabalhos físicos, podem se ferir os braços ou as pernas, instrumentos da ação material. Nos trabalhos intelectuais, pode-se sobrecarregar o cérebro, instrumento do pensamento. Mas o fato de o instrumento falhar não significa que o espírito esteja comprometido. Este permanece intacto e, quando se liberta da matéria, recupera plenamente suas capacidades. Nesse sentido, quem sucumbe ao excesso de esforço intelectual é, de certo modo, um mártir do próprio trabalho.

Na realidade, qualquer preocupação intensa pode contribuir para o desequilíbrio mental: as ciências, as artes e até a religião já produziram casos desse tipo. A causa principal costuma estar numa predisposição orgânica do cérebro, que o torna mais sensível a certas impressões. Quando essa predisposição existe, a ideia dominante da pessoa pode transformar-se em obsessão. Para alguns será a religião, para outros a busca por riqueza, poder, uma teoria política, uma arte ou qualquer outra fixação. Assim, alguém inclinado à loucura religiosa poderia igualmente desenvolver uma loucura espírita se essa fosse sua principal preocupação, do mesmo modo que poderia manifestá-la sob qualquer outra forma.

Portanto, o Espiritismo não tem privilégio algum nesse assunto. Pode-se até dizer o contrário: quando bem compreendido, ele tende a atuar como proteção contra o desespero. Muitas perturbações mentais surgem de decepções profundas, sofrimentos intensos ou afetos frustrados, causas que também estão entre as mais frequentes do suicídio. O espírita, porém, aprende a olhar a vida de uma perspectiva mais ampla. Diante do futuro que o aguarda, as dificuldades do presente parecem menores. A existência terrena lhe surge como breve etapa de uma jornada maior, na qual as provações são experiências de aprendizado.

Essa visão favorece a resignação e reduz o desespero. Sabendo que as dificuldades podem contribuir para seu progresso e que a coragem diante delas será recompensada, ele encontra motivos para suportá-las com mais serenidade. Além disso, pelas comunicações com os Espíritos, conhece o destino infeliz daqueles que interrompem voluntariamente a própria vida, o que muitas vezes leva à reflexão e afasta decisões precipitadas. Não são poucos os que afirmam ter sido detidos nesse caminho graças a essas ideias. Esse é um dos efeitos práticos do Espiritismo.

Também o medo pode ser causa de desequilíbrio mental. O terror do diabo, por exemplo, já perturbou muitas imaginações frágeis. Quantas pessoas tiveram sua sensibilidade abalada por descrições assustadoras destinadas a inspirar medo! Diz-se que esse temor serve para disciplinar as crianças, como o velho recurso de ameaçá-las com monstros imaginários. Mas, quando o medo desaparece, o efeito costuma ser contrário ao desejado. E, para alcançar tal resultado, muitas vezes se ignoram os danos provocados em espíritos mais sensíveis.

Uma religião baseada apenas no terror seria muito frágil. Felizmente, não é nisso que se apoia sua força. Existem meios mais elevados e eficazes de tocar o coração humano. O Espiritismo oferece alguns desses recursos, capazes de fortalecer a fé e inspirar confiança, desde que sejam compreendidos e bem utilizados.

XVI

Restam ainda duas objeções que merecem exame mais atento, pois se apoiam em raciocínios aparentemente lógicos. Ambas admitem a realidade dos fenômenos observados, mas negam que neles haja participação dos Espíritos.

A primeira afirma que tudo não passaria de um efeito do magnetismo. Segundo essa ideia, o médium entraria num estado semelhante ao sonambulismo, no qual suas faculdades intelectuais se ampliariam de modo extraordinário. Nesse estado, sua percepção se tornaria mais vasta e ele poderia extrair de si mesmo conhecimentos e ideias que normalmente não possui. Assim, tudo o que diz ou escreve viria da própria mente, ainda que trate de assuntos que lhe sejam desconhecidos no estado comum.

Não negamos o poder do sonambulismo. Seus fenômenos são reais e têm sido observados há muito tempo. De fato, algumas manifestações podem ser explicadas dessa maneira. No entanto, uma observação mais prolongada revela numerosos casos em que o médium não pode ser a fonte do que se comunica, funcionando apenas como instrumento. A quem defende essa teoria, cabe responder: observem mais, pois ainda não viram tudo.

Há também uma dificuldade lógica nessa explicação. Se a teoria espírita fosse apenas uma criação humana para explicar os fatos, poderia ser atribuída à imaginação dos médiuns. Mas não foi assim que surgiu. A própria doutrina foi transmitida pelas inteligências que se manifestam por meio deles. Ora, se os médiuns possuem essa lucidez extraordinária, por que atribuiriam aos Espíritos aquilo que viria de si mesmos? Como teriam elaborado, sozinhos, um conjunto tão coerente de ideias sobre a natureza dessas inteligências? Ou são lúcidos, ou não são. Se são, e se se admite sua sinceridade, não se pode ao mesmo tempo afirmar que estejam enganados ao atribuir essas comunicações a Espíritos.

Além disso, se tudo viesse apenas do médium, suas comunicações seriam sempre semelhantes entre si. No entanto, frequentemente ele expressa ideias muito diferentes, usa linguagens variadas e transmite mensagens até contraditórias. Essa diversidade sugere que as fontes das comunicações não são sempre as mesmas e não podem estar todas nele.

Uma segunda teoria admite que o médium seja a fonte das manifestações, mas afirma que ele recolhe as ideias do ambiente. Nesse caso, o médium seria como um espelho que reflete os pensamentos, opiniões e conhecimentos das pessoas presentes. Assim, nada diria que não estivesse na mente de alguém ao redor.

A influência dos presentes nas manifestações é um fato reconhecido. No entanto, ela está longe de significar que o médium seja apenas um reflexo do pensamento coletivo. Muitos fatos mostram o contrário. Existem comunicações completamente estranhas às ideias, conhecimentos ou opiniões dos participantes, e que às vezes surgem espontaneamente, contrariando as expectativas de todos.

Diante disso, os defensores dessa teoria ampliam sua hipótese e afirmam que essa “irradiação” de pensamentos poderia vir de qualquer lugar: da cidade, do país ou até de toda a humanidade. Mas essa explicação não parece mais simples nem mais razoável que a do Espiritismo. Supor que pensamentos dispersos por toda parte se concentrem no cérebro de uma única pessoa não é menos extraordinário do que admitir a comunicação de inteligências que existem além do mundo material.

Há ainda outro ponto importante. As teorias sonambúlica e refletiva foram formuladas por alguns indivíduos para explicar os fatos; são hipóteses humanas. Já a doutrina espírita não surgiu como invenção de um pensador isolado. Ela foi transmitida pelas próprias inteligências que se manifestavam, numa época em que quase ninguém cogitava dessas ideias.

Surge então uma pergunta: de onde teriam os médiuns tirado essa doutrina, se ela não existia antes? E como explicar que milhares de médiuns, espalhados por diferentes países e sem contato entre si, tenham transmitido ensinamentos semelhantes?

Outro detalhe muitas vezes esquecido é que as primeiras manifestações não ocorreram por escrita ou fala, mas por meio de pancadas que correspondiam às letras do alfabeto, formando palavras e frases. Foi assim que as inteligências se declararam Espíritos. Mesmo que alguém tentasse atribuir as comunicações escritas ou faladas ao pensamento do médium, seria difícil explicar dessa forma as mensagens obtidas por esse sistema inicial.

Diversos fatos mostram ainda que a inteligência que se manifesta possui vontade própria e independência. Por exemplo, muitas vezes ela se recusa a responder perguntas simples, mesmo quando parecem fáceis. Se o médium fosse apenas o reflexo do pensamento das pessoas presentes, responder seria sempre possível.

Alguns opositores usam isso como argumento contrário: dizem que, se os Espíritos sabem tudo, deveriam poder responder até às questões mais simples. Mas a objeção não é convincente. Em qualquer reunião séria, perguntas fúteis ou provocativas costumam ser ignoradas. O silêncio não significa ignorância, mas recusa em tratar de questões sem importância. Da mesma forma, os Espíritos frequentemente declaram que só se ocupam de assuntos úteis.

Há ainda outro fato significativo. Muitas vezes os Espíritos se manifestam durante certo tempo e depois cessam de comunicar-se, apesar de todos os pedidos para que retornem. Se tudo dependesse apenas da vontade dos presentes e do médium, bastaria desejar para que as manifestações continuassem. Quando isso não acontece, parece evidente que existe uma influência independente da vontade humana. Esse comportamento indica que as inteligências comunicantes possuem autonomia própria.

XVII

O ceticismo em relação ao Espiritismo, quando não nasce de oposição deliberada ou de interesse, quase sempre vem do conhecimento incompleto dos fatos. Ainda assim, há quem considere o assunto encerrado sem tê-lo estudado a fundo. Pode-se ter grande inteligência ou vasta instrução e, ainda assim, faltar bom senso. Um dos sinais dessa falta é acreditar que o próprio julgamento não pode estar errado. Para muitas pessoas, as manifestações espíritas são apenas curiosidades. Esperamos que, ao ler este livro, percebam que nesses fenômenos existe algo muito mais sério do que simples entretenimento.

A ciência espírita possui dois aspectos. Um é experimental, ligado às manifestações em si; o outro é filosófico, ligado ao sentido e às consequências das manifestações inteligentes. Quem observa apenas o primeiro fica como alguém que conhece a física apenas por experiências recreativas, sem compreender seus princípios. O verdadeiro Espiritismo está no ensinamento transmitido pelos Espíritos, e esse ensinamento exige estudo atento e contínuo. Somente com observação cuidadosa é possível perceber muitos detalhes e nuances que passam despercebidos a um olhar superficial.

Se este livro tiver apenas o mérito de mostrar o caráter sério da questão e estimular estudos mais aprofundados, já terá cumprido um papel importante. Não reivindicamos para nós a autoria das ideias aqui expostas. Os princípios pertencem aos Espíritos que os transmitiram. Esperamos, contudo, que este trabalho ajude a orientar aqueles que desejam compreender melhor o assunto, mostrando que esses estudos têm um objetivo elevado: contribuir para o progresso individual e social e indicar o caminho que conduz a esse progresso.

Para concluir, consideremos uma comparação. Em certo momento, os astrônomos perceberam que a distribuição dos corpos celestes apresentava lacunas que não pareciam compatíveis com as leis que observavam. Suspeitaram então que existiam outros astros ainda não descobertos. Observando certos efeitos cuja causa não conheciam, deduziram que deveria haver ali um mundo invisível aos seus instrumentos. A partir dos efeitos, calcularam a causa, e mais tarde as observações confirmaram suas previsões.

Aplicando raciocínio semelhante à ordem dos seres, vemos uma sequência contínua que vai da matéria bruta até o ser humano mais inteligente. Mas entre o homem e Deus parece haver um imenso vazio. Seria razoável imaginar que a cadeia termina no homem e que ele passa diretamente ao infinito sem qualquer transição? A razão sugere que devem existir outros graus intermediários.

O Espiritismo afirma que esse espaço é ocupado pelos seres do mundo invisível: os Espíritos, que nada mais são do que as almas humanas em diferentes estágios de desenvolvimento. Assim, estabelece-se uma continuidade na criação, em que tudo se liga e se encadeia, do princípio ao fim.

Aos que negam a existência dos Espíritos, resta explicar o vazio que eles preenchem. E aos que deles zombam, cabe perguntar se também pretendem zombar das obras de Deus e de sua onipotência.

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